A 2 de setembro de 1945, terminada a Segunda Guerra Mundial, uma autêntica revolução estética irrompeu no Jazz: o Bebop (também conhecido por Be Bop, Re Bop ou ReBop, ou simplesmente Bop). Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Bud Powell romperam com o Jazz mais dançável para criar uma música intelectualmente desafiante, construída sobre harmonias complexas, ritmos inesperados e improvisações de enorme virtuosismo. Muitos estranharam inicialmente aquele novo idioma. Hoje reconhece-se que o Bebop mudou para sempre a história da música moderna. É, no entendimento da maior parte dos especialistas, uma das contribuições jazzy mais fulgurantes.
Na obra primordial, "Free Jazz / Black Power", Philippe Carles, de parceria com Jean- Louis Comolli, esclarece o surgimento desse fenómeno fundamental da História do Jazz.
Segundo Carles, o Bop é mais do que um estilo: "é um movimento histórico da música negra, um trabalho colectivo de alguns dos seus melhores músicos (Parker, Monk, Clark, Gillespie, et al.)".
No Minton"s Playhouse, um cabaret no Harlem, Manhattan, Nova Iorque, alguns verdadeiros "conspiradores musicais" passam a tocar, improvisar, investigar, depois dos seus respectivos trabalhos regulares para um público composto essencialmente por músicos negros. A fadiga, a rotina e a mesmice do swing terá condicionado essa "necessidade irreprimível para os jazzmen negros de se reencontrarem na sua música, de expurgarem a sua arte das convenções impostas pelo comércio e critérios estéticos dos Brancos, que são todos uns squares (não iniciados no calão dos músicos de Jazz), uns burgueses", diz Carles.
Em suma, o BeBop, é um movimento revolucionário, corajoso e vanguardista, no contexto dos anos 40 nos "States".
O Bebop não transformou apenas o Jazz: introduziu uma nova atitude perante a criação. Na pintura, essa liberdade encontrou eco na improvisação, no ritmo, na fragmentação e na valorização do gesto (veja-se o mural do artista plástico Zan, pioneiro na divulgação do Jazz em Angola, que ainda hoje existe na residência em que viveu, na Rua Comandante Dack Doy, em Luanda). Na linguagem falada, fez-se sentir através de uma expressão mais rápida, coloquial, irreverente e sincopada - uma fala que, como o próprio Bebop, recusava a previsibilidade e procurava a surpresa.
Tornam-se inequívocas as inovações nos planos rítmico, melódico e harmónico. E mais: o próprio calão dos boppers ganha vida, passa a ser muito "in" entre a população negra.
Nos anos cinquenta surgiram diferentes caminhos. O Cool Jazz, associado a Miles Davis, Lennie Tristano, Gerry Mulligan, Chet Baker e Dave Brubeck, procurou uma sonoridade mais contida e elegante. Em paralelo, o Hard Bop, representado por Art Blakey, Horace Silver, Clifford Brown e Sonny Rollins, recuperou a energia do blues e do gospel, aproximando novamente o Jazz das suas raízes afroamericanas. É o Jazz da alma!
A década de sessenta abriu novas fronteiras. John Coltrane levou a improvisação a uma dimensão quase espiritual. Ornette Coleman inaugurou o Free Jazz, libertando a música de muitas convenções harmónicas. Charles Mingus mostrou que tradição e inovação podiam coexistir numa mesma obra. Poucos movimentos artísticos revelaram tamanha capacidade de renovação permanente.
Mais tarde apareceu a fusão entre Jazz, rock e música eléctrica. Miles Davis voltou a surpreender o mundo com Bitches Brew, iniciando uma corrente que aproximaria o Jazz de novos públicos. Vieram depois o Jazz latino, o Jazz contemporâneo, as experiências com músicas africanas, brasileiras, árabes e asiáticas, confirmando que esta linguagem possuía uma extraordinária capacidade de absorver culturas sem perder a própria identidade.
Ao longo deste percurso brilhante, o Jazz conheceu também tragédias humanas que marcaram profundamente a sua memória colectiva.
Charlie Parker, talvez o maior improvisador de sempre, revolucionou completamente a linguagem do saxofone. O génio criativo conviveu, porém, com uma vida marcada pelos excessos. Morreu em 1955, com apenas trinta e quatro anos. Conta-se que o médico que observou o seu corpo estimou inicialmente uma idade muito superior, tal era o desgaste físico provocado por uma existência intensa e dramática.
Também Lester Young partiu demasiado cedo. O seu fraseado elegante, subtil e profundamente lírico influenciou praticamente todos os grandes saxofonistas que lhe sucederam. A guerra, o alcoolismo e a fragilidade emocional contribuíram para um declínio precoce. Morreu poucos meses depois de Billie Holiday, em 1959, aos quarenta e nove anos. Os dois pareciam ligados por uma amizade artística que sobreviveu até ao fim.
Estas perdas recordam-nos que o Jazz foi construído por homens e mulheres extraordinários, mas frequentemente sujeitos a condições sociais profundamente injustas. Muitos dos seus maiores criadores enfrentaram discriminação racial, pobreza, exploração comercial e enormes dificuldades pessoais. Apesar disso, produziram algumas das páginas mais luminosas da cultura contemporânea.
É precisamente essa capacidade de transformar sofrimento em beleza que explica a singular importância do Jazz na história da música mundial. Nenhuma outra linguagem musical influenciou de forma tão decisiva tantos estilos diferentes: o rhythm and blues, o soul, o rock, a bossa nova, o funk, o hip-hop e grande parte da música popular contemporânea devem muito à criatividade dos músicos de Jazz.
Mas o Jazz influenciou igualmente a música clássica. Compositores como George Gershwin, Maurice Ravel, Darius Milhaud, Igor Stravinsky ou Leonard Bernstein reconheceram publicamente essa influência. Hoje, conservatórios e universidades de todos os continentes estudam o Jazz com o mesmo rigor dedicado às grandes tradições clássicas.
Chegados ao século XXI, importa afirmar uma evidência que durante décadas foi ignorada por muitos sectores culturais: o Jazz venceu definitivamente o combate pelo reconhecimento. Já ninguém lhe pode negar estatuto artístico. É património da Humanidade, linguagem universal e símbolo maior da liberdade criativa.
O Jazz continua vivo porque permanece aberto ao diálogo e à inovação.
Existe, porém, um paradoxo que merece urgente reflexão. Sendo o Jazz uma das mais extraordinárias criações da diáspora africana, verifica-se que parte significativa das elites culturais e políticas africanas continua a não investir suficientemente na preservação e valorização deste legado. Em muitos países, a prioridade cultural parece afastar-se de um património que também lhes pertence por direito histórico.
Felizmente, há excepções encorajadoras. A África do Sul construiu uma tradição jazzística respeitada internacionalmente. A Nigéria tem produzido músicos de enorme qualidade e novos espaços de criação. O Senegal continua a afirmar uma identidade musical profundamente aberta ao diálogo com o Jazz. E Moçambique, apesar das dificuldades conhecidas, designadamente fenómenos climáticos extremos, mantém uma comunidade artística dinâmica, onde o Jazz continua a encontrar intérpretes, compositores e públicos atentos.
Talvez o futuro passe precisamente por esse reencontro entre África e uma das suas mais extraordinárias heranças culturais. O Jazz nunca pertenceu exclusivamente aos Estados Unidos; pertence à Humanidade inteira. É uma linguagem que nasceu da experiência africana, floresceu na América e conquistou o mundo.
Mais de cem anos depois das primeiras notas improvisadas em New Orleans, continua a ensinar-nos uma lição simples e profundamente actual: a verdadeira grandeza nasce da liberdade, da escuta, da criatividade e do respeito pelo outro.
Enquanto houver músicos dispostos a improvisar, enquanto houver ouvintes capazes de se emocionar perante um solo sincero, enquanto houver jovens que descubram Louis Armstrong, Duke Ellington, Billie Holiday, Charlie Parker, Lester Young, Miles Davis, John Coltrane ou tantos outros mestres, o Jazz continuará vivo.
Porque o Jazz não é apenas uma música.
É uma das mais belas formas de liberdade que a Humanidade alguma vez inventou.