O processo de formação de elites e da sua participação no projeto nacional é um processo que varia de país para país e está condicionado pela história, pela geografia e pela cultura e muda ao longo do tempo. Por exemplo, as elites portuguesas que iniciam o processo de expansão europeia com a conquista de Ceuta em 1415 e participam na construção de um império marítimo global, não são as mesmas elites que hoje governam Portugal, hoje um país hoje periférico, próspero, mas dentro do projeto de integração europeia da União Europeia. O ponto essencial é que o papel das elites não é estático e varia e nem sempre é positivo, por vezes as elites nacionais traem o desígnio nacional em determinados momentos históricos como a Aristocracia Portuguesa o fez em 1580 quando ofereceu o trono português à Filipe II de Espanha, essa decisão condenou a nação lusa ao atraso estrutural por séculos, no seio da Europa e tornou Portugal um país secundário no concerto das grandes potências.
O papel das elites nos três grandes objetivos que citamos nacionais é importante, são as elites que criam ou promovem os mitos fundadores, são elas que educam ou não educam a maioria da população, são as elites que decidem sobre o modelo económico nacional, daí ser de suma importância refletir sobre o papel das elites. No Brasil o famoso livro do Sociólogo Brasileiro Jessé Souza a "Elite do Atraso" retrata o papel das elites brasileiras no atraso estrutural do Brasil e esse texto deveria ser leitura obrigatória porque retrata o papel das elites no atraso estrutural de um país e o papel dessas elites, que preferimos designar de "elites do subdesenvolvimento".
As elites do subdesenvolvimento não têm ideologia, são autênticos camaleões políticos, porque essas elites são oportunistas, típicas do rentismo extractivista. Não há Liberalismo ou Comunismo para essas elites, o objetivo é distinto, para elas o grande objetivo é sobreviver acopladas ao Estado ou um modelo privado extractivista, são elites que facilmente também se tornam anarco-capitalistas se isso as beneficiar, num modelo monopolista como ocorreu durante o período do tráfico de escravos. Não há para essas elites um modelo de desenvolvimento nacional, o que existe é um modo de sobrevivência de grupo e solidariedade de grupo, acima de qualquer modelo ideológico, isso confunde muita gente no ocidente que tenta encontrar lógica ideológica, quando o que existe é mero oportunismo e lógica de saque.
O papel das elites na construção do Estado, da nacionalidade e de um modelo económico não deve ser subestimado. Nas elites do subdesenvolvimento, esse papel também existe, mas numa visão rentista, o papel dessas elites é ser o guardião fiel do capital transnacional e das grandes potências, são meros supervisores dentro de um modelo neocolonial, onde os países que elas governam são como grandes fazendas.
Não existe soberania económica para as elites do subdesenvolvimento, o que há é um papel de vassalagem na divisão internacional de trabalho, onde estas elites são meras gestoras dos recursos minerais e agrícolas. Para as elites do subdesenvolvimento, o projeto nacional de industrialização é uma mera narrativa, não há interesse em criar grupos nacionais que iniciem um processo de industrialização, porque no modelo rentista é mais fácil viver dos ganhos das matérias primas, num extractivismo primário e podemos observar isso da América Latina à África.
Para as elites do subdesenvolvimento, não há um projecto de construção de uma burguesia nacional real, como ocorreu com os Chaebol da Coreia ou os Zaibatsu do Japão, os motores da industrialização desses países. Por isso é que a aposta dessa elite do subdesenvolvimento é extrair o capital para o exterior, porque o objectivo não é criar uma burguesia nacional e por isso não podemos confundir uma burguesia nacional com elites rentistas. A distinção parece semântica, mas não é, revela a diferença que as elites têm no projeto de desenvolvimento nacional.
As elites subdesenvolvidas preferem o simulacro das elites desenvolvidas, e o uso de sinais distintivos como o uso do Rolex e da mala da Louis Vuitton, porque são smbolos s daquilo que é uma ficção no seu imaginário, que é ser como as elites ocidentais, atingir o consumo das elites ocidentais, esse é o nirvana das elites do subdesenvolvimento, que culmina com uma casa em Lisboa ou em Miami, no caso das elites do subdesenvolvimento latinas.
Mas essa chegada à Ítaca do ocidente é um falso alvorecer, porque essa terra de maná e mel não existe, porque não foi construída por elas, ao contrário das elites ocidentais que tanto emulam, as elites do subdesenvolvimento vivem numa dissonância cognitiva, convivem muito bem entre a opulência e a pobreza nos seus países de origem, porque a sua pátria real imaginada é o ocidente. Nem conseguem aprender com a história, na Inglaterra foi a aliança entre a aristocracia e a burguesia que permitiu a revolução industrial, nesse modelo o processo político funcionou como uma síntese dessa economia política, explicada de Marx à Weber.
Existem diferenças gigantescas entre as elites do subdesenvolvimento com elites produtivas que vivem na realidade de países em vias de desenvolvimento, essas elites não se resignam perante à pobreza e não a aceitam, por isso a China e a Arábia Saudita devem ser estudadas, a primeira porque retirou 800 milhões de pessoas da pobreza absoluta nos últimos 40 anos e a segunda porque não se contentou em ser um mero PetroEstado para elites rentistas, mas fez um pacto social com a sua população mais pobre e a retirou da pobreza. Isto em regimes não democráticos, houve pactos sociais que funcionam até hoje. Por isso não podemos classificar essas elites como subdesenvolvidas, mas devemos vê-las como elites comprometidas com projetos de desenvolvimento nacional e isso é importante, porque há várias fórmulas que podemos usar como arquétipos.
Nessa elite do subdesenvolvimento não há lugar a uma dimensão espiritual, mesmo quando citam textos bíblicos, eles servem apenas para justificar as "bençãos" que dizem receber do "divino", para a elite do subdesenvolvimento a compra de um Range-Rover ou uma viagem ao Dubai são as recompensas espirituais e sinais da "sanção divina", não espanta que adotem uma teologia da prosperidade, como base do viver.
Muitas vezes, essas elites despem-se da sua autenticidade e adotam uma vida dual, por um lado, assumem um papel ocidental, por outro, sentem um profundo complexo de inferioridade por não serem ocidentais, que tanto almejam emular, e não é um acaso que se sentem mais a vontade entre o falso ídolo que veneram, do que nos seus povoados e aldeias de origem.
É importante referir que nesse processo de formação de elites do subdesenvolvimento, o "credencialismo" assume uma importância fulcral, mais do que produzir quadros que transformem o país, a sua economia e governação, as elites do subdesenvolvimento colecionam títulos, sem qualquer agência no processo de transformação do país. Nesse modelo, as elites são meras guardiãs das riquezas naturais e tornam-se apenas agentes do capital transnacional e não são verdadeiramente soberanas, são elites "quase-feudais", e para usar um termo científico, são elites "neopatrimonialistas".
De nada adianta falar de instituições extractivas sem abordar o papel das elites na construção do Estado, do projeto nacional de desenvolvimento económico e da construção da identidade comum. E em Estados frágeis, essas elites falham nesses três grandes objetivos, por isso são elites do subdesenvolvimento. Não há atalhos para o desenvolvimento e se nesse processo as elites falham, não é de espantar que os países não consigam desenvolver-se e vivam em eterna dependência das grandes potências, apesar de terem recursos grandes e aqui chegamos ao âmago desta reflexão, a ausência de elites iluminadas e de burguesias nacionalistas, e isso explica muito mais o subdesenvolvimento do que análises meramente ideológicas, a culpa começa sempre nestas elites do subdesenvolvimento.
As Elites do Subdesenvolvimento
Em qualquer processo de desenvolvimento económico temos de olhar para o papel das elites. São as elites económicas, culturais e políticas que permitem que os países se desenvolvam economicamente e nesse processo as elites, principalmente em países em vias de desenvolvimento têm um papel fulcral em três objetivos essenciais de qualquer Nação: são elas que formulam e participam no processo de construção do Estado, do projeto de desenvolvimento económico nacional e do processo construção da identidade nacional e da nacionalidade.
