Para evitar repetir o erro do ano passado, quando o prémio foi atribuído a Corina Machado, da oposição venezuelana, que transformou o reconhecimento numa palhaçada, o Comité homenageia os esforços pela Palestina, recuperando, desta vez, o prestígio do galardão.
A atribuição do Nobel da Paz a Navi Pillay, que segundo o Comité "desempenhou um papel fundamental para garantir que os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade e o genocídio são processados", mostra concordância com as denúncias feitas pela laureada no relatório da comissão da ONU que liderou.
O relatório de Setembro de 2025 da comissão das Nações Unidas, que investigou as violações de direitos humanos em Israel e nos territórios palestinianos, detalha os actos genocidas praticados pelo regime de Telavive em Gaza.
Ao explicar as conclusões do documento, Navi Pillay assegura que, após análise dos factos e dos actos, "é muito claro que um genocídio foi cometido pelas forças israelitas no papel de agentes do Estado israelita".
Por conseguinte, a jurista sul-africana, que sempre se bateu pelos direitos humanos e pela autodeterminação dos povos, denuncia a "cumplicidade" da comunidade internacional nestes crimes contra a humanidade, praticados pelo regime do criminoso de guerra Benjamin Netanyahu.
Navi Pillay sublinha que "ficar em silêncio não é neutralidade", mas, sim, cumplicidade", recordando, ao mesmo tempo, que "é obrigação dos Estados-membros da ONU prevenir e punir o genocídio".
Segundo o Comité Nobel Norueguês, o prémio reconhece os "esforços na promoção da paz e do direito internacional" de Navi Pillay, antiga juíza do Tribunal Internacional para o Rwanda, que julgou o genocídio de 1984, o qual resultou na morte de pelo menos um milhão de rwandeses, sobretudo tutsi.
Com este reconhecimento, o Comité pretende mostrar que "um sistema jurídico internacional em que os criminosos de guerra sejam responsabilizados e as vítimas de abