Nas últimas horas, numa sucessão de aparições face aos jornalistas, primeiro o secretário de Estado Marco Rubio, depois o secretário da Guerra, Pete Hegseth, e, por fim, o Presidente Donald Trump, retiraram propositadamente da "grelha" argumentativa a mudança de regime como razão para o ataque ao Irão.

Apesar de aumentar a abrasividade do discurso, chamando "regime de lunáticos" ao Governo de Teerão, os três homens que dão a cara por esta guerra nos Estados Unidos, deixando de lado o jargão do terrorismo, apontam agora à destruição do programa nuclear do Irão, o mesmo que na "guerra dos 12 dias" de Junho de 2025 tinha sido, segundo Donald Trump, "totalmente obliterado".

E acrescentaram a destruição do potencial dos misseis balísticos de longo alcance e hipersónicos do Irão bem como a sua capacidade de projecção de força para o exterior, especialmente a sua marinha de guerra.

A razão para esta mudança de planos no conjunto dos objectivos inicialmente traçados para este conflito está, segundo vários analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, na necessidade urgente de Donald Trump declarar uma vitória para poder sair de cena pela porta grande.

É que, ao não ter conseguido a pretendida e afirmada mudança de regime em Teerão, mesmo com a morte do Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, e mais cerca de 50 oficiais de topo das forças de segurança iranianas, logo ao cair das primeiras bombas, a Casa Branca está a perceber que o Irão não apenas está a resistir, como mantém a capacidade letal dos seus contra-ataques (ver links em baixo).

E com a "explosão" do preço da energia, o petróleo a subir quase 20 USD por baril, e o gás quase 60%, quando os EUA já enfrentam uma inflação que pode comprometer as aspirações eleitorais de Trump nas eleições intercalares de Novembro, os EUA terão de encontrar rapidamente uma saída airosa deste gigantesco imbróglio no Médio Oriente.

É que, além de ter encerrado o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, por onde passa mais de 20% do crude e do gás queimado todos os dias pela economia mundial, o Irão está a atirar os seus drones e misseis de mais curto alcance sobre a infra-estrutura energética dos petroEstados do Golfo que possuem bases e são aliados dos EUA...

Isso levou quase todos, Arábia Saudita (maior exportador do mundo de crude), Catar (maior produtor de gás), Kuwait, Emiratos Árabes Unidos e Bahrein, a interromper a produção, fechar aeroportos, o que está a levar o caos regional para todo o mundo...

Os analistas entendem que este passo dramático dos países do Golfo Pérsico vizinhos do Irão foi a forma mais eficaz que encontraram para forçar os Estados Unidos a começar a preparar o terreno para acabar com esta guerra que tem tudo para gerar uma crise económica mundial mais severa que a de 2008, e pode destruir para sempre a indústria do turismo nestes mesmos países, quase toda ela sustentada pela ideia de segurança que Riade, Doha ou Abu Dhabi garantem, ou garantiam até aqui, porque também os seus luxuosos hotéis estão a arder sob fogo iraniano, literalmente...

Só que o que os EUA querem, sair desta guerra depressa, o que se percebe com a insistência de Donald Trump de que os EUA têm armas e logística na região para longos meses de guerra, quando se sabe que o Pentagono já lhe disse que um conflito de intensidade ao fim de cinco dias iria consumir todos os recursos disponíveis no Médio Oriente, é muito diferente do que quer Israel.

É que o Governo de Benjamin Netanyhau, neste momento, tem como maior preocupação, em cima da mesa, precisamente impedir que os EUA saiam de cena antes de acabar o trabalho que, em Telavive, já se disse alto e bom som que é mudar o regime dos aiatolas para um mais obediente a Telavive e a Washington.

E para isso, Israel está a obrigar os EUA a permanecer neste conflito através da abertura de uma nova frente de guerra no sul do Líbano, enviando os seus tanques para ali, alegando a necessidade de combater o Hezbollah, aliado do Irão, e a ameaça dos seus roquetes.

Isto, ao mesmo tempo que começam a emergir suspeitas, lançadas por Tucker Carlson, o mais importante e influente jornalista e "influencer" no universo republicano dos EUA, de que sauditas e cataris detiveram células da Mossad que estavam por detrás das explosões nas refinarias e depósitos de crude e de gás que estão a acontecer nos últimos dias...

Israel, além de confrontar claramente a Casa Branca e o Pentagono, sabendo-se como se sabe que no meio castrense norte-americano esta guerra foi tudo menos desejada, como o próprio Marco Rubio admitiu ao dizer que os EUA só atacaram porque Israel atacou e sabiam que o Irão iria retaliar contra os interesses norte-americanos na região, mantém um ritmo de ataques sobre o Irão muito mais intenso que os norte-americanos.

"Missão em nome de Deus"

Num conflito que, logo nas primeiras horas ficou marcado pela morte de 50 pessoas de uma vez, incluindo o aiatola Ali Khamenei, em Teerão, e mais de 160 meninas de uma escola primária de Minab, uma cidade do sul do Irão, que a CNN investigou e divulgou como tendo sido através de misseis norte-americanos, soube-se agora que aos militares norte-americanos foi dito antes de partirem para o Médio Oriente que iam "cumprir o plano divino de Deus".

Esta explosiva revelação, porque norte-americanos e israelitas repetem exaustivamente que o regime iraniano é composto por fanáticos religiosos, foi feita por uma organização dos EUA que pugna pela liberdade religiosa que ouviu os testemunhos a confirmar isso mesmo de 200 militares.

A Fundação Militar para a Liberdade Religiosa - Military Religious Freedom Foundation (MRFF) segundo o britânico The Guardian, e outros media internacionais, ouviu de centenas de miliares norte-americanos em missão no Médio Oriente que os seus superiores hierárquicos lhes disseram que estacam a caminho de "cumprir o plano divido de Deus".

Esta organização, criada em 2005 por antigos oficiais e advogados, que visa garantir a liberdade religiosa no seio das Forças Armadas, refere que este tipo de manipulação, ilegal e anticonstitucional, é resultado de um crescente extremismo religioso nas fileiras norte-americanas, o que leva a que a retórica radical cristã do "fim dos tempos" esteja a ganhar uma forte tracção no universo militar norte-americano.

Essa retórica radical está, ainda segundo a MRFF, a ser usada para convencer os soldados de que esta guerra contra o Irão é uma "guerra justa", o que permite concluir também que escasseia razões "terrenas" para explicar a milhares de militares porque é que estão a ser enviados para um campo de batalha possivelmente mortal.

Mas esta notícia tem ainda outra dimensão mais preocupante, porque este discurso está substantivamente mais presente nas unidades que estando ainda nos EUA, podem ser deslocadas "a qualquer momento" para a guerra, o que pode levar à conclusão de que a Administração Trump não afasta a possibilidade de uma invasão terrestre do Irão.

Um dos entrevistados, um oficial de baixa patente, que não pertence aos quadros profissionais, pela Military Religious Freedom Foundation disse mesmo que os seus superiores hierárquicos o instruíram a dizer aos seus subordinados que fazem parte dos "planos de Deus" para este conflito e que "Donald Trump foi indicado por Jesus Cristo para incendiar o Irão e gerar o Armagedão que o levaria a regressar à Terra".

Entre os entrevistados estão militares cristãos, muçulmanos e judeus, todos eles críticos deste ressurgimento do fanatismo religioso dentro das Forças Armadas dos EUA, cujo Presidente, Donald Trump, o seu secretário da Guerra, que mudou o nome do anterior Departamento da Defesa para Departamento da Guerra, Pete Hegseth, ou Marco Rubio, dizem que o Irão é "um regime gerido por fanáticos religiosos".