Angola não é apenas um país jovem. Angola é, profundamente, um país de jovens.
E esta realidade impõe uma pergunta inevitável: estamos a governar, a planear e a investir como um país jovem?
Durante demasiado tempo, a juventude foi tratada como uma promessa futura, algo a preparar, a orientar, a acompanhar. Mas os números mostram que essa abordagem já não é suficiente. A juventude deixou de ser apenas o futuro. É o presente dominante do país.
E um presente desta dimensão exige uma mudança de paradigma.
Significa, desde logo, que as políticas públicas não podem continuar a ser desenhadas de forma genérica ou abstracta. Têm de ser pensadas a partir da realidade concreta de uma população maioritariamente jovem. Isso implica prioridades claras: educação de qualidade, acesso ao primeiro emprego, formação técnico-profissional, inclusão social, saúde, cultura e desporto.
Mas implica, sobretudo, uma nova forma de olhar para o investimento público: não como despesa, mas como alavanca estratégica de estabilização e crescimento.
Porque há uma verdade simples, mas muitas vezes ignorada: quando um país jovem não cria oportunidades, cria frustração.
E quando essa frustração se acumula, transforma-se em instabilidade.
Por outro lado, quando um país consegue mobilizar a sua juventude, qualificá-la, integrá-la, dar-lhe espaço para participar, transforma um risco potencial na sua maior vantagem competitiva.
É aqui que entra uma dimensão frequentemente subvalorizada: o papel das estruturas intermédias da sociedade, especialmente aquelas que operam ao nível local, clubes desportivos, associações juvenis, projectos comunitários.
Num país com esta configuração demográfica, estas estruturas não são periféricas. São infra-estruturas sociais críticas.
O desporto, em particular, tem uma capacidade única: organiza o tempo, cria disciplina, reforça identidade, constrói comunidade e abre horizontes. Num contexto urbano exigente, pode ser a diferença entre dispersão e direcção.
Mas, apesar do seu impacto evidente, continua muitas vezes fora do centro das políticas públicas estruturantes.
Este é um erro estratégico.
Num país onde a maioria da população é jovem, o desporto, assim como a educação e a formação técnica, deve ser tratado como sector prioritário de investimento social e não como área complementar.
Isso implica escolhas. Implica concentração de recursos. Implica coerência entre discurso e prática. E implica, acima de tudo, visão.
Porque os países não se transformam apenas com boas intenções. Transformam-se quando conseguem alinhar a sua realidade demográfica com as suas políticas públicas.
Angola já tem a matéria-prima: uma juventude numerosa, resiliente, criativa e cheia de energia.
O que falta, e este é o verdadeiro desafio, é garantir que essa energia não se perca, mas se transforme em força produtiva, em inovação, em coesão social.
No fundo, a pergunta que o censo nos coloca não é técnica.
É profundamente política e estratégica: queremos apenas ter uma população jovem, ou queremos ser um país construído à medida da sua juventude?
A resposta a essa pergunta vai definir Angola nas próximas décadas.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga

