A sua argumentação actual reavivou em mim uma reflexão antiga. Através de um artigo no jornal português Público, de 1996, intitulado "Democratizar África ou Africanizar a Democracia?", tomei conhecimento das preocupações pioneiras de Carlos Lopes com a necessidade de os africanos romperem com a narrativa dominante e procurarem encontrar os seus próprios caminhos para o desenvolvimento. Curiosamente, dois anos antes, havia ficado impressionado com o pensamento de Alan Fowler - o académico sul-africano conhecido pelo seu conceito de Civic Driven Change ou "Mudança Impulsionada pelos Cidadãos" -e percebi, desde logo, como a visão de ambos se cruzava na crítica cirúrgica aos modelos de ajuda internacional e cooperação para o desenvolvimento. Tanto Lopes como Fowler entendiam que estas dinâmicas externas tentavam, de forma artificial, "enxertar" instituições e modelos do Ocidente em solo africano sem o devido enraizamento histórico e cultural. Estes dois acontecimentos influenciaram, em muito, o meu pensamento sobre a policrise e os caminhos para o desenvolvimento de Angola.

O grande mérito da abordagem do também sociólogo e doutorado em História, discípulo do nosso Mário Pinto de Andrade (1928-1990) e do revolucionário suiço Jean Ziegler (1934-2026), reside na recusa em vitimizar o continente. Ele sugere soluções internas, instando os líderes africanos a assumirem a responsabilidade pelo seu próprio destino económico. A sua defesa de uma industrialização verde e a valorização das cadeias de suprimento locais demonstram uma visão de vanguarda, perfeitamente alinhada com as exigências climáticas e tecnológicas do século XXI - e argumentou com propriedade que África possui uma vantagem tardia (latecomer advantage). O continente pode saltar etapas tecnológicas para uma matriz assente em energias renováveis e na transformação local de minerais críticos e de outras matérias primas, principalmente da área agrícola. Esta abordagem não só responde às urgências climáticas, como reposiciona África no coração da transição energética global, gerando empregos qualificados e retendo o valor acrescentado que historicamente sempre foi exportado. É uma retórica polida, tecnicamente irrepreensível e politicamente mobilizadora, capaz de injectar a dose de auto-estima de que as lideranças e a juventude africanas tanto carecem para enfrentar as assimetrias globais.

Contudo, a sofisticação teórica de Carlos Lopes parece esbarrar, por vezes, num excesso de optimismo que flerta com a utopia e parece descolado das realidades estruturais mais duras do terreno. Ao projectar o futuro de África, o economista aparentou um posicionamento contrário ao seu pensamento, subestimando a persistência e a profundidade das crises estruturais que afectam o desenvolvimento do continente. A instabilidade política crónica, o ressurgimento de rupturas constitucionais na região do Sahel e a fragilidade institucional não são meros "soluços" no percurso para o progresso. São barreiras sistémicas e profundas. Este entusiasmo teórico corre o risco de romantizar o dividendo demográfico, quando, na verdade, sem reformas profundas, essa mesma demografia pode converter-se numa bomba-relógio geradora de crise social, desemprego e instabilidade.

Ademais, o impacto devastador das alterações climáticas e a crise sufocante da dívida externa exigem um maior banho de realismo. O foco persistente nas promessas do futuro obscurece as urgências do presente. O optimismo de Carlos Lopes é inspirador, mas, ao evitar confrontar de forma mais incisiva o peso do autoritarismo, da corrupção endémica e da falta de responsabilização das elites políticas, cria um ponto cego numa narrativa que se deseja transformadora.

O conferencista atribuiu prioridade absoluta à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) como a chave para o desenvolvimento de África. A integração aduaneira é, indiscutivelmente, um passo histórico. No entanto, um mercado livre de tarifas pouco ou nada serve se os países não tiverem produtos competitivos para trocar ou estradas para os fazer circular. Focar no comércio sem resolver, em simultâneo, os gravíssimos défices institucionais, défices de infraestruturas logísticas, de transportes transfronteiriços e de fornecimento estável de energia é colocar a carroça económica à frente dos bois.

Esta assimetria fica evidente quando analisamos o impacto da dinâmica em Angola. O país tem feito progressos assinaláveis, aprovando a sua estratégia nacional para a ZCLCA e investindo seriamente no Corredor do Lobito e na expansão da sua infraestrutura energética. Contudo, a economia angolana ainda não ultrapassou a excessiva dependência do sector petrolífero e detém um sector manufactureiro nacional embrionário. Lançar o mercado nacional numa abertura comercial continental abrupta, sem que as indústrias locais estejam robustecidas e protegidas de assimetrias competitivas, pode penalizar a produção interna em detrimento de economias mais industrializadas, como a África do Sul, Marrocos ou o Quénia. Para Angola, a ZCLCA é uma oportunidade estratégica inegável, mas apenas se for o culminar de um processo interno de diversificação económica e consolidação institucional e infraestrutural, e nunca o seu ponto de partida. E se se dispuser a curar as doenças de que Angola padece: a holandesa e a "angolana", que, como se sabe, tem como sintoma a mania das grandezas sem que se tenham condições para tal.

Para que o comércio livre gere riqueza real e inclusiva, o continente deve abraçar outras mudanças estruturais urgentes que o conferencista colocou em segundo plano. A primeira é a reforma educativa. O sistema de ensino africano precisa de ser urgentemente reconfigurado para responder às necessidades do mercado moderno, focando-se nas áreas da ciência, tecnologia, da engenharia e da matemática (STEM). A segunda mudança crítica é a reforma institucional e a segurança jurídica. Os investidores não procuram apenas mercados grandes; procuram estabilidade, tribunais independentes que garantam o cumprimento de contratos e a mitigação do risco político. A integração económica falhará se os países não tiverem pessoas qualificadas e continuarem a fechar fronteiras unilateralmente por rivalidades políticas ou se a instabilidade cambial inviabilizar o planeamento empresarial a longo prazo.

Em suma, a intervenção de Carlos Lopes no Pensar Global - uma saudação ao Nuno Fernandes e à sua equipa que em boa hora tiveram tal iniciativa, que devia servir de exemplo à mediocridade que tantas vezes nos é imposta - foi um exercício intelectual de altíssimo nível, que cumpre o papel nobre de elevar a fasquia da ambição africana e de projectar o continente como uma potência do futuro. O seu diagnóstico económico é sofisticado e o seu apelo à integração continental através da ZCLCA é um norte que todos devem seguir.
No entanto, para que esta visão se materialize, o compreensível optimismo académico deve ser temperado com o pragmatismo político. A ZCLCA não resolverá os problemas de África de forma isolada. Ela deve ser entendida não como a prioridade única, mas como o tecto de um edifício cuja fundação exige paz, estabilidade institucional, infraestruturas modernas e educação de qualidade. O futuro de África será brilhante, como prevê Carlos Lopes, mas apenas se tivermos a coragem de resolver as fundações do presente com o mesmo entusiasmo com que debatemos as promessas do amanhã.