"Adieu à l'Opéra" remete para uma questão actual em Angola: até que ponto alguém deixa de ser útil à idade institucional da reforma (ou mesmo por ter ideias próprias ou competência comprovada). O documentário segue três bailarinos do Ballet da Ópera de Paris na véspera da reforma compulsiva (obrigatória aos 42 anos) e o esforço de se reinventarem depois de uma vida inteira dedicada à companhia. Uma realidade paralela existe em Angola, onde o foco institucional compulsivo na "juventude" deixa muitos dos antigos artistas (e outros profissionais de outras áreas) à margem, sem qualquer dignificação após uma vida de dedicação.
É verdade que o corpo de um bailarino se esgota antes da capacidade intelectual e que a dança profissional exige uma prestação física que os anos vão comprometendo. Todavia, hoje é possível dançar até mais tarde, dada a maior abertura da dança e os novos posicionamentos em relação às possibilidades do corpo. Por outro lado, o conhecimento acumulado ao longo de décadas de palco, aliado a competências pedagógicas, pode sempre ser investido no ensino ou na criação coreográfica, permitindo a continuidade da carreira sob outras formas.
São vários os países que há muito compreenderam a relevância dos veteranos, com as universidades a criar estatutos próprios para os reter. Em Cambridge, o título de Emeritus é conferido a qualquer professor que se reforma. Harvard exige, pelo menos, sessenta anos de idade e cinco anos de serviço contínuo para conceder o título de Professor Emérito mas, quem preferir manter-se activamente ligado à investigação, pode solicitar o título de Research Professor, renovável por até cinco anos. No Japão, o título de Professor Emérito está consagrado por lei desde 1950 e qualquer universidade o pode atribuir a docentes com mérito comprovado. Em Portugal, universidades como Lisboa, Coimbra ou a Nova concedem o título de Professor Emérito a quem se distinguiu pela sua acção e prestígio adquirido no seu campo académico.
Todos estes sistemas partilham a lógica de que a reforma não invalida a relevância profissional adquirida. Em Angola, o caminho tem sido outro. Afastam-se irreflectidamente pessoas com experiência ainda a partilhar, enquanto outras são simplesmente deixadas de lado. Dispensa-se, por exemplo, um investigador altamente qualificado com anos de experiência, antes mesmo dos 65 anos, como se a idade fosse, por si só, motivo de descarte. Ao mesmo tempo, promove-se com pressa quem serve interesses de conveniência, ainda sem obra ou qualificação que o legitime. A obsessão com a juventude chega ao ponto de se atribuir estatuto de "histórico" a quem, com menos de trinta anos, tenha um currículo quase em branco.
Nas artes, a longevidade apresenta casos extraordinários aos quais importa dar relevo. Martha Graham coreografou até à sua 191ª obra (aos 90 anos) e estava a criar uma nova peça quando partiu. Merce Cunningham manteve-se à frente da sua companhia até ao fim, com 90. No Japão, os grandes artistas são tratados como tesouros nacionais e a idade de reforma varia de acordo com um posicionamento cultural diferente. O mestre de Butoh, Kazuo Ohno coreografou e dançou até aos 100 anos de idade e o seu legado é hoje reconhecido em todo o mundo. Em África, Germaine Acogny, com 81 anos de idade está activa como coreógrafa e bailarina. Fundou a École des Sables e criou uma técnica que junta tradição africana e contemporaneidade. Com a sua visão progressista implementou, com Maurice Béjart, o projecto Mudra Afrique, em Dakar, que produziu uma geração de coreógrafos africanos, entre os quais Irène Tassembédo que continua, aos 70 anos, a criar. Tem a sua própria escola de dança em Ouagadougou, um festival internacional de dança (FIDO) e iniciou-se como realizadora depois dos 60.
No cinema, Manoel de Oliveira realizou filmes até aos 106 anos, depois de ter sido censurado, durante décadas, pelo fascismo português. Ousmane Sembène, pai do cinema africano, fez do ecrã uma arma de denúncia contra o colonialismo, até ao fim da vida. Bergman, Fellini e Kurosawa filmaram décadas a fio (até aos 85, 70 e 83 anos, respectivamente) depois de terem definido, cada um deles, uma linguagem própria e reconhecível.
Na literatura, José Saramago escreveu até morrer, aos 87. Wole Soyinka, dramaturgo e Nobel nigeriano, continua activo, depois dos 90, sem que a prisão durante a guerra civil do seu país o tenha calado. Ngũgĩ wa Thiong'o manteve-se a escrever quase até ao fim, aos 87. Toni Morrison publicou até morrer, aos 88 e Maya Angelou manteve-se influente até aos 86.
Nas artes plásticas, Picasso (que denunciou o fascismo com "Guernica") trabalhou até morrer, aos 91. Louise Bourgeois esculpiu até aos 98. Anna Mary Robertson Moses, (Grandma Moses), iniciou-se como pintora aos 78 anos e não parou até aos 101. Eldzier Cortor, pintor afro-americano, viveu e trabalhou até aos 99.
Na música, a longevidade também se cruzou com as causas sociais e políticas do seu tempo. Fela Kuti criou o Afrobeat e enfrentou ditaduras nigerianas até ao fim dos seus dias. Miriam Makeba, a "Mama África", denunciou o apartheid perante a ONU e viveu exilada sem nunca deixar de cantar. Nina Simone transformou o piano em resistência pelos direitos civis e Caetano Veloso e Gilberto Gil, presos pela ditadura militar brasileira, continuam a apresentar-se em público. B.B. King permaneceu em palco quase até à morte, aos 89. Em Angola, Bonga Kwenda celebrou, em 2025, 83 anos de idade e 60 de carreira continuando a encher salas com os seus concertos.
No teatro, Peter Brook revolucionou a cena europeia com um minimalismo que atravessou o século, e Augusto Boal, também perseguido pela ditadura brasileira, transformou o espectador em "espect-actor" através do Teatro do Oprimido, método ainda hoje ensinado e praticado em todo o mundo. Ambos trabalharam até ao fim das suas vidas, o primeiro com 97 e o segundo com 78 anos de idade.
Além de terem vivido muitos anos, também liga todos estes nomes o facto de terem edificado uma obra que resistiu ao tempo e o terem permanecido activos na defesa das suas convicções e na luta pelos ideais que orientaram os seus percursos. Uma vida activa mais longa pode significar mais tempo para consolidar uma obra, mas também para orientar os mais jovens, tantas vezes sem referências consistentes e inspiradoras.
Naturalmente que não se pretende desvalorizar a energia e o talento da juventude, mas alertar para um sistema que os apressa sem lhes assegurar formação e tempo de amadurecimento, instrumentalizando-os, por vezes, como imagem de renovação ou promessa de sucesso, em vez de investir na sua verdadeira capacitação e autonomia.
Enquanto o mundo cria estatutos para reter e manter viva a imagem dos seus "heróis intelectuais", Angola teima em promover os "fazedores" enquanto apaga do mapa os "bons", como se o vigor de ser jovem bastasse para dispensar o exemplo e a lucidez de quem empenhou a vida inteira a dignificar Angola, nos mais diversos sectores. Perde o país; perdemos todos.

Talvez ainda haja tempo para as instituições angolanas aprenderem a honrar, em vida, os que a História virá, implacavelmente, a reconhecer mais tarde!