Os campos de batalha do século XXI já não são os mesmos. Já não se apresentam apenas em trincheiras, colunas de tanques ou soldados no terreno. Surgem agora através de drones com nomes de marca, algoritmos de precisão e operações conduzidas à distância. O Shahed 136 iraniano é descrito pela imprensa internacional como "barato e mortal". O MQ9 Reaper norte-americano chega aos títulos como "drone assassino", "inteligente", "furtivo" e "espectacular". A tecnologia militar passou a ser narrada com o vocabulário da inovação, como se a capacidade de matar fosse um avanço técnico comparável ao lançamento de um novo dispositivo electrónico.
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia (e as altercações no Médio Oriente) tornou-se o exemplo mais acabado desta transformação. Nunca tantos drones foram utilizados com tanta intensidade, em ataques permanentes, vigilância contínua e destruição guiada por sistemas digitais. A distância entre quem dispara e quem morre nunca foi tão curta tecnologicamente, nem tão longa humanamente. O operador já não vê um corpo; vê coordenadas, imagens térmicas e dados em tempo real. A comunicação social, como já demos a ver, acompanha esta mudança com um discurso de fascínio tecnológico, convertendo armas em protagonistas e a morte em detalhe secundário.
A estimativa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), sediado em Washington, sugere que o total de mortos entre russos e ucranianos pode se aproximar de meio milhão de soldados. Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, há mais de quatro anos, o conflito é considerado o mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
No livro O Mal que Deploramos: O Drone, o Terror e os Assassinos-Alvos (Sextante Editora, 2017), José Sócrates antecipa muitas das questões que hoje dominam os conflitos modernos: drones, vigilância permanente e morte à distância: "Há qualquer coisa de intuitivamente menos decente em matar à distância. E, no entanto, tem sido esse o percurso histórico da guerra: matar cada vez de mais longe. O drone veio introduzir novas categorias nessa distância da guerra", esclarece.
O ex-primeiro-Ministro continua: "A primeira é a distância entre o combatente e a arma letal no campo de batalha. Esta é a distância física que é hoje intermediada pelo vídeo em tempo real. A moderna guerra wireless recriou uma visualização da guerra e da contenda. Já não há mapas e reconhecimento do terreno de batalha como antigamente, agora o combate é exposto no ecrã de forma cinemascópica e alimentado por ligações de satélite. A tecnologia matou a distância, que agora permite a morte à distância", deplora.
Idem: "E, por fim, a distância essencial à guerra, a distância moral, a distância que a guerra inevitavelmente cria entre os combatentes, a distância que desqualifica e despersonaliza o outro lado, o inimigo - a distância que introduz a lógica do aniquilamento própria da guerra: não são como nós, são monstros. Em cima, invisível e superior, o soldado justo; em baixo, ao longe e sem defesa, o inimigo, esta forma inferior de vida".
Num tempo em que a guerra se afasta fisicamente dos combatentes, cresce também o risco de uma distância moral perante a morte. Entre drones e algoritmos, a eficiência tecnológica não pode substituir a responsabilidade ética sobre a vida humana.

*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto