Tal como na matemática, a função biunívoca exige perfeito alinhamento entre os elementos apresentados para que se resolva acertadamente a equação sem atritos e em plena cooperação, também na gestão da coisa pública - sobretudo quando se trata de património histórico importante como é o caso do Hospital Américo Boavida -, a conciliação dos interesses envolvendo a sociedade impõe-se como inapelável.
Lições da Demolição
A demolição ocorrida reforça esta lição de cooperação necessária, que deve ser finalmente sustentada por atitudes e condutas governativas que evidenciem modéstia e interesse no diálogo construtivo. É que, munindo a sociedade de informação suficientemente esclarecedora, superam-se os equívocos e os cidadãos, com sua comparticpação atenta, prestarão a melhor colaboração que é imprescindível para um caminho de cooperação e entendimento que nos conduzam à harmonia.
Aliás, esta tese é comprovada pelo regozijo que produziu em muitas almas dos luandenses, a importante e muito frutífera visita que o titular do pelouro das Obras Públicas realizou acompanhado de uma importante delegação de técnicos do seu ministério, a que se juntou a digna ministra da saúde.
Os cidadãos que inundaram as redes sociais com manifestações de descontentamento, reagiram com legitimidade ao lamentarem o sucedido, pois faltou efectivamente um diálogo multidisciplinar prévio, alargado por uma consulta, em sede do qual as comunidades serim então chamadas a dar a sua voz, ouvindo-se os especialistas numa partilha de opiniões e das mais pertinentes considerações.
A última visita realizada com esse fim, sob a liderança do Ministério das Obras Públicas, como vimos, acabou por prestar os esclarecimentos devidos trazendo ao conhecimento público as causas da demolição, reconhecendo-se o papel fundamental da Manutenção na preservação e conservação dos edifícios urbanos. Na voz do ministro Carlos Santos, soube-se que mais de 130 edifícios se encontram em situação de perigosidade iminente, sendo Luanda a cidade mais afectada; no país, as estatísticas apontam para mais de 500 unidades em situação crítica.
Causas Estruturais e Soluções
Enquanto os engenheiros que dominam as causas das deformações estruturais que ameaçam os nossos edifícios realizam o seu trabalho, urge encontrar soluções técnica e economicamente viáveis para garantir a manutenção (preventiva, correctiva ou preditiva) e combater a incultura ainda prevalecente na administração pública relativamente ao referido serviço.
Os decisores políticos serão mais produtivos ao acatar recomendações técnicas e consultar quadros técnicos de outros sectores e cidadãos independentes para deste modo atingirmos a tão expectável eficácia e eficiência na preservação do património colectivo edificado.
Reconfiguração do OGE
Destinando verbas para reparação, conservação e manutenção ao dispor do poder local, a intenção pode não surtir efeitos se a força de trabalho não for qualificada e os recursos forem escassos.
Com manutenção séria, o saneamento básico e a manutenção dos edifícios - não apenas dos antigos edifícios com grande valor patrimonial, mas também dos que se vão construindo -, garantiremos um maior período de vida útil às nossas construções e evitaremos surpresas desagradáveis como demolições indesejadas ou desabamentos repentinos de prédios por manifesta negligência.
Repare-se que as águas residuais subterrâneas, que abundam na periferia pelo grande número de poços rotos e ricas em matéria orgânica e contaminantes, podem comprometer severamente a estabilidade das fundações dos edifícios ao infiltrarem solos e alterarem suas propriedades geotécnicas. Esta conclusão foi revelada pela primeira vez em 2016 aos moradores do Rangel numa palestra que concedi na Rua da Vaidade, mensagem que correu outras áreas onde edifícios foram implantados; pelos vistos, os que respondem pelos serviços de manutenção mantiveram-se em silêncio.
Preservar a História

Com a demolição de um património histórico como o Hospital Américo Boavida, obra carregada de memórias e histórias que marcaram o lugar e o quotidiano de muitos, empobrecemos a nossa própria história e apagamos referências identitárias destinadas às gerações vindouras.