E se nas outras duas, ambas na Florida, perto da sua casa privada de Mar-a-Lago, em Fevereiro e Setembro de 2024, também surgiram dúvidas sobre a natureza desses ataques, nenhuma impulsionou tanto as "teorias da conspiração" como a deste fim-de-semana, no Jantar dos Correspondentes, no Hotel Washington Hill, na capital norte-americana.

De acordo com os relatos conhecidos sobre esta nova tentativa de atacar o Presidente dos EUA, numa sala onde também estava o vice-Presidente JD Vance, Cole Tomas Allen, de 31 anos, residente em Los Angeles, Califórnia, um professor reconhecido e retratado como simpático e "uma pessoa normal", estava há dois dias hospedado no Hotel Washington, com duas armas de fogo e várias armas brancas no quarto.

As armas, como relata The Washington Post, foram adquiridas legalmente, e viajaram de comboio, na sua bagagem, de Los Angeles para Chicago e, depois, para Washington, entrou com elas no hotel e no dia do jantar anual dos correspondentes, saiu com elas do seu quarto, chegou ao piso inferior onde estava a decorrer o jantar, passou a correr pode dezenas de agentes dos Serviços Secretos, da polícia e militares...

Tendo sido travado, sem ferimentos de gravidade visíveis nas fotos que chegaram às televisões pouco depois, já dominado, algemado e deitado no chão de barriga para baixo, pouco antes de entrar na sala onde decorria a cerimónia.

Quase em simultâneo, as equipas de segurança dos Serviços Secretos, denominação da agência encarregue quase em exclusivo da segurança Presidencial, retiraram de imediato o vice-Presidente JD Vance da mesa central, e só cerca de 30 segundo depois é que levaram Donald Trump para a parte de trás do palco onde estavam, além de Melânia Trump, os elementos da organização da gala.

Assim que saiu do local, ainda os últimos convivas estavam a deixar o Washington Hotel, já Donald Trump estava a dar uma conferência de imprensa, pouco mais de 20 minutos após o tiroteio, onde aproveitou para acusar Cole Tomas Allen de ser "um doentio anti-cristão" e logo de seguida defender que este "ataque" era o motivo que faltava para construir o salão de baile de 400 milhões USD que tem em vista para a ala leste da Casa Branca eque um tribunal federal está a dificultar alegando razões de propriedade e de preservação de património histórico dos EUA.

Mas este jantar dos correspondentes, que se realiza desde 1921, organizado pelos próprios, e desde 1924 contra com o Presidente dos EUA, na edição 2026, começou a dar que falar antes de acontecer, primeiro, porque DOnald Trump nunca tinha estado num deles, depois porque, contrariando a tradição, desta vez não foi convidado um humorista para as apresentações da noite, onde o "bombo das festa" é sempre o convidado de honra...

... e depois, porque pouco antes de os pratos serem servidos, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Levitt, deu uma entrevista a um canal de televisão local onde garante que aquela iria "ser uma noite imperdível" e que até iria ter "alguns tiros a serem disparados" a meio do jantar, numa brincadeira que nem todos consideraram oportuna pelo facto de os EUA serem palco de milhares de ataques com armas de fogo todos os anos com centenas de mortos e feridos registados.

Mas há outras questões sobre o 5º atentado contra Trump, se se contar o incidente em 2016, quando um indivíduo tentou tirar a arma de um agente da polícia em Las Vegas para alegadamente o atacar, menos expostas nos media tradicionais mas a chegarem em catadupa aos canais e páginas das redes sociais.

Algumas delas passam por perceber como é que, no que se pode ver nos muitos vídeos entretanto divulgados, Come Tomas Allen conseguiu passar por dezenas de elementos da segurança, incluindo mais de 10 dos Serviços Secretos, sem ser travado?, a outra questão em destaque é como é que o hotel não foi revistado antes do jantar considerando que Trump já fora alvo de vários atentados falhados no passado?

Por responder com urgência fica ainda a questão da presença de dezenas de militares armados na sala de jantar um minuto após se terem ouvido tiros, a apontar as armas para os convidados, quando já JD Vance tinha sido evacuado e Trump ainda estava sentado na mesa, aparentemente alheado do que se passava, embora, depois, tenha vindo dizer que foi ele que optou por ficar para tentar perceber o que se passava.

E num dos vídeos divulgados logo a seguir, pode-se ver Cole Allen a correr por um corredor que chega a uma sala onde estão mais de uma dezenas de agentes e policias armados, todos alinhados de forma a dar abertura àquele corredor, como se fosse esperado que por ele fosse chegar alguém a correr e a precisar de terreno desimpedido para prosseguir e não para poder ser travado.

