Resta também a esperança - ainda que saiba que estou a ser ingénuo - de que este tenha sido o último acto de um cerimonial repetitivo e irritante como é o que acompanha os discursos. O espectador prevê cada um dos passos, desde a chegada de Sua Excelência ao local. Tudo relatado com exaltação pelo locutor de serviço. Um desperdício de tempo e de dinheiro. Um péssimo exemplo ostentatório que se reproduz nas províncias e nos municípios expondo situações que raiam o ridículo. Os novos endinheirados aproveitam e disputam o título de casamento ou aniversário mais luxuoso para os seus descendentes. Uns e outros não percebem o ódio que esses comportamentos provocam nos cidadãos, afastando-os cada vez mais dos governantes. Não se preocupam em contabilizar o quanto esses gastos, de tempo e de dinheiro, prejudicam o País. Esquecem-se de que a dignidade, tantas vezes invocada, é muito mais amiga da simplicidade e da humildade do que do fausto que embriaga as mentes novo ricas angolanas.

Não sei o que ele irá dizer ou terá dito... repito. Contudo, acredito que não tenha falado de coisas que preocupam a maioria das pessoas. Dos seus feitos e dos seus sonhos. Porque o Presidente João Lourenço parece não saber interpretar os anseios do povo. Depois do tempo e do dinheiro gasto - talvez não contabilizados no excelente e oportuno estudo de Olívio Kilumbo e Hélder Preza - tudo fica na mesma. Uns bajulam, incluindo os que não conseguiram afugentar o sono, outros criticam. Fica assim. Porque a nossa Constituição não permite que o Presidente seja questionado pelos deputados. Afinal, para que serviu o espectáculo?

Estive recentemente em Xangongo, no Cunene. Foi lá que teve lugar o Encontro Nacional das Comunidades, promovido anualmente pela ADRA, desde 2001. É um jango onde representantes das comunidades, organizadas em cooperativas e associações, ou não, trocam experiências, relatam boas práticas e interagem com representantes da administração central e local do Estado, os primeiros convidados de acordo com os assuntos agendados. Trata-se de um verdadeiro jango, com ampla participação efectiva, porque as pessoas se sentem livres para fazerem críticas e emitirem opiniões, sem amarras.

Uma senhora, representante de uma cooperativa de mulheres que beneficiou da instalação de painéis solares fornecidos por uma empresa privada, falou sobre a transformação que a vida local está a sofrer. A senhora era analfabeta quando conheceu a ADRA. Hoje tem um curso médio de magistério primário, uma filha a acabar o curso no Instituto Médio de Saúde do Cubal, uma casa reformada, arca frigorífica, acesso ao gabinete do Administrador Municipal sempre que precisa, até o seu número de telefone. Isto é cidadania. Não a da propaganda sobre a aquisição do Bilhete de Identidade, mas a substantiva, aquela que permite a luta por direitos e aumenta a auto-estima.

Manifestação de cidadania veio também de representantes de comunidades de Benguela. Eles criticaram o silêncio do Executivo sobre o questionamento da Nova Divisão Administrativa relativo à transferência da povoação do Luacho, do Dombe Grande para a Baía Farta, feito num abaixo assinado com 1150 assinaturas e repetido no Encontro do ano passado. Para além de aspectos identitários legítimos, o questionamento incide sobre prejuízos financeiros que recaem na população, como, por exemplo, os gastos em deslocações e transportes para tratar de documentos e que mais do que duplicam quando os mesmos têm de ser tratados na sede do município. Se houve auscultação no Dombe Grande para a transferência, foi mal feita ou foi desconsiderado o que foi ouvido. Esta é a atenção que merecem os problemas do povo.

Outra senhora falou das cisternas calçadão. Uma cisterna calçadão custa entre três e cinco milhões de kwanzas, é construída por operários locais, pode ser enchida com água da chuva e abastece 10 a 12 famílias durante cerca de quatro meses. Findos estes, pode ser reabastecida com água transportada do rio, enquanto a chuva não volta. A cisterna calçadão é uma solução usada com sucesso noutras paragens de contexto semiárido. Por ser barata e por assentar em recursos locais e numa tecnologia gerível pela comunidade. Em Angola, não tem merecido atenção por parte das Administrações Municipais, salvo duas ou três excepções... talvez porque se acha que as verbas do Programa de Combate à Pobreza são mais bem aplicadas em infraestruturas, as cisternas não dão mixa. As cisternas calçadão não são uma alternativa ao canal do Cafu, mas uma solução para o problema da água para consumo doméstico que tem impactos na saúde pública e na economia familiar.

O canal do Cafu também mereceu discussão. Sem os elogios bacocos da TPA, mas com argumentos de quem acha que nada é perfeito e é sempre possível fazer melhor. A população pastoril não está totalmente satisfeita, os novos agricultores são, na sua maioria, "vientes", fala-se mais de investidores do que de satisfazer necessidades locais. O ambiente proporcionou a um representante de uma instituição do Estado o espaço para dizer o que lhe vai na alma: o canal afectou a dinâmica das águas da chuva e o papel da "evanda" como "uma estação das chuvas no cacimbo", quando as águas do rio Cunene baixam e permitem a rebentação antecipada de pastos. Confirmou, assim, as denúncias do investigador Adriano Gomes nos seus livros, correndo quer as denúncias quer os livros um sério risco de serem ignorados. Não se sabe o que se passou com um anunciado desenvolvimento do Vale do Cunene, à semelhança do Vale de S. Francisco, no Brasil. Antes da preocupação com os investidores deveria ter havido a preocupação com os investigadores.

O que se passa no Cunene traduz o pecado original do Executivo angolano em matéria de desenvolvimento. Acredita que as grandes obras de hidráulica vão "trazer" desenvolvimento. Este só poderá acontecer através de uma intervenção holística que permita a solução integrada de problemas fundamentais: água, pasto, assistência veterinária e zootécnica, comércio e matadouros. A par de saúde e educação. Isso não seria um obstáculo ao investimento privado. Pelo contrário. Para uma abordagem como esta seria, contudo, necessária uma visão de desenvolvimento participativo e inclusivo que o Executivo não tem.

Este é um exercício sobre temas que dizem respeito ao Estado da Nação. E ao mesmo tempo à vida das pessoas. Claro que não constam das preocupações actuais do Presidente, esquecidas que estão as promessas de 2017. No momento em que escrevo, não sei se referiu que este foi o seu último Estado da Nação. Mas não resisto a citar João Armando no editorial do Expansão do passado dia 9-10-26: "Na política, como nas empresas, no futebol e na própria vida, há um tempo para entrar, um tempo para fazer e um tempo para sair. Os melhores percebem os três. Os outros normalmente percebem os dois primeiros. (...)"