O semanário português teve acesso à ficha de informação, criada em Abril de 2021, na qual o utilizador final do Predator é referido como o Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), dirigido pelo general Fernando Miala desde 2018.

"Nessa ficha de informação, o contrato é considerado fechado e há um nome identificado como revendedor do software, responsável por representar a Intellexa no negócio. Esse revendedor é Carlos Gandini e tem associado a ele um número de telemóvel alemão e um endereço de email da Adsum, uma empresa de consultoria constituída em 2020", escreve o Expresso, que refere uma primeira reunião em Junho de 2018 entre o Governo angolano e a Nexa, uma empresa francesa que faz parte do consórcio Intellexa, a fabricante do Predator.

O Expresso diz não ter conseguido obter recções nem de Carlos Gandini nem do gabinete do Presidente João Lourenço.

O jornalista Teixeira Cândido entregou, na terça-feira, uma queixa-crime ao procurador-geral da República, na qual invoca o direito à reserva da intimidade da vida privada e familiar consagrada na Constituição, bem como no Código Penal, que prevê penas de prisão até 18 meses "para quem, sem consentimento e com intenção de desrespeitar a vida pessoal ou familiar, interceptar, gravar, transmitir ou divulgar comunicações telefónicas".

Segundo Teixeira Cândido, o seu telemóvel foi verificado por uma investigação da Amnistia Internacional, que identificou que o spyware Predator foi utilizado em 2024 no seu telefone para o vigiar.

Em declarações ao Novo Jornal, o ex-sindicalista assegura que irá fazer uma participação ao Ministério Público/ PGR, para investigar e responsabilizar os culpados.

Segundo Teixeira Cândido, a Procuradoria Geral da República tem de investigar porque se trata de uma denúncia pública.

Conforme o antigo líder do SJA, o Ministério Público tem de ser capaz de esclarecer esta situação, pois tem meios para o fazer.

Ao Novo Jornal lamentou também o facto de as autoridades de investigação nunca terem esclarecido uma situação de queixa envolvendo jornalistas.

Questionado se sabe quem poderá estar por detrás desta espionagem, Teixeira Cândido diz desconfiar que seja o Estado angolano.

Segundo o antigo líder do SJA, em 2023 a Amnistia Internacional já havia denunciado que o governo de Angola havia adquirido este software espião.

Conforme Teixeira Cândido, a Amnistia Internacional afirmou que este software não é vendido a particulares, mas sim a governos. O de Angola terá sido um dos que adquiriu o "Predator".

"Se a Amnistia Internacional fez a denuncia e incluiu inclusive o nome de Angola, afirmando que o país terá adquirido este software, a suspeita aqui recai sobre o Governo, e competirá ao Governo esclarecer", afirmou.

O caso de Teixeira Cândido emergiu de uma investigação mais abrangente às ameaças colocadas pela vigilância em Angola ao longo de 2025, inicialmente levada a cabo pela Friends of Angola e Front Line Defenders.

"A análise forense realizada pelo Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional confirmou, com elevado nível de confiança, que os links de infecção estão ligados ao spyware Predator, da Intellexa, e resultaram em, pelo menos, uma infecção do telemóvel de Teixeira Cândido".

Ao Novo Jornal, Teixeira Cândido, contou que foi contactado inicialmente por um alegado grupo de estudantes que tinham um projecto para o qual precisavam da sua opinião e nos dias subsequentes foi enviado para ele um conjunto de linkes supostamente de sites de informação para que pudesse aceder.

Assim que o fez num deles, presume, o seu telemóvel ficou infectado por este software.

O Predator é um spyware altamente invasivo destinado a telemóveis, desenvolvido e vendido pela Intellexa, uma empresa mercenária de spyware, para ser utilizado por governos em operações de vigilância. Esta foi a primeira confirmação forense da sua utilização em Angola.

O Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional analisou o telemóvel de Teixeira Cândido e identificou vestígios forenses de comunicações em rede realizadas pelo spyware a 4 de Maio, confirmando que Predator estava instalado e activo no telemóvel do jornalista durante esse dia.

O "Predator" é considerado um dos instrumentos de espionagem digital mais intrusivos do mercado, com capacidade para aceder a chamadas, mensagens, contactos, ficheiros e até activar remotamente microfone e câmara, sem o conhecimento do utilizador.

Vale recordar que em 2023, uma versão pirata do site do Novo Jornal foi usada como armadilha para atrair cidadãos, levando-os a clicar em páginas infectadas com o Predator, um sofisticado spyware israelita capaz de aceder a todo o conteúdo de um telemóvel, além de poder usar a câmara e o microfone para vigiar os seus utilizadores. Mas há outros sites de notícias angolanos na lista.

Jornal de Angola, Angop e Camunda News constam da extensa lista de endereços electrónicos a que foram introduzidas pequenas alterações de modo a atrair cidadãos, ao passarem por ligações seguras. Aliás, o procedimento habitual para que um telemóvel passe a estar sob controlo deste software - o utilizador clicar sem saber num link que imita sites verdadeiros, como órgãos de informação ou redes sociais - é normalmente feito com recurso a uma carrinha equipada com uma torre de intercepção, capaz de colocar o Predator em qualquer telemóvel num raio de 500 metros.

Os URL, como são vulgarmente conhecidos os endereços electrónicos de sites, foram identificados pelo Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional e partilhados com o Expresso, que naquele ano trouxe uma reportagem sobre o assunto.