Em reação, a Associação de Escuteiros de Angola, após um processo de consulta interno, determinou a saída dos recintos católicos das unidades que quisessem permanecer filiados a ela e extinguiu administrativamente aquelas que decidiram abandonar as suas fileiras. Segundo estatísticas da Junta Central da AEA, "cerca de 70% dos escuteiros católicos permaneceram na Associação e 30% aderiram ao novo organismo". E instalou-se "o cisma".
A Associação de Escuteiros de Angola afirma-se "o ente juridico reconhecido pelo Estado Angolano desde 1966, como detentora exclusiva da aplicação do Método Escutista e membro de pleno direitos da Organização Mundial do Movimento Escuta desde 1998. É, nessa dupla condição, a guardiã dos direitos de autoria e outros patrimoniais da logomarca SCOUT". Com base nisso, entende que "os Escuteiros que saíram da AEA, perderam automaticamente a qualidade de membros da Fraternidade Escutista Nacional e Mundial. Não podem usar mais o uniforme, lenço, insígnias e outros elementos identitários do Escutismo Nacional e Mundial. Nem podem sequer serem membros do Conferência Internacional Católica do Escutismo - CICE - porque para o serem, têm que estar filiados numa Associação Escutista Nacional. E eles saíram da sua, que é a AEA". Ou seja, não reconhece aos "cismáticos" sequer a qualidade de escuteiros.
A CEAST, por sua vez, furiosa ao ver tão grande número de jovens virarem as costas ao seu projecto separado da AEA, emanou um controverso documento no qual por um lado reconhece e diz respeitar o diteito de escolha dos escuteiros que não aderiram, mas por outro lado cria um conjunto de sanções para os mesmos: não podem ser padrinhos ou madrinhas, fazer leituras nos serviços divinos, entrar noutros grupos de apostolado e, nalguns casos mais extremos, recusa de Missa de corpo presente a um falecido e negação da Comunhão. Houve entretanto um ligeiro recuo nessas medidas porque os visados mostraram que ela se situam na contra-mão do Direito Canónico da própria Igreja Católica.
Essa é a "cisma" instalada: de um lado a Associação legalmente reconhecida pelo Estado e palos organismos escutistas internacionais e do outro os "escuteiros da CEAST", até agora sem qualquer vínculo jur+idico-legal com qualquer instituição fora desse circuito. O que se afigura quase impossível porque, se nas leis angolanas não podem haver duas associações com a mesma denomminação, ao nível internacional, a Organização Muncial do Movimento Escuta só reconhece uma associação nacional por país. E a reconhecida é a AEA. Paradoxalmente, mesmo para serem reconhecidos pela Conferência Internacional Católica do Escutismo, o organismo mandatado pela Santa Sé para supervisionar o escutismo católico no Mundo, será quase impossível. Porque a CICA é Membro Associado da OMME e apenas pode acolher no seu seio associações que sejam membros da mesma. Ora, a AECA não é membro da OMME, quem é a AEA.
E enquanto o imbróglio não se desfaz, a Associação de Escuteiros de Angola não foi convidada pela CEAST para participar na recepção do Papa Leão XIV, como aconteceu com João Paulo II e Bento XVI. Em seu lugar, convidou "os seus escuteiros" que sequer são reconhecido pela própria Santa Sé...
*Sociólogo da Comunicação