Este ano, a celebração do Mês da Criança ocorre num mundo marcado por crises sobrepostas, onde há uma verdade que não pode ser relativizada: proteger as crianças não é uma escolha - é uma obrigação absoluta. Ainda assim, essa prioridade continua, demasiadas vezes, a ser adiada, fragmentada ou subordinada a interesses de curto prazo.
Hoje, a nível mundial mais de 412 milhões de crianças vivem em pobreza extrema, e sobrevivem com com menos de 3 dólares por dia. Quase 1 em cada 5 crianças nos países de baixo e médio rendimento enfrenta privações severas em áreas essenciais como saúde, educação e nutrição. Além, disso, 473 milhões de crianças vivem em zonas de conflito, número que duplicou nas últimas décadas.
A crise climática agrava ainda mais este cenário: cerca de 1 bilião de crianças - quase metade das crianças do mundo - vive em países com risco extremamente elevado de impactos climáticos. Estes dados não são apenas estatísticas. São vidas interrompidas, futuros comprometidos e sociedades enfraquecidas antes mesmo de amadurecerem.
Em Angola, esta urgência é também evidente. O país tem uma das populações mais jovens do mundo - com cerca de 66% dos cidadãos com menos de 25 anos. Este perfil demográfico representa uma oportunidade histórica. Mas também é um enorme desafio.
Mais de metade das crianças angolanas - cerca de 55%, ou aproximadamente 10 milhões - vive em pobreza multidimensional. Metade enfrenta também pobreza monetária. Ao mesmo tempo, indicadores de sobrevivência continuam preocupantes: 52 crianças em cada 1.000 não chegam aos cinco anos de idade. E cerca de 22% das crianças estão fora do sistema de ensino.
Estes números revelam uma realidade incontornável: o futuro está directamente ligado à capacidade de proteger, educar e empoderar as crianças hoje, fazendo delas uma prioriade absoluta. Afirmar que a criança deve ser uma "prioridade absoluta" não pode ser apenas um princípio retórico. Deve traduzir-se em decisões concretas, investimento sustentado e responsabilidade partilhada.
Evidências globais mostram que países que reduziram significativamente a pobreza infantil adoptaram políticas integradas: reforçaram a protecção social, garantiram serviços públicos de qualidade e promoveram trabalho digno para as famílias. Mas estas políticas só produzem impacto quando acompanhadas de um compromisso real - político, institucional e social.
O investimento na educação de qualidade é outro factor de capital importância para transformar a vida de cada criança e das suas familias. A educação de qualidade tem um poder transformador profundo na vida das crianças, pois amplia oportunidades, reduz desigualdades e promove o desenvolvimento integral.
Actualmente, em Angola, um número estimado de 4.5 milhões de crianças estão fora do sistema escolar. Ao assegurar que estas crianças tenham acesso à uma educação de qualidade, elas não adquirem apenas conhecimentos académicos, mas também competências sociais, emocionais e o espírito crítico que as preparam para enfrentar os desafios da vida.
Apostar na educação não é apenas investir no presente das crianças, mas garantir um futuro mais equilibrado e próspero para toda a sociedade.
Há um provérbio africano que diz:"é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". Esta ideia nunca foi tão actual.
Os pais e cuidadores são a primeira linha de protecção. É na família que se constroem as bases do desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Mas nenhuma família consegue, sozinha, enfrentar contextos de pobreza estrutural ou crise.
O Estado tem a responsabilidade central de garantir direitos: investir em educação de qualidade, sistemas de saúde acessíveis, protecção social inclusiva e políticas económicas que não deixem para trás os mais vulneráveis. Priorizar as crianças implica proteger orçamentos sociais, mesmo em contextos de restrições financeiras.
Os parceiros de desenvolvimento e o sector privado têm um papel determinante. Num momento em que cortes na ajuda internacional ameaçam milhões de vidas, a solidariedade global e o investimento responsável tornam-se cruciais para sustentar serviços essenciais e inovar soluções.
As comunidades e a sociedade civil são igualmente essenciais, promovendo inclusão, combatendo desigualdades e garantindo que nenhuma criança é invisível.
Investir nas crianças não é apenas uma questão de direitos - é a base de qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável. Sociedades que negligenciam a infância pagam um preço elevado: menor produtividade, maior desigualdade e ciclos perpetuados de pobreza.
A boa notícia é que sabemos o que funciona. Programas de apoio às famílias, acesso à educação e saúde, e políticas económicas inclusivas têm demonstrado impacto real - pois transformam trajectórias de vida e a quebram ciclos intergeracionais de pobreza.
Num mundo em mudança acelerada, onde crises se acumulam e recursos se tornam mais disputados, a verdadeira medida da nossa humanidade - e da nossa visão de futuro - será a forma como tratamos as nossas crianças.
Colocar as crianças no centro não pode esperar. Porque quando protegemos uma criança, protegemos o presente e o futuro de todos nós. n

*Chefe da Secção de Saúde e Representante Adjunto do UNICEF em Angola