A grande alteração observada ao longo dos 32 dias de guerra entre a coligação agressora israelo-americana e o Irão, o país atacado, foi nos objectivos anunciados por Donald Trump e pelo seu secretário das Guerra, Pete Hegseth.
Logo após o ataque de 28 de Fevereiro, onde foi morto o aiatola Ali Khamenei e perto de 40 chefes militares e políticos de topo, Trump e Hegseth, por um lado, e o primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyhau, por outro, apontaram como maior objectivo a mudança de regime em Teerão.
Foi ainda apontado como prioritário forçar o Irão a desistir do seu programa de misseis balísticos hipersónicos de médio e longo alcance, e acabar com o apoio aos seu aliados regionais, o Hezbollah, no Líbano, a Ansar Allah (Houthis), no Iémen, e as milícias xiitas do Iraque.
Nenhum destas exigências enviadas a Teerão com bombardeamentos diários durante estes 32 dias, destruindo centenas de instalações militares, mas também muitas escolas, hospitais e edifícios governamentais, foram aceites. Pelo contrário.
O Irão, apesar de ter visto assassinados vários líderes políticos e militares na estrutura principal do poder no país, mantém a coerência inicial, ripostar olho por olho, dente por dente aos ataques da coligação israelo-americana, com evidentes efeitos demolidores em Israel e nos países onde os EUA têm bases militares no Golfo Pérsico.
Além das vagas diárias de misseis e drones sobre Israel e os vizinhos próximos de Washington, Teerão também tem exigências, avançando que tem de ser indemnizado pela destruição no país, e quer consolidar uma "portagem" no Estreito de Ormuz, replicando o que muitos países fazem em todo o mundo, incluindo EUA, Egipto, Canadá, Turquia...
E de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros Abbas Aragchi, que garante não haver quaisquer negociações com Washington, desmentindo parcialmente Trump, porque admite, em entrevista à Al Jazeera, que existe uma troca de mensagens entre os dois países, o Irão não aceita um cessar-fogo sem garantias de fim total das hostilidades.
Ora, é precisamente isso que a Casa Branca parece estar a ter dificuldades em garantir a Teerão, porque os EUA estão a deslocar para a região milhares de militares das suas forças especiais, e dezenas de milhares de infantaria, ao mesmo tempo que Trump admite que pode avançar com uma incursão terrestre parcial.
Desde logo para tomar a Ilha de Kharg, por onde o Irão exporta 80% do seu crude, e algumas ilhas do Estreito de Ormuz (que estava aberto antes da guerra), para garantir a passagem sem restrições aos navios de todo o mundo, que é agora o maior objectivo dos EUA, porque Trump, claramente deslocado da realidade, assume que já mudou o regime e que o país deixou de ser uma ameaça militar devido à "destruição total ou quase" da sua marinha, força aérea e lançadores de misseis.
Apesar da imensa incerteza que resulta dos avanços e recuos das garantias de Trump neste mês de conflito, que gerou pânico nos mercados, não apenas energéticos, porque pelo Estreito de Ormuz passam ainda milhões de toneladas de fertilizantes fundamentais em todo o mundo e hélio, indispensável na indústria de chips e sem fornecedor alternativo, os mercados do crude parecem estar a levá-lo a sério, de novo.
O que fica demonstrado com o recuo do barril para baixo dos 100 USD nesta quarta-feira, 01, com uma queda que começou na terça-feira, logo a seguir às declarações de Donald Trump a anunciar que os EUA vão sair de cena no conflito do Médio Oriente "dentro de duas a três semanas".










