Num contexto em que muitas iniciativas culturais surgem e desaparecem ao sabor das circunstâncias, a realização de mais esta edição constitui, por si só, um feito extraordinário, provando que o Elinga Teatro se mantém como a mais consistente instituição teatral angolana.
Apesar da data da sua fundação oficial ser o dia 21 de Maio de 1988, o Elinga assenta as suas raízes no Grupo Tchinganje (entre 1975 e 1976), prosseguindo com o Grupo Xilenga-Teatro (entre 1977 e 1980) e, posteriormente, continuado no Grupo de Teatro da Faculdade de Medicina de Luanda (entre 1984 e 1987). Ao longo destas sucessivas etapas manteve-se a liderança artística do seu fundador, José Mena Abrantes, e um núcleo de colaboradores unidos por uma convicção comum: fazer teatro como acto de intervenção cultural e cidadã.
Em décadas de actividade, o Elinga construiu um repertório de 66 peças, participou em 52 festivais internacionais e apresentou os seus espectáculos em 29 cidades de nove países e quatro continentes.
O grupo foi também um dos principais responsáveis pela afirmação do teatro de autor em Angola, privilegiando textos de elevada qualidade literária e propostas dramatúrgicas consistentes, muitas delas centradas na identidade, na história e nas transformações da sociedade angolana. Paralelamente, tem desenvolvido um trabalho contínuo na formação de públicos e no campo da intervenção social, mantendo o teatro como espaço de encontro, debate e participação cívica.
Ao longo dos anos, o Elinga construiu uma cultura de trabalho única, assente na solidariedade entre os seus membros e numa dedicação que transcende as funções artísticas. Muitos dos seus integrantes desempenham simultaneamente tarefas de produção, administração, gestão técnica e apoio logístico, numa demonstração de militância cultural que explica, em grande medida, a longevidade do projecto.
Nesse percurso merece destaque o papel de Anacleta Pereira, actual directora artística, actriz, figurinista e produtora, cuja dedicação incondicional contribui decisivamente para a continuidade do projecto. Do tempo da fundação do grupo resistem (!) também a Pulquéria e a Bete.
Símbolo dessa persistência é, igualmente, o histórico sobrado do antigo Largo Tristão da Cunha. Ameaçado de demolição há alguns anos (apesar do seu estatudo de edifício patrimonial classificado), acabou por ser poupado, quase contra todas as probabilidades, permanecendo como um dos espaços culturais independentes da cidade. O espaço foi alvo de trabalhos de recuperação e beneficia agora de condições técnicas e de acolhimento mais adequadas às exigências de espectáculos profissionais, fruto do esforço solidário dos membros da companhia. A sua preservação significa a salvaguarda de um lugar de convívio, de criação e de ebulição artística que marcou várias gerações de criadores e espectadores.
Chegado à sua sétima edição, o Festival Internacional de Teatro e [outras] Artes continua a afirmar-se enquanto plataforma de intercâmbio cultural e estímulo à produção artística nacional. O encerramento deste ano proporcionou um momento particular: a bailarina e coreógrafa angolana Bibiana Figueiredo apresentou Vidas de Pedra, uma criação de forte carga emocional inspirada na história da sua avó e nas marcas de um passado de violência colonial. Com música de Tipo Estéreo e desenho de luz de Paulo Cochat, a performance conectou memória, movimento e evocação poética numa peça de grande beleza estética.
Ao atingir a respeitável idade de 38 anos, o Elinga Teatro continua a demonstrar uma notável capacidade de resiliência. O seu percurso é a prova de que só a qualidade artística, a coerência, a fidelidade e uma gestão feita com alma permitem esta fantástica resistência ao tempo.
O Elinga não se instalou; ele continua em trânsito para o futuro!
Parabéns, companheiros de luta!
Coreógrafa e Investigadora