O Presidente ucraniano foi à capital norte-americana para participar no funeral do maior aliado da Ucrânia no Congresso dos EUA, o senador Lindsey Graham, na terça-feira, 28, com fortes expectativas de dali sair com mais capacidade para combater os russos.
Na lista de "encomendas" ao seu mais importante aliado, os EUA, apesar da baixa nas suas "fileiras" que foi a morte do senador Lindsey Graham, Volodymyr Zelensy tinha posto à cabeça a licença para fabricar na Ucrânia os sistemas anti-míssil Patriot PAC 3.
Ao longo da sua história, os EUA apenas concederam este tipo de licenças, excepcionalmente, a países aliados históricos como o Japão ou a Alemanha, sendo a Ucrânia, como Trump chegou a admitir, o próximo candidato a esse benefício e confiança.
Porém, pelo que se ficou a saber do encontro de Zelensky com Trump na Casa Branca, esta terça-feira, 28, as expectativas do ucraniano terão sido goradas porque, além da simpatia demonstrada pelo anfitrião na sua rede social Truth Social, mais nada foi avançado.
O próprio The Guardian, o jornal britânico mais alinhado com o regime de Kiev, sublinha esta quarta-feira, 29, que Donald Trump se ficou por notar que foi um "encontro importante" onde "vários assuntos foram discutidos" sem mais delongas.
Mas ficou-se a saber que a questão do licenciamento para fabrico dos Patriot, os sistemas anti-mísseis mais usados no conflito ucraniano por parte de Kiev, em território ucraniano, foi o tema mais falado entre os dois Presidentes porque isso mesmo foi dito por Zelensky.
O facto de Trump não lhe ter dedicado a mesma relevância na abordagem posterior a esse encontro tem como interpretação mais comum entre os analistas que os norte-americanos permanecem com dúvidas sobre esse passo raro e só dado na direcção dos aliados mais sólidos e de confiança histórica.
Ora, a Ucrânia, que ainda antes da invasão russa a 24 de Fevereiro de 2022, era um país retratado pelos media ocidentais como mergulhado na mais corrosiva e endémica corrupção, não tem esse legado de aliado histórico dos EUA e o risco não passa ao lado de Washington.
Desde logo o risco de a tecnologia sofisticada exigida para o fabrico dos Patriot, que nos próprios EUA se limita a 600 unidades por ano, chegar às mãos de adversários como a Rússia ou a China, é evidente e não é algo que Washington possa admitir.
Uma das razões que os especialistas militares estão a avançar para este insucesso de Zelensky é que os EUA têm os seus stocks de Patriot em níveis historicamente baixos devido não apenas à guerra na Ucrânia mas também no Golfo Pérsico, com o Irão.
Ainda por cima, como Ted Postol, especialista em sistemas de defesa anti-míssil do MIT e antigo colaborador do Pentagono, os Patriot têm uma fraca taxa de sucesso sobre mísseis balísticos e são precisos até quatro unidades para abater apenas um destes projectéis.
Ora, com uma capacidade anual de produzir apenas 600 unidades, envolvendo três gigantes da indústria das armas nos EUA, a Raytheon, a Lockheed Martin e a Boeing, Trump tem a tarefa dificultada mesmo que queira muito dar este "presente" a Zelensky.
Além disso, com a chuva ininterrupta de mísseis e drones russos sobre todo o território, com os russos a poderem observar, com a sua rede de satélites, toda a Ucrânia, que garantias terá Donald Trump de que essa fábrica, que exige um investimento astronómico, não é destruída mesmo antes dela sair o primeiro projéctil?
É que os norte-americanos sabem que, por exemplo, isso mesmo aconteceu com a fábrica que a Alemanha montou na Ucrânia para produzir armamento de defesa anti-aérea que foi destruída por mísseis russos dias antes de começar a funcionar a sua linha de produção.
Sabendo disto, alguns analistas notam que, horas antes de Zelensky chegar a Washington, norte-americanos e ucranianos propuseram a Moscovo um cessar-fogo aéreo, que deveria vigorar dos dois lados da fronteira, o que foi negado pelo Kremlin porque o objectivo evidente era que Kiev pudesse sem risco começar a produzir aquele tipo de armamento.
Para tentar forçar o Presidente Vladimir Putin a aceitar esse cessar-fogo parcial sobre os céus dos dois países, os ucranianos estão há largas semanas a lançar sucessivas vagas de drones e mísseis sobre áreas relevantes para a economia russa, como é o caso dos armazéns da "WildBerries", a empresa de entrega de encomendas equivalente a Amazon.
Ataques esses que produziram imagens impressionantes de fogos com gigantescas colunas de fumo sobre várias cidades russas, aproveitadas pelos media ocidentais para sublinhar a eficácia dos ataques ucranianos mas que, no terreno, pouca relevância tem na afectação negativa da economia da Federação Russa.
Ao recusar liminarmente a proposta de Donald Trump e Volodumyr Zelensky de um cessar-fogo aéreo russo-ucraniano, Vladimir Putin terá, ao que tudo indica, impedido os norte-americanos de emitirem a licença para produção de sistemas Patriot na Ucrânia.
Ao saber-se sem acesso a essa autorização especial e raramente concedida pelos norte-americanos, Zelensky, citado por The Guardian, sublinhou que além desse tema, também discutiu com Trump a "necessidade de revigorar as relações diplomáticas entre os dois países".
Na mesma nota, o Presidente ucraniano anunciou que vão ser criadas equipas por Kiev e Washington com a missão de reaproximação diplomática definindo os detalhes já nos próximos dias, embora sem apontar uma data concreta.
Apesar do insucesso na investida pelos Patriot, Zelensky saiu de Washington com uma consolação simbólica, ao ver o Congresso aprovar, em memória do seu mais férreo aliado em Washington, o falecido senador Lindsey Graham, um novo pacote de sanções contra a Rússia que os analistas apontam como pouco mais que irrelevante no seu potencial de criar danos na economia de Moscovo.
Isto, quando na frente de combate, os russos estão a avançar em direcção às últimas cidades ainda em posse dos ucranianos na região de Donetsk, Slaviansk e Kramatorsk, que, ao caírem para o lado de Moscovo, deixarão, nesse momento, Putin com a sua primeira grande vitória na sua Operação Militar Especial, que era a conquista do Donbass, a região constituída por Donetsk e Lugansk, no leste ucraniano.
Alguns analistas admitem que esse momento poderá ser uma nova oportunidade para os norte-americanos assumirem as vestes de mediadores de forma a tentar de novo um cessar-fogo com KIev e Moscovo que permita acabar com a mais devastadora e longa guerra na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.









