Esta operação não constitui um episódio isolado. É a continuação de uma vaga de importações que, desde Janeiro de 2026, está a colocar o produtor angolano perante uma concorrência externa impossível de enfrentar.
Nos registos anteriormente analisados constavam cinco navios: o Agia Charis, com 15.300 toneladas; o De Sheng Hai, com 33.000; o Star Explorer, com 19.936; o Apogee Endeavour, com 17.846; e o Seastar Endeavour, com 21.125 toneladas. Somados ao carregamento agora anunciado, estes desembarques elevam para 123.705,90 toneladas o milho identificado em apenas seis navios desde o início do ano.
São mais de 123 milhões de quilogramas de milho estrangeiro colocados no mercado angolano em pouco mais de seis meses.
A dimensão torna-se ainda mais grave quando cruzada com os próprios números oficiais. O Executivo declarou que Angola produziu 3,6 milhões de toneladas de milho na campanha agrícola de 2024/2025, mas importou outras 350 mil toneladas, gastando aproximadamente 123 milhões de dólares.
Isto significa que os seis navios já identificados em 2026 representam mais de 35% das 350 mil toneladas importadas num ano inteiro. Correspondem também a cerca de 3,4% de toda a produção nacional oficialmente anunciada. Não se trata, portanto, de uma quantidade marginal destinada a corrigir uma pequena falha de abastecimento. Trata-se de volume suficiente para alterar preços, ocupar capacidade industrial e retirar mercado a milhares de produtores.
Tomando como referência o custo médio implícito nas importações oficiais, cerca de 351 dólares por tonelada, as 123.705,90 toneladas representam uma saída potencial superior a 43 milhões de dólares. É uma estimativa indicativa, porque os preços, fretes, seguros e condições comerciais podem variar, mas dá a medida económica da escolha feita: dezenas de milhões de dólares canalizados para financiar produção, emprego, transporte e actividade portuária no exterior.
O prejuízo nacional, porém, não se limita às divisas gastas. A maior perda está no mercado retirado ao agricultor angolano.
Cada tonelada importada pode substituir uma tonelada que poderia ser adquirida no Huambo, Bié, Huíla, Malanje, Cuando, Cuanza-Sul ou noutra região produtora. Quando o milho estrangeiro entra em grande escala, as indústrias ganham poder para pressionar os preços internos. Os agricultores acumulam produto, atrasam vendas, deixam de recuperar os custos da campanha e ficam sem capital para preparar a época seguinte.
O resultado é previsível: menos área cultivada, menor utilização de sementes melhoradas, redução da contratação de trabalhadores, incumprimento de créditos e abandono progressivo da actividade agrícola.
É assim que se destrói a produção nacional: não necessariamente proibindo o agricultor de produzir, mas retirando-lhe qualquer garantia de que conseguirá vender.
O País não pode anunciar 3,6 milhões de toneladas de produção e, simultaneamente, continuar a autorizar navios de milho sem apresentar ao público um balanço rigoroso entre produção comercializável, consumo industrial, reservas existentes e défice real. A produção estatística não basta. É necessário saber quanto milho chegou efectivamente ao mercado, quanto foi comprado pelas indústrias, quanto permanece armazenado e por que razão se considera indispensável importar.
A regra deveria ser absoluta: nenhuma licença de importação de milho deve ser emitida enquanto existir produção nacional disponível para compra.
As empresas interessadas em importar devem provar que procuraram adquirir milho internamente, indicando produtores contactados, quantidades solicitadas, preços oferecidos e razões da impossibilidade de compra. Sem essa demonstração, a importação não pode ser considerada uma resposta à escassez. É apenas uma preferência pelo produto estrangeiro.
A protecção da produção nacional exige quotas, sobretaxas, calendários rígidos e suspensão das importações durante os períodos de colheita e comercialização. Exige igualmente contratos prévios entre produtores e indústrias, informação pública sobre stocks e fiscalização independente das necessidades apresentadas pelos importadores.
Não é aceitável pedir ao agricultor angolano que enfrente seca, ausência de irrigação, crédito caro, estradas deficientes e custos elevados de transporte, para depois o colocar a competir com milho produzido em economias que oferecem subsídios, seguros agrícolas, financiamento barato, infra-estruturas e logística eficiente.
Isso não é concorrência. É abandono institucional.
Angola não alcançará a soberania alimentar contando apenas o que se produz. Alcançá-la-á quando garantir que o que se produz é comprado, transformado e consumido internamente.
Os seis navios e as 123.705,90 toneladas constituem um aviso. Cada novo carregamento autorizado sem prova pública de défice representa menos rendimento no campo, menos emprego rural, mais divisas enviadas para fora e menor confiança na agricultura nacional.
Entre proteger o importador e proteger quem produz em Angola, o Estado não pode permanecer neutro. Deve escolher o produtor nacional, sempre.
*Economista e investigador
