A AnsarAllah, a organização que o mundo conhece melhor por Houthis, apoiada pelo Irão, tomou o oeste do Iémen a partir de 2014, mas foi apenas agora que a parte mais estratégica de Bab al-Mandeb caiu nas suas mãos.
Isso é relevante porque os Houthis dominam agora integralmente o Estreito de Bab al-Mandeb, o que lhes permite decidir quem pode e quem não pode passar pela abertura marítima que liga o Oceano Índico ao Canal do Suez, através do Mar Vermelho.
No que diz respeito ao negócio global do petróleo, Bab al-Mandeb assumiu uma importância muito semelhante ao Estreito de Ormuz porque foi por ali que a Arábia Saudita passou a exportar o seu crude para a Ásia desde que o Irão fechou aquela que é a única passagem marítima passagem do Golfo Pérsico para o mundo.
Com Ormuz sob o seu domínio, os iranianos passaram a ter controlo quase total sobre a passagem de 20% do petróleo e do gás (LNG) mundiais, conferindo a Bab al-Mandeb uma relevância estratégica explosiva.
Isso, porque aquele outro "estreito" permitia aos sauditas desviar pelo longo oleoduto, mais de 1200 kms, que atravessa o país do Golfo Pérsico ao Mar vermelho, perto de 50% da sua produção diária de crude, que derivava dali para a Ásia, onde estão os seus grandes clientes, a China e a Índia à cabeça.
Numa peripécia que a História só guarda para os seus grandes momentos, tanto Ormuz como Bab al-Mandeb estão agora, depois dos avanços dos Houthis para sudoeste do Iémen, na mão do Irão, porque é este país que apoia a AnsarAllah desde a sua fundação, no início da década de 1990.
E é com o apoio militar, financeiro, técnico e organizativo do Irão que a AnsarAllah tomou na última década mais de um terço (1/3) do Iémen, incluindo a capital, Saná, e a estratégica costa do Mar Vermelho às forças estatais que contam com o apoio total da Arábia Saudita e dos Estados Unidos.
O mercado global do petróleo não podia ficar impávido e sereno perante este turbilhão regional que levou para o domínio de Teerão estes dois canais, um, Ormuz, que responde por 20% do crude e do LNG, além de 30% do hélio (indústria de chips), fertilizantes sem alternativa e alumínio em parcelas consideráveis do mercado mundial...
... e Bab al-Mandeb, que, além dos cerca de 5 a 6 milhões de barris de crude que os sauditas diariamente desviavam pelo oleoduto arábico para a Ásia, é ponto de passagem de 12% a 15% do comércio geral planetário porque é por ali que a "fábrica do mundo" que é a China, mas também toda a Ásia, envia as suas exportações para ocidente.
Sem esta passagem, por exemplo, um barril de crude saudita, quando recuperar o oleoduto de 1200 kms entre o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, que os Houthis praticamente destruíram na última semana, para chegar à China ou à Índia, tem de navegar à volta de todo o continente africano via Canal do Suez...
Todavia, sabendo deste tremendo poder, os líderes da AnsarAllah já vieram garantir que para já só os navios, incluindo petroleiros, com destino ou oriundos de portos sauditas e israelitas estão impedidos de transitar por esta passagem estratégica, mas o potencial de agravamento das condições está claramente presente.
Como não podia deixar de ser, apesar das cíclicas jogadas do Presidente Donald Trump para manipular o mercado petrolífero em baixa, a corda acabou por rebentar porque já não era possível continuar a acreditar que o mundo não está numa crise energética sem paralelo, como, por exemplo, entendem alguns analistas.
Um desses especialistas é Jeffrey Currie, antigo analista da Goldman Sachs, actual director da 1947 Oil&Gas e professor na Universidade de Chicago, que defende que os mercados estão "cegos" para a maior crise no sector petrolífero de sempre.
Como exemplo, Currie avança o facto de ao estrangulamento do petróleo do Médio Oriente, que são dezenas de milhões de barris por dia que não chegam aos mercados, há que juntar a queda dramática da capacidade de refinação global devido aos conflitos no Golfo Pérsico e no leste europeu.
Em ambas as guerras, as refinarias, russas e ucranianas, e sauditas e dos outros petroestados do Golfo, são dos alvos mais visados por mísseis e drones, o que, explica este analista com décadas de experiência, tem permitido que se note menos o buraco deixado pela redução da oferta global de crude.
O problema é que todos aqueles que estão neste negócio sabem que o "armagedão" energético está ao virar da esquina assim que estes dois fenómenos - menos refinação e menos crude disponível - se juntarem para fazer o par nesta dança catastrófica no salão da economia global.
Um dos sinais é que o barril de crude Brent para entrega imediata já passou há muito os 140 USD, ignorando totalmente a referência a três meses, e a tonelada métrica de gasóleo, por exemplo, subiu só este ano de 2026, mais de 150%, de perto de 450 USD para cima dos 1500 USD.
Razão pela qual, por exemplo, há alguns meses, devido a questões de composição dos diferentes tipos de crude, mais leves ou mais pesados, o gasóleo tem vindo a superar substancialmente o preço da gasolina (Angola é um exemplo) nos postos de abastecimento.
E é assim que o barril de Brent está esta segunda-feira, perto das 09:30, hora de Luanda, a bater nos 108,5 USD, uma subida de mais de 3,6%, marcando claramente o receio de uma crise mais sólida que se começa a instalar nos mercados, sendo que em Nova Iorque, o WTI, nos 102,5 USD à mesma hora, mostra comportamento semelhante.
A esperança de que um diluente para esta crise em construção apareça está nos sinais de que o Irão e os países do Golfo Pérsico podem estar à beira de desviar a sua "energia" do campo de batalha para a mesa das negociações.
Além disso, Donald Trump também mostrou sinais por estes dias de que os EUA podem estar a mudar de "chip", primeiro quando recusou o pedido da Arábia Saudita para que a Marinha norte-americana ajudasse a combater, com os seus mísseis, os Houthis, e depois ao admitir que Washington pondera sair do conflito com o Irão mais dia menos dia.
Apesar disso, o barril de Brent atingiu esta segunda-feira, 14, o seu valor mais elevado de quatro meses, acima dos 108 USD, com subidas muito próximas dos 10 % semanais, o que não pode deixar de ser uma janela de oportunidade para os países exportadores.
Porém, esta janela pode ter dois lados e ambos darem para a rua, porque se é verdade que mais valor nos mercados, mais valor acumulado no negócio, também é verdade que entre os produtores estão muitos dos países mais dependentes das importações de refinados, como Angola ainda é, pelo menos enquanto as suas novas refinarias não estiverem a funcionar em pleno.
Angola soma ganhos...
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 108 USD, no caso do Brent, cerca de 48 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