A adensar ainda mais esta "trama" da vida real, ou encenação do "teatro" que tem sido a vida de Donald Trump, o autor do ataque enviou 10 minutos antes para as redes sociais um manifesto onde explica que o seu alvo são os escalões superiores da Administração Trump, assinando o documento de uma forma bizarra para quem era tido como um homem normal e simpático, inclusive por alguns dos seus alunos, que lhe garantiram a conquista do título de "Professor do Ano" em Los Angeles.

"Cole `ForçaFria'Àssassino Amigável Federal" Allen" é como Cole Tomas Allen assinou o manifesto divulgado antes de irromper pelos corredores em direcção à sala de jantar onde estava o Presidente e o vice-Presidente dos EUA, entre centenas de convidados, incluindo a quase totalidades do topo da hierarquia de Estado dos EUA, acrescentando que o seu gesto visava "responsabilizar o Governo" pelo mal feito ao povo, incluindo cromes de pedofilia, uma referência aos Ficheiros Epstein e às referências a Trump neles contidas.

"Não estou mais disponível para permitir que um pedófilo, raptor e traidor continue a manchar o país se o posso travar com as minhas mãos", aludindo ainda à sua intenção de não ferir ninguém que não pertencesse ao topo da hierarquia do Estado presente naquele jantar.

Entretanto, minutos depois deste atentado, que dificilmente poderia ser mais mediatizado, não estivessem largas centenas de jornalistas presentes no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, começaram a surgir fotografias de Cole Allen vestindo uma camisola das Forças de Defesa de Israel.

O que só tem significado porque alguns nomes de peso que foram aliados próximos de Donald Trump, como o ex-pivot da FOX News, Tucker Carlson, ou Joe Kent, até há pouco tempo chefe do Departamento Nacional de Contraterrorismo, fizeram referências explicitas ao envolvimento da Mossad israelita noutros atentados e assassinatos entre membros do movimento MAGA (Make America Great Again).

No lado mais formal da abordagem a este momento histórico envolvendo Trump, os media norte-americanos estão a discorrer com abundância sobre a possibilidade de o crescente sentimento anti-Trump, devido ao impacto da guerra contra o Irão na economia norte-americana, estar como motivo por detrás desta acção de Cole Allen.

Estas suspeitas resultam da interpretação feita por especialistas do conteúdo do manifesto, que já foi dado como verdadeiro - o que não retira chão à possibilidade de se tratar de uma encenação com propósitos eleitoralistas para as eleições intercalares de Novembro -, onde o autor revela a sua pesada insatisfação com a governação actual.

Entretanto, enquanto Cole Tomas Allen vai esta segunda-feira, pouco mais de 24 horas após o ocorrido, ser apresentado a um juiz num tribunal de Washington, onde pode vir a ser condenado por tentativa de assassinato do Presidente dos EUA, Donald Trump recebe na Casa Branca o Rei Carlos de Inglaterra.

No próprio dia, questionado sobre se a visita do soberano britânico poderia ser adiada devido a este incidente, Donald Trump revelou de imediato que não, que nada seria alterado na agenda anunciada sobre a chegada de Carlos III aos EUA.

Perante este desenrolar em vertigem das informações quer sobre o autor do "atentado", quer sobre a forma como conseguiu introduzir as suas armas no sítio que devia ser o mais seguro dos EUA naquele momento, muita água deve correr por baixo da ponte nos próximos dias.

Até porque, além de Trump e de JD Vance, estavam no Hotel Washington, Mike Jonhson, líder da Câmara dos Representantes, no Congresso, e 3º na linha de sucessão em caso de impedimento do Presidente e do vice-Presidente, Kash Pattel, director do FBI, ou, entre outros, Todd Blanche, Procurador-Geral.

E uma das explicações mais urgentes, e de onde pode emergir renovada polémica e combustível para as teorias da conspiração, é o porquê de não ter sido dado estatuto de segurança máxima ao Jantar dos Correspondentes apesar de ali estar quase toda a hierarquia do Estado norte-americano, normalmente designado "Evento Nacional Especial Segurança (NSSE, na sigla em inglês)".

E uma das questões que está por explicar, num país como os EUA, onde os agentes da autoridade disparam mais facilmente sobre suspeitos que noutra geografia planetária conhecida, como pergunta Larry Johnson, um antigo analista da CIA, é o que teve de acontecer para que o indivíduo pudesse percorrer vários corredores, passar pelo meios de dezenas de agentes armados, com uma pistola na mão, sem ser abatido, acabando por ser neutralizado sem qualquer agressão?