Ao 6º dia de guerra, quando se começa a notar uma diminuição acentuada do ritmo dos ataques com drones e misseis do irão sobre Israel e sobre os países do Golfo Pérsico onde os EUA possuem bases militares, fica claro que os EUA pretendem mesmo mudar o regime em Teerão.

"Nós estamos convosco", garantiu ainda o chefe do Departamento da Guerra norte-americano quando falou, já nesta quinta-feira, 05, com o ministro da Defesa de Israel, naquilo que parece ser uma tentativa de eliminar quaisquer suspeitas de afastamento entre Washington e Telavive.

Suspeitas que foram geradas desde logo, no começo da guerra iniciada por israelitas e norte-americanos contra o Irão, quando Washington chamou "Fúria Épica" aos seus ataques e Israel "Rugido do Leão" aos seus bombardeamentos sobre o Irão.

Que foram alimentadas ainda mais quando Marco Rubio, secretário de Estado (ministro dos Negócios Estrangeiros) e Conselheiro para a Segurança Nacional de Donald Trump veio dizer, ao 3º dia desta guerra começa Sábado, 28 de Fevereiro, que "foi Israel que a começou".

E Rubio acrescentou que "só depois de Israel atacar é que os EUA avançaram porque se percebeu que o Irão iria retaliar contra as suas bases na região e era preciso agir preventivamente".

O que alguns analistas consideraram uma explicação pouco razoável do chefe da diplomacia norte-americana visto que há semanas que o poderia militar dos EUA cresce na região como só aconteceu na invasão do Iraque, em 2003 e um ataque ao Irão já estava há muito decidido.

Esta é uma guerra, como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, explicou publicamente, que começou a ser desenhada na visita surpresa que este fez a Donald Trump, a 29 de Dezembro do ano passado.

Nessa visita, que muitos analistas suspeitaram ser de "trabalho" e não para cumprimentos de passagem de ano, o Presidente norte-americano disse, citado por Netanyhau: "Temos rapidamente que anular o poder militar com que o Irão ameaça Israel e a região" onde os EUA possuem dezenas de bases.

E agora, depois de a Casa Branca falar, inicialmente, de "urgente mudança de regime", pedindo mesmo Trump que o povo iraniano saísse para as ruas para "tomar o seu destino nas mãos", até à simples ideia de "destruição do seu programa nuclear e de misseis balísticos", eis que Israel Katz vem agora confirmar o que já se sabia.

"A cooperação entre o Presidente Trump e o primeiro-ministro Netanyhau contra o Irão está a mudar a história regional e global", apontou o ministro da Defesa, citado por The Guardian a partir do israelita The Times of Israel.

O que, provavelmente, Katz e Hegseth têm em mente é o que está hoje a ser noticiado pela generalidade dos media ocidentais, que é uma redução drástica dos ataques iranianos sobre Israel e sobre as bases dos EUA na região, embora a razão para isso não seja clara.

Nas páginas e ecrãs dos media norte-americanos e israelitas, e mesmo europeus, embora ali a adesão e o apoio a esta guerra esteja longe de ser consensual, até porque a Europa é onde a crise energética gerada pela guerra vai ter mais impacto, a razão é que os misseis da coligação israelo-americana depauperaram a capacidade iraniana de manter o ritmo dos contra-ataques.

Já entre os analistas menos alinhados com os interesses de Washington e Israel, a perspectiva é que em Teerão esta redução da intensidade das vagas de misseis e drones disparadas contra Israel e os interesses norte-americanos no Médio Oriente serve para analisar o contexto geral e resolver questões internas prementes, como a escolha do novo Líder Supremo.

É que, depois da morte de Ali Khamenei logo no Sábado, juntamente com cerca de 50 chefes militares de topo, o Irão precisa de se reorganizar e, além de escolher o novo Grande Aiatola, também os novos chefes do Exército e da Guarda Revolucionária precisam de aquecer a cadeira.

Isto, quando, como o Novo Jornal noticiou na quarta-feira, 04, começam a surgir indícios de que os EUA estão a preparar uma operação militar dentro do território iraniano, embora não se perceba a dimensão e escala, e se com forças regulares ou só de operações especiais, com apoio de milícias regionais, como os Curdos, no norte do Irão e do Iraque...

O primeiro sinal surgiu no dia em que se soube que em diversas unidades militares dos EUA, depois da denúncia de uma organização que defende a liberdade religiosa nas Forças Armadas, a Fundação Militar para a Liberdade Religiosa - Military Religious Freedom Foundation (MRFF), centenas de militares estavam a ser convencidos a partir para a guerra "em nome de Deus".

Ou seja, (ver links em baixo) os oficiais superiores estão a convencer os subordinados que vão para o Irão "cumprir uma missão divina em nome de Deus", e que Donald Trump "foi escolhido por Jesus Cristo para abrir as portas no Armagedão no Irão que permitirá o seu regresso à Terra".

Note-se que existe uma poderosa ala cristã conservadora entre os republicanos, partido de Trump, nos EUA que acredita que o povo judeu, pela interpretação que fazem da Bíblia, foi escolhido por Deus para dominar a "Terra Prometida", toda região entre o Rio Eufrates (Síria e Iraque) e o Rio Nilo (Mediterrâneo).

Grande parte do esforço norte-americano para ajudar Israel em todas as frentes é resultado da crença nos EUA de que os cristãos que seguem a Bíblia sem questionar estão obrigados a ajudar Israel a ocupar a terra que foi prometida aos judeus pelo Criador.

Isto, ao mesmo tempo que media como The New York Times, The Guardian ou a CNN avançam que a CIA e a Mossad estão a armar as milícias curdas - o Curdistão abrange partes substantivas do Irão, Iraque, Síria e Turquia - para desestabilizar internamente o Irão, naquilo que muitos analistas antecipam poder ser a primeira fase de uma invasão terrestre israelo-americana ou apenas americana com apoio "especial" de Telavive.

O que parece estar a acontecer, porque, igualmente nesta quinta-feira, 05, soube-se que a Guarda Revolucionária do Irão lançou uma sucessão de ataques contra as milícias curdas que, alegadamente, estavam a concentrar-se para preparar ataques contra o regime iraniano, no que também permite interpretar como sendo uma das razões para a redução da intensidade dos ataques do Irão contra Israel e as bases dos EUA no Golfo Pérsico.

Entretanto, numa nota curiosa, e no seguimento da denúncia do jornalista e "influencer" político norte-americano Tucker Carlson, antigo pivot da Fox News, que avançou que o Catar deteve um grupo de agentes da Mossad que estavam a executar operações de "falsa bandeira", agora é a Guarda Revolucionária iraniana que nega ter atacado com misseis balísticos a base dos EUA de Incirlik, no sul da Turquia.

E a questão é simples: ou o Irão está a mentir e foram mesmo os seus mísseis que a defesa anti-aérea na turquia abateu ou tratou-se de mais uma operação de "falsa bandeira" realizada por alguém que pretendia levar a Turquia a atacar o Irão ou, pelo menos, afastar Ancara de Teerão, visto que os turcos se manifestaram desde o início, oficialmente, contra esta guerra.

"As Forças Armadas do Irão respeitam a soberania turca e desmentem que tenham disparado qualquer míssil na direcção do seu território", avança o comando militar iraniano em comunicado.

Quando esta guerra entrou já no seu 6º dia, é evidente que o Irão está a ser mais severamente castigado pelos bombardeamentos da coligação israelo-americana que Israel e as bases dos EUA no Médio Oriente pelos misseis e drones iranianos...

... mas está longe de ser claro qual das partes em confronto está a sofrer maior impacto globalmente falando, porque com o fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do gás e do crude consumidos diarimente em todo o mundo, e com a suspensão da produção no Oil & Gas do Golfo Pérsico, e os preços da energia a disparar dia após dias... os EUA também estão longe de poder cantar vitória.