Regressar ao Angrajazz é reencontrar amigos, músicos, críticos de diferentes geografias, que aqui regressam ano após ano e, sobretudo, um público cuja paixão parece resistir a tudo. A organização mantém o Festival de pé apesar dos fenómenos climáticos extremos que têm testado os Açores, reafirmando que há acontecimentos que uma comunidade decide não deixar cair.
Esta 27ª edição viajou entre dois centenários incontornáveis; dois nomes maiores da História do Jazz: Miles Davis, evocado logo na abertura do Festival, e o saxofonista John Coltrane, esteve na última sessão. Entre ambos, a música encontra nos Açores a sua paisagem perfeita: atlântica, imprevisível e profundamente jazzy.
Os dois gigantes do Jazz marcaram o compasso. E entre um e outro, os Açores - essa beleza atlântica, imprevisível, surpreendente e luminosa - fazem do Festival um lugar onde a música respira. E o Jazz, naturalmente, continua.
Miles Davis e Gil Evans: uma amizade que mudou o Jazz
A Orquestra AngraJazz, com convidados especiais e sob a direção do maestro Pedro Moreira, abriu o seu tributo a Miles Davis evocando uma das mais extraordinárias parcerias da História do Jazz: a cumplicidade artística e a amizade entre o trompetista e o pianista, compositor e arranjador Gil Evans.
No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Miles Davis, a escolha não poderia ser mais simbólica. O programa mergulhou precisamente no período em que Miles e Gil Evans cruzaram genialidade, experimentação e uma rara capacidade de escutar e compreender o outro. Mais do que uma simples colaboração musical, entre os dois desenvolveu-se uma relação de profunda afinidade estética e pessoal, determinante para algumas das páginas mais inovadoras e luminosas do Jazz moderno.
Foi nesse território de invenção que ganharam nova vida temas associados a dois discos imortais: Miles Ahead e Porgy and Bess. Obras em que o trompete de Miles encontra nas arquiteturas orquestrais de Gil Evans um espaço de extraordinária liberdade, subtileza e sofisticação. Evans não se limitava a acompanhar Miles: construía à sua volta paisagens sonoras, cores e texturas que ampliavam a linguagem do trompetista e davam à música uma dimensão simultaneamente íntima e monumental.
Ouvir hoje esta música pela Orquestra AngraJazz (The Duke;
My Ship; Miles Ahead; Blues For Pablo; Bess You Is My Woman Now; Summertime ; I Loves You Porgy e It Ain"t Necessarily So- que me possibilita caminhar numa planura de encantamento - é, por isso, revisitar um momento decisivo da História do Jazz. É também reencontrar a voz inconfundível de Miles Davis através de arranjos que continuam a soar modernos, e perceber como a confiança entre dois músicos pode transformar uma colaboração numa verdadeira obra de arte.
Entre o silêncio, o espaço e a cor orquestral, Miles Davis e Gil Evans encontraram uma linguagem que ainda hoje respira. E foi precisamente essa linguagem - sofisticada, cinematográfica, aberta à surpresa - que a Orquestra AngraJazz trouxe ao palco, numa homenagem que se fez não apenas à memória de Miles, mas também à extraordinária amizade musical que ajudou a mudar para sempre o curso do Jazz (ver foto de Rui Caria).
BALADAS de e para John Coltrane
Há noites em que uma ilha parece feita de música. No domingo (4 de outubro) na Terceira, o AngraJazz despediu-se assim: com John Coltrane a viajar connosco para lá do tempo, nas mãos de Aaron Parks (piano) e no sopro do sax tenor de Walter Smith III; músico que tocou em Luanda, no Trópico, nos dias 15 e 16 de novembro de 2013, no âmbito do projecto " Jazz no Calor da Noite", de minha autoria.
Piano e sax tenor: duas vozes em conversa íntima, cúmplices até ao silêncio, procurando-se, encontrando-se, deixando espaço para que a música respirasse. Uma arte superior de escuta e de diálogo, elevada àquela rara altitude onde o Jazz já não se toca - acontece.
"All or nothing at All; Theme for Ernie; Body & Soul; I wish I knew; Lush Life"... E depois, Naima. A palavra (de origem árabe) significa "tranquila", "calma", "deliciosa", que está intimamente ligada aos conceitos de paz, bênção e felicidade celestial, "presente de Deus", segundo alguns autores (Ashley Khan, Cuthbert Simpkins e Lewis Porter). A balada imortal de Coltrane, gravada em 1959, dedicada à sua primeira companheira Juanita Naima Grubbs, atravessou a sala e atravessou-me a mim. Naima: o nome da minha única filha, que já tem cinquenta anos. Por um instante, a Terceira, Coltrane, a noite e a minha memória tornaram-se uma só coisa. E, entre sons e silêncios, carregados de memórias, na penumbra do Centro Cultural e de Congressos, chorei o amor que o tom dorido de Coltrane insistia em lembrar.
Há música que se ouve. E há música que nos reconhece. No concerto de domingo, Naima reconheceu-me. E levou-me pela mão, numa viagem sem regresso, ao lugar secreto onde o amor e a memória fazem morada.
Foi Jazz. Foi Coltrane. Foi magia (ver foto de Rui Caria).
Entre essas homenagens, o Jazz abre outras portas: África, América, improvisação, tradição e futuro, com Leïla Olivesi, e o próprio San Francisco JAZZ Collective, que recordou Wayne Shorter - outro mestre da invenção, da liberdade e da escrita musical.
Tudo isto acontece nos Açores, onde o Atlântico parece ter aprendido a improvisar. Talvez seja essa a melhor metáfora para o Angrajazz: um festival que, ano após ano, encontra o seu ritmo, escuta o imprevisto e segue em frente. Como no melhor Jazz, importa menos saber exactamente o que vem a seguir do que estar presente quando a música acontece.
Há festivais que se organizam. E há festivais que se fazem por amor. O Angrajazz pertence, seguramente, à segunda categoria.
