E isso reflecte-se na reacção que se verifica esta segunda-feira, 06, nos mercados petrolíferos, onde, seguindo o registo destas cinco semanas de guerra no Médio Oriente, a ameaça da Casa Branca normalmente deveria acidificar este sector vital para a economia mundial.

Mas não, pelo contrário, o barril de Brent, em Londres, e também o WTI, em Nova Iorque, estão a reagir com naturalidade a este contexto, descendo mesmo ligeiramente neste início de semana.

Mais complexo é a inversão registada entre Nova Iorque e Londres, onde o WTI está, como raramente sucede, a valer mais que o Brent, o que se deve às tensões geopolíticas no Médio Oriente e às restrições anormais na oferta de crude nos EUA, bem como a desarmonização nos contratos futuros.

O que é pouco relevante no resto do mundo, mas um factor extra de pressão sobre a Administração Trump, pelo efeito que isso tem na subida do preço dos combustíveis, o que pode mexer com as expectativas do Partido Republicano para as eleições intercalares de Novembro, onde está em areias movediças as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes, as duas câmaras do Congresso.

E isso é especialmente relevante sabendo-se como se sabe que os eleitores norte-americanos são fortemente influenciados pelo que pagam quando abastecem os seus veículos e ainda mais quando chega a época do ano das grandes viagens de férias, no Verão (entre Junho e Setembro).

Talvez por isso, Donald Trump esteja a agir ao mesmo tempo como polícia bom e polícia mau, ameaçando com o "inferno" sobre o Irão e anunciando a forte possibilidade de um acordo "nas próximas 48 horas".

É que se os EUA, e Israel, avançarem mesmo para a opção "inferno", o Irão já disse que vai destruir a infra-estrurura petrolífera dos países aliados dos EUA no Golfo Pérsico e, agora, acrescentou uma outra frente que pode, em minutos, mudar por completo este cenário, que é fechar o outro estreito estratégico ligado à Península Arábica.~

Bab al-Mandab, é o seu nome e se o de Ormuz serve de funil para 20% do crude e do gás que nutrem a economia mundial, por aqueles 32 kms de mar passam 12% do comércio global total, e mais 4% da energia, dando acesso, via Mar Vermelho, ao Canal do Suez (Mar Mediterrâneo/Oceano Atlântico), e ao Oceano Índico.

Como sucedeu em 2023/24, quando a Ansar Allah (Houthis), do Iémen, impediram pelo fogo a passagem de navios, de carga e petroleiros, obrigando a que estes fizessem o curso entre a Ásia e as Américas e Europa pelo sul de África, mais duas a três semanas de percurso, inflacionando preços em todo o mundo.

Sendo os Houthis dos aliados mais próximos do Irão, já garantiram que o Estreito de Bab al-Mandab será fechado de imediato se a coligação isarelo-americana mantiver e intensificar os ataques ao Irão.

O que Trump tem para contrariar este cenário dantesco para a economia mundial é a ameaça de levar o inferno a cair sobre o Irão como ferramenta de pressão para que Teerão aceite um acordo de cessar-fogo por 45 dias, através da mediação do Paquistão.

Tal plano, frágil, pela desconfiança que o Irão deposita na diplomacia norte-americana e israelita, após os ataques de que foi alvo quando estava em plenas negociações, em Junho de 2024, e agora, a 28 de Fevereiro, está longe de ser uma garantia de acalmia nesta região estratégica...

Mas é a essa esperança que os mercados se estão a agarrar para manter á distância a fasquia dos 150 USD para o barril de crude que a generalidade dos analistas afirma estar ao virar da esquina, mesmo que a OPEP+ já tenha vindo avisar que é um erro de cálculo pensar que os problemas terminam com o fim do conflito, devido ao longo período que vai exigir a reposição da normalidade no abastecimento dos mercados devido à destruição ocorrida nestas seis semanas de guerra.

Até ver, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa, porque o barril de Brent estava, perto das 11:35 desta segunda-feira, 06, hora de Luanda, a valer 108,2 USD, uma queda ligeira de 0.9% face ao fecho de sexta-feira.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende a manter os preços muito acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 107 USD, perto de 50 USD acima do OGE do ano corrente.

O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.