Celebrávamos África com uma tertúlia animada pelo jornalista Adebayo Vunge, um bom amigo da casa, que nos conduziu, de forma magistral, por um périplo pela gloriosa e sofrida trajectória do nosso continente.
Foi uma viagem ao encontro da ancestralidade: dos nossos mais remotos antepassados ao Egipto dos faraós, cuja dimensão africana tanto defendeu Cheikh Anta Diop; da exuberância do Império do Mali à grandeza do Reino do Congo; dos séculos tenebrosos de escravização e do colonialismo ao resplendor das independências nacionais.
E, finalmente, aos nossos dias, em que, apesar de tantas contradições, a esperança num porvir melhor permanece viva.
Os olhos das nossas crianças, meninas e rapazes do Cazenga, brilhavam com o prazer da descoberta. «Como é tão bom estudar!», ouvi-lhes dizer nos dias seguintes. Poucas frases terão traduzido tão bem o significado daquele encontro.
Foi também por experiências como esta que fortalecemos, no nosso Formigueiro, a convicção de que educação e desporto não apenas andam de mãos dadas: são verdadeiros gémeos siameses.
Não basta ensinar uma criança a driblar uma bola ou a lançar ao cesto. É igualmente necessário despertar-lhe o gosto pela leitura, estimular a curiosidade, ensinar-lhe a pensar e a interrogar o mundo.
O desporto cultiva disciplina, solidariedade, respeito pelas regras e espírito de equipa; a escola oferece instrumentos para compreender a realidade e nela intervir. São duas dimensões da mesma formação humana.
Num município como o Cazenga, onde tantas famílias enfrentam dificuldades quotidianas, a qualidade da educação deveria preocupar-nos a todos. Não basta multiplicar escolas: é preciso garantir que nelas se aprende.
E esta responsabilidade não cabe apenas ao Estado e às famílias. Cabe também às empresas, às associações e aos clubes desportivos.
É esta filosofia que procuramos praticar nos Formigas do Cazenga. Com o apoio de parceiros, entre os quais a TotalEnergies, a elephant bet e instituições ligadas à cooperação francesa, criámos uma biblioteca popular que hoje ultrapassa os quatro mil livros. Desenvolvemos também espaços de formação e apoio escolar, com especial atenção às ciências exactas, às línguas estrangeiras e às competências tecnológicas. Queremos um clube onde a bola conviva naturalmente com o livro.
Não pretendemos substituir a escola, mas ajudá-la a cumprir melhor a sua missão. A nossa ambição é formar bons atletas e, sobretudo, cidadãos esclarecidos e preparados para a vida.
É por isso que acompanho com particular interesse a Rede Eiffel, experiência de cooperação educativa franco-angolana iniciada em 2008, que aposta no ensino público, gratuito e de qualidade, com atenção às ciências e às línguas.
A sua expansão para novas províncias mostra como a cooperação internacional pode produzir resultados concretos. No ano em que Angola e França assinalam cinquenta anos de relações diplomáticas, que melhor homenagem à amizade entre os dois povos do que investir no futuro das suas crianças?
E porque sonhar não é proibido, deixo um desafio: por que não aproximar uma escola pública do Cazenga, a Rede Eiffel e o nosso Clube Escola Desportiva, criando novas oportunidades de formação científica e linguística para os nossos jovens?
Uma medalha perde o brilho, um troféu pode ficar esquecido numa prateleira e qualquer carreira desportiva conhece o seu fim. O conhecimento, esse, acompanha-nos pela vida fora.
Se uma criança pode sonhar em ser uma estrela do basquetebol angolano, por que não poderá sonhar, ao mesmo tempo, em ser médica, engenheira, cientista ou professora?
Porque o desporto forma campeões, mas a educação forma cidadãos. Angola precisa de ambos.
*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga