Ao optar por "obedecer" aos milhares que nas ruas lhe exigiam manter as políticas implementadas nos poucos meses que o ex-ministro Mikhail Fedorov esteve no cargo, Volodymyr Zelensky descartou o seu comandante militar, general Oleksandr Syrski.

Mas o Presidente ucraniano, ele próprio na corda bamba por estar no cargo ao abrigo da Lei Marcial imposta em 2022, no início da guerra, e não pelo mandato ganho nas urnas, que terminou em Maio de 2024, foi ainda mais longe na cedência às ruas.

Nomeou para seu novo chefe militar das Forças Armadas ucranianas o general Mykhailo Drapatyi, um nome conhecido no país e no universo militar por estar alinhado com o anterior ministro da Defesa, Fedorov, no modelo de guerra que privilegia o uso de drones e a tecnologia ao invés da ocupação territorial.

E foi precisamente essa opção que estava a enfurecer o agora demitido general Oleksandr Syrski, porque ao alocar a maior fatia de meios financeiros na tecnologia de drones nesta guerra, no terreno somam-se as perdas de posições para o avanço russo.

Além desata questão "filosófica", o anterior ministro estava a começar a ganhar tracção popular como ferrete espetado na corrupção generalizada entre a sociedade castrense e não só, o que agradava aos ucranianos e estes foram para a rua exigir a continuidade desse combate.

Com a saída de Syrski e a nomeação para o seu lugar do general Mykhailo Drapatyi, um alinhado com Fedorov, Zelensky acaba por mostrar uma fragilidade que, como o Novo Jornal escrevia na terça-feira, 21, pode, no limite, colocar mesmo em risco a continuidade da sua presidência.

É que esta crise de Governo pode rapidamente evoluir para uma crise de regime porque, como notam alguns analistas, no epicentro desta disputa por opções tácticas e estratégicas está a gigantesca mortandade de ucranianos a combater os russos que a sociedade ucraniana começa a mostrar sinais de já não aceitar mais.

É que Mikhaim Fedorov também justificava a opção pela guerra de drones guiados pela tecnologia da Inteligência Artificial (IA) dos gigantes tecnológicos norte-americanos, como a Palantir, de Peter Thiel, com a urgência de poupar vidas no campo de batalha.

Linha da frente essa que, com a falta de voluntários para as fileiras armadas ucranianas, está a ser, ainda, municiada com o rapto, como as centenas de vídeos que circulam nas redes sociais provam, de jovens e menos jovens nas ruas pela unidade especial do Exército criada para esse fim.

Ao que tudo indica, o agora também demitido general Syrski defendia a crescente opção por essa via do voluntariado à força para garantir combatentes nas frentes onde estes escasseiam de forma grave, seja por, como a própria imprensa ucraniana, alinhada com o regime noticiou, baixas elevadas e sem substituição, seja por deserção em ritmo crescente, com centenas de milhares de jovens a fugir da linha da frente.

Enquanto Fedorov tinha como alternativa para estancar o avanço russo nas zonas mais relevantes, como nos últimos redutos do Donbass ainda sob domínio de Kiev, as cidades de Slaviansk e Kramatorsk, na região de Donetsk, o uso de drones e robots, o que era do agrado popular por reduzir as mortes nas trincheiras.

Vários analistas sustentam que esta tentativa de Zelensky de parar a crise através da saída expedita dos dois opositores no universo da Defesa ucraniana, Syrski e Fedorov, está longe de ser de sucesso garantido, além de ter todos os condimentos para que o agora ex-ministro aproveite o balanço das ruas para ganhar impulso para uma corrida à Presidência quando tiverem lugar as eleições que já levam mais de dois anos de adiamento sob justificação da Lei Marcial imposta logo em 2022, com a advento da invasão russa.

É preciso esperar para ver se com esta movimentação de saídas e entradas, as ruas se esvaziam de manifestantes porque, inclusive nos media ucranianos, o balanço ganho nesta semana de protestos está a ser alimentado para continuar, mas agora para debelar o grave problema de corrupção que corrói o regime de Volodymyr Zelensky.

Corrupção essa que é alimentada pelos milhares de milhões de dólares e euros que EUA e União Europeia escoam para a Ucrânia de forma a manter a Rússia sob pressão e levar, em última análise, á queda do regime de Vladimir Putin no Kremlin.

Esta vaga de protestos pode ser reciclada para a exigência da realização de eleições face ao cansaço que se nota, inclusivé na imprensa alinhada com o o regime, com a condução política do país e da guerra com a Federação Russa por parte do Presidente Volodymyr Zelensky num momento em que Mikhail Fedorov, com a sua juventude e popularidade, ao que se alia as excelentes relações com os aliados europeus de Kiev, reúne todas as condições para pensar em disputar o cargo.

Todavia, alguns analistas, como o coronel Douglas MacGregor, antigo conselheiro da primeira Administração Trump, ou o coronel Larry Wilkerson, que foi chefe de Gabinete do secretário de Estado Collin Powell, na Administração Bush, admitem que existe a possibilidade de que o que parece mais evidente, poder não ser bem assim.

É que um e outro, ambos velhos e experimentados militares com longa experiência no campo de batalha das guerras travadas pelos EUA em todo o mundo, entendem que enquanto Syrski privilegiava a defesa directa do território face ao avanço russo, Fedorov e o agora novo CEMGFA, preferem o show dos drones a explodir com grande espectáculo nas refinarias e armazéns na profundidade da Federação Russa.

O que se traduz por fortes e impactantes imagens para os media internacionais, que poderá satisfazer os financiadores europeus do esforço de guerra ucraniano, mas pouco ou nada atrapalha o avanço, lento mas continuado, das forças russas na linha da frente.

E em última análise, depreende-se deste raciocínio que tanto Mikhail Fedorov como Mykhailo Drapatyi são defensores de um modelo de guerra que aparentemente é melhor para convencer os doadores europeus - a última verba aprovada por Bruxelas é de 90 mil milhões de euros - e norte-americanos a manter o fluxo de dinheiro em direcção a Kiev mas não impede o avanço russo no terreno onde a Ucrânia, apesar das n arrativas dpos media ocidentais, está a debater-se com dificuldades evidentes.

E a prova disso mesmo é que, contrariando o saber popular que diz que em equipa ganhadora não se mexe, o Presidente Volodymyr Zelensky já mudou três ministros da Defesa e dois comandantes militares do topo da hierarquia em quatro anos de guerra.