Mikhail Fedorov sabia que Zelensky seria alvo da fúria popular porque foram as suas iniciativas no pouco tempo no cargo que levou esperança às famílias ucranianas de que os seus filhos, maridos e pais pudessem escapar às trincheiras do conflito com a Rússia.

Isto, porque, embora não existam números fiáveis sobre mortos e feridos nas fileiras ucranianas, estes serão seguramente na ordem das centenas de milhares como o provam as novas campas abertas nos cemitérios por todo o país.

E também os inúmeros vídeos que circulam nas redes sociais de jovens ucranianos capturados nas ruas das cidades e vilas e aldeias do país pela unidade especial do Exército que tem por missão levar voluntários à força para a linha da frente.

Vídeos estes que mostram crescentes confrontos violentos das populações contra esses raptos mas sem que tal tenha levado à dimensão dos protestos populares, com dezenas de milhares de pessoas nas ruas, contra a expulsão de Mikhail Fedorov do Governo.

É que o jovem agora ex-ministro, de apenas 35 anos, estava a conseguir, é pelo essa a percepção que resulta das leituras dos jornais ucranianos, como The Kiyv Independent, ou alguns blogs militares próximos do regime ucraniano, reduzir as baixas na guerra através de novas estratégias e métodos.

A IA na guerra

E isso era, e ainda é, resultado da cada vez mais pesada relevância do uso de drones e da Inteligência Artificial (IA) no conflito com a Rússia, resultante da proximidade de Fedorov aos gigantes de Silicon Valley, especialmente à Palantir Technologies, de Peter Thiel.

Uma das questões que estavam a atormentar Mikhail Fedorov é que tanto Peter Thiel como outros dos gigantes da IA, usam há largos meses a guerra na Ucrânia para testar os seus programas militares com este tipo de tecnologia, privilegiando alvos económicos no interior da Rússia ao invés da frente de batalha.

E isso, como se percebe ao ler os jornais internacionais, e também os ucranianos, levou o comandante-geral das forças ucranianas, general Oleksandr Syrskyi, a começar a olhar de lado para o seu ministro da Defesa.

E essa opção prioritária pelos drones e pela IA estava a retirar meios humanos e verbas das trincheiras, onde os russos ganham terreno dia após dia, como se percebe pela forma como as últimas duas cidades fortificadas no Donetsk ainda na posse de Kiev, Slaviansk e Kramatorsk, estão prestes a cair para o lado de Moscovo.

No dia em que esse momento chegar, que alguns analistas militares, como o general Agostinho Costa, apontam para apenas algumas semanas, a Federação Russa terá conquistado todo o Donbass (Donetsk e Lugansk), que era o objectivo inicial do Kremlin, quando, a 24 de Fevereiro de 2022 iniciou a invasão da Ucrânia.

E esse será o momento mais baixo em vários anos nesta guerra que já vai para o seu 5º ano no lado ucraniano, podendo, a partir daí, se for essa a intenção de Vladimir Putin, o Presidente russo, chamar a si a vitória neste conflito, embora nada aponte nesse sentido, porque a Rússia, entretanto, anexou oficialmente também Kherson e Zaporizhia, ainda com cerca de 20% dos seus territórios sob controlo de Kiev.

Com Oleksandr Syrskyi, de um lado, a exigir mais atenção de Zelensky para a linha de combate no terreno, e Mikhail Fedorov, nas mãos dos gigantes norte-americanos das novas tecnologias, o Presidente acabou por deixar cair o seu jovem ministro-estrela da Defesa.

Escolha difícil de Zelensky

Aparentemente fez mal a sua escolha de lado, porque ao deixar cair Fedorov, que se antecipou à demissão um dia antes do anúncio da sua saída, no contexto de uma remodelação que levou ainda a primeira-ministra Yulia Svyrydenko, Volodymyr Zelensky despoletou, como nunca tinha acontecido, a fúria popular em toda a Ucrânia.

Assim que Fedorov meteu o pé na rua, evitando a humilhação de uma demissão pública, por toda a Ucrânia milhares de pessoas saíram ás ruas, e vários media aliados do regime tiveram mesmo a coragem de mostrar o seu descontentamento em editoriais venenosos para Zelensky.

Nunca o Presidente ucraniano fez face a tamanho descontentamento popular, mesmo estando já há mais de dois anos além do limite constitucional no cargo, com as eleições em dívida deste Maio de 2024, embora o mandato esteja a ser sucessivamente prolongado assente na Lei Marcial em vigor desde 2022.

Apesar desta crescente pressão, que pode mesmo, segundo alguns analistas, levar a que entre os militares avance uma intentona limitada para o forçar a não ceder à pressão popular, ou em sentido inverso, na defesa de Fedorov, Zelensky mostra-se reticente em agir de forma a travar este terramoto contestatário nas ruas das cidades e vilas ucranianas.

O que os manifestantes querem é claro: que Zelensky volte atrás, acolha de novo Mikhail Fedorov no seu Governo, e demita o general Syrski. Menos claro é o porquê desta reivindicação.

Duas possibilidades ganham força entre várias: a primeira é que as manifestações resultam do cansaço da guerra e das elevadas baixas, que as opções de Fedorov e dos amigos da IA nos EUA, com Peter Thiel, da Palantir, na linha da frente, ajudam a reduzir ao passar o esforço de guerra das sanguinolentas trincheiras para os drones teleguiados pela IA.

A segunda possibilidade que se destaca é que Fedorov escolheu estrategicamente surgir como o campeão da luta contra a corrupção na Defesa e isso levou a que os esquemas que permitiam desviar milhões de euros e dólares do financiamento americano e europeu - a União Europeia enviou 90 mil milhões de euros há apenas algumas semanas - para os vários grupos de interesses, colocou a sua cabeça a prémio.

Com o povo do seu lado, Fedorov não se coíbe de dizer publicamente que a sua saída do Executivo, onde estava há menos de um ano, mas com um currículo largo enquanto Governante desde 2019, se deveu à pressão do general Oleksandr Syrski, pedindo que Zelensky o demita por estar a "dividir o país" enfraquecendo a Ucrânia na guerra com a Rússia, ao desvitalizar o apoio dos aliados europeus que o têm a ele como uma referência.

E é precisamente neste ponto que o próprio cargo de Volodymyr Zelensky, segundo vários analistas, pode ficar na corda bamba, porque ao deixar em aberto a possibilidade de ceder à pressão das ruas, poderá estar, ao mesmo tempo, a enfurecer o meio castrense, ou parte dele, mais ligado ao general Syrski, de onde pode emergir uma demonstração de força com consequências de largo espectro político e social impossíveis de antecipar com precisão.

Uma crise para ficar e aumentar

Esta crise governamental em Kiev que já está tanto nas ruas ucranianas como nos media internacionais, sendo o grande confronto entre Zelensky e o seu eleitorado, emerge de um contexto em que Kiev tem conseguido, embora sem impacto efectivo na linha da frente, onde os russos somam, mesmo que lentamente, ganhos, um efeito mediático importante.

E isso resulta das sucessivas e bem-sucedidas incursões através de drones sobre a extensão russa, visando desde a infra-estrutura petrolífera a armazéns das grandes empresas de distribuição, portos, navios, incluindo petroleiros, com larga projecção nos media internacionais.

Este desempenho, que tem substancialmente como efeito maior a propaganda mediática, apesar de objectivamente estar a causar danos na economia e na imagem das defesas russas, dá vantagem à linha de Fedorov, visto que isso também permite ao regime ucraniano mostrar aos seus aliados e financiadores europeus o resultado do seu investimento neste conflito contra a Rússia de Vladimir Putin.

Porém, enquanto Fedorov tinha as mãos nos comandos dos drones guiados pela IA da Palantir, longe das trincheiras, Syrski não se cansa de lembrar que é com as mãos no sangue do campo de batalha que a guerra pode ser ganha, porque com os drones o melhor que se pode conseguir é reduzir a velocidade do avanço russo nas várias frentes.

Frentes essas que têm os seus pontos mais incandescentes no que resta do Donetsk, Slaviansk e Kramatorsk, depois de Kostiantynivka, o terceiro elo do último reduto fortificado nesta região, ter caído na passada semana, em Zaporizhia, com as forças russas a aproximarem-se da capital desta província, com o mesmo nome, e em Kherson, onde Moscovo ainda não conseguiu chegar à capital.

Igualmente sob as atenções das unidades russas da linha da frente, estão Sumy, Kharkiv, ambas regiões no nordeste ucraniano, e Odessa, no sul, junto ao Mar Negro, no conjunto da chamada Novorossiya, que começa a ser vista como a nova geografia visada para conquista por Moscovo e que abrange quase toda a área a leste do Rio Dniepre.