As "mais pesadas sanções impostas a um país" que o Presidente norte-americano preparou para o Irão só podem resultar se os países que têm negócios com o Irão temerem muito as represálias de Washington.
Porque a intenção de leva a economia iraniana a deixar de respirar, um país inundado por sanções há 40 anos mas sempre a conseguir flutuar na linha de água da sobrevivência, só é possível se o resto do mundo deixar de ter relações comerciais com Teerão.
Ainda há pouco mais de uma década, se os Estados Unidos anunciassem este tipo de sanções a um país, no dia seguinte tinham sobre a mesa de trabalho do Presidente americano, na Sala Oval da Casa Branca, um documento assinado com a sua rendição.
Hoje não é assim porque o mundo mudou e está a mudar mais a cada dia que passa, com a ebulição da Ordem Mundial com que os EUA dominam metade do mundo, até à queda da URSS, em 1990, e desde aí, hegemonicamente o mundo quase todo.
Quase todo, porque nunca deixou de haver resistentes, entre os quais desponta desde 1979, ano da revolução, o Irão, condição pela qual pagou um preço inimaginável para o resto do mundo, como, por exemplo, viver em severa crise económica permanente.
E quando Donald Trump, na quarta-feira, 19, anunciou o "Dia D" com que pretende dar início à invasão do Irão, logo um imenso calendário de complicações começou a ser desfolhado à sua frente.
O mundo mudou mesmo e isso transparece das palavras do secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que, ao falar, numa entrevista à CNBC, do "Dia D", admitiu que sem a colaboração da China, os planos de Trump podem ir por água abaixo.
Pequim responde pela aquisição de mais de 80% do petróleo produzido diariamente pelo Irão e é um dos principais fornecedores de bens a este país, seja por via marítima, seja, cada vez mais, através da extensa linha férrea construída entre a China e o Irão como parte da gigantesca revolução económica mundial que é a "Nova Rota da Seda".
Além disso, porque é sobre o eixo Pequim-Moscovo que assenta a transformação da Ordem Mundial assente nas regras dos EUA criada após a II Guerra Mundial, também a Rússia, através do Mar Cáspio, mantém um "comboio" de navios com apoio em bens alimentares e industriais, seguramente, mas, provavelmente, também militar.
E com estas duas pontas soltas na apertada lista de sanções dos EUA, o Irão não apenas consegue aguentar a pressão, à qual está habituado há décadas, como pode criar ferramentas novas para lidar com o problema através do aumento da produção interna, que já é um dos "milagres" iranianos, como tem referido vários analistas.
Ao anunciar a mudança de "chip" da guerra convencional, mísseis e bombas, pelo atrofiamento económico como forma de fazer colapsar o regime iraniano, Trump não parece ter contado com o efeito "China" como diluente da sua estratégia.~
Mas o seu secretário do Tesouro (ministro da Economia) percebeu rapidamente e Scott Berssent veio, no canal norte-americano CNBC, num acto revelador do desespero em Washington, apelar à colaboração de Pequim neste esforço para estrangular o mais relevante aliado da China no Golfo Pérsico.
A resposta de Pequim foi célere e contundente, como sempre, reafirmando que a China não alinha em sanções ilegais, como são todas as que são impostas sem um acordo nas Nações Unidas, e preconiza como diluente para as crises a via diplomática e as negociações directas entre as partes.
O que, em linguagem política deve ser lido como a China a avisar Washington que nada se pode ou poderá intrometer no seu relacionamento comercial e político bilateral com o Irão e que a parceria estratégica assinada entre os dois países há alguns anos não será alterada.
Ou seja, com esta posição, Trump e Bessent já sabem que as suas sanções, por históricas que sejam em dimensão e densidade, podem, como admitem as autoridades iranianas, criar complicações, desde logo o bloqueio naval, mas não de forma a fazer implodir o país e a sua estrutura governativa.
Essa a razão pela qual, na entrevista à CNBC, Bessent veio apelar a Pequim para cooperar com os EUA nesta tarefa de vergar o Irão por ser do seu interesse, lembrando em tom de ameaça que a China adquire 50% do petróleo de que precisa diariamente dos países do Golfo Pérsico, sendo o crude iraniano apenas uma pequena parcela desse volume.
"Não se esqueçam que a China obtém 50% do seu petróleo do Golfo Pérsico, o que significa que é do interesse chinês que o plano dos EUA tenha sucesso", respondeu Bessent na entrevista após ser questionado se as sanções do "Dia D" se aplicariam à China.
Recorde-se que Pequim e Washi gton vivem há vários anos numa guerra de titãs económica, com um vai e vem de sanções e contra-sanções, especialmente desde que Trump chegou à Casa Branca, embora, sem excepção, tenha sido Washington a começar o conflito e a recuar após o anúncio das contra-medidas de Pequim.
Ficou célebre o recuo de Donald Trump quando, logo nos primeiros meses de 2025 anunciou 150% de sanções para, pouco depois, recuar sentindo o efeito do anúncio de Pequim de medidas semelhantes e um "bónus" de limitar o acesso dos EUA às "terras raras" apenas existentes na China mas insubstituíveis nas indústrias 2.0, incluindo do armamento.
Em pano de fundo a este cenário, onde o "Dia D" económico de Trump contra o Irão começa a tropeçar na realidade, outra começa a emergir logo após o embate inicial: começa a ficar claro que este braço-de-ferro não vai ser ganho pela força mas pela resiliência.
Quem consegue aguentar mais tempo? O Irão, cuja economia aflita vive na corda bamba há décadas, pressionada por uma inflação estratosférica, desemprego recorde e um isolamento, apesar de tudo, crescente...
... ou os EUA, com um impacto devastador do fecho do Estreito de Ormuz, que arrolhou quase 15% do crude e do gás mundiais, além de matérias-primas únicas, como o hélio (indústria 2.0 dos chips), fertilizantes... na inflação, especialmente no preço dos combustíveis...
... com as eleições intercalares de Novembro à porta, onde o Partido Republicano de Trump pode perder a maioria no Congresso, precisamente devido ao aumento dos preços assente no estrangulamento de Ormuz, e com as ameças, se assim suceder, de processos de destituição já na manga da oposição Democrata?
Para esta questão, Irão ou EUA, quem vai ceder primeiro? Só o tempo dirá. Mas uma coisa é já certa: o barril de crude está esta sexta-feira, 21, a valer mais de 92 USD, uma valorização de quase 5% desde o anúncio de Trump do seu "Dia D" económico sobre o Irão.
E uma sondagem recente promete deixar ainda mais intranquilo Donald Trump e o seu Partido Republicano: mais de 70% dos eleitores norte-americanos que em Novembro vão decidir se mantém ou lhe retiram o poder no Congresso, apontam como maior exigência que o preço dos combustíveis volte aos valores de antes desta guerra que começou a 28 de fevereiro deste ano (ver links em baixo).









