Os cientistas passam a vida a discutir qual dos dois vai chegar, quando vai chegar e com que força. É um teatro meteorológico de primeira grandeza, com directores, actores e plateia atenta.

Cá em Angola, porém, temos um fenómeno próprio. Mais moderno, mais inclusivo, mais... confuso. Super-Caçula.

O Super-Caçula é o fenómeno climático que nos visita sem se identificar. Não é El Niño, não é La Niña. Não tem género definido. Em alguns dias, aquece a água do Atlântico; em outros, arrefece. É fluido, como se diz agora. É a temperatura em transição permanente. O Caçula faz chover torrencialmente no Namibe, o deserto mais seco de Angola, e leva seca para o Mayombe, a floresta mais húmida do país. É o caos meteorológico em estado puro, uma espécie de roleta russa climática onde ninguém sabe se há-de levar guarda-chuva ou protector solar.

O pior é que o Super-Caçula é imprevisível. Os meteorologistas tentam e até nas previsões erram redondamente. Fazem desenhos, mapas, isolinhas, tudo o que é de direito. Mas o Caçula ri-se deles. Quando os senhores do tempo dizem que vai chover, o Caçula faz sol. Quando anunciam calor, o Caçula manda uma trovoada. E por vezes essa trovoada vem com raios que ceifam vidas.

E depois há a comunicação social dramática. Um dia o El Niño está à caminho e por isso nos devemos preparar para a seca. No dia seguinte é a La Niña que está a chegar e vai chover torrencialmente. Em outro dia, na verdade, é o fenómeno híbrido, ninguém sabe. E nós, simples mortais, ficamos a olhar para o céu, a perguntar-nos se vestimos o casaco ou a camisola, se levamos o chapéu ou o guarda-chuva.

O Super-Caçula é o mais moderno dos fenómenos. Não se compromete com previsões, não respeita as datas oficiais de início das estações e não aceita mapas com projecções. Hoje pode parecer o El Niño, e amanhã disfarçar-se de La Niña, e quando as projecções estão quase certas, muda novamente de ideias. É uma espécie de adolescente climático. Agora que o Canal do Cafu está acompanhado do Ndúe e do Calucuve, esse nosso fenómeno não vai fazer mossa, a não ser que se distraia e descarregue a sua raiva, obrigando-nos a construir arcas navegáveis no sul de Angola.

A única certeza que temos é que, seja qual for o fenómeno, o que não vai faltar é confusão. E, no fim, o Super-Caçula vai-se embora, sem se despedir, e ninguém fica a saber se foi homem, mulher ou o quê. Só elu sabe. Nós, cá, ficamos com a sensação de que o clima, afinal, é como a política em Angola: poucos percebem o que se passa, mas todos têm uma opinião.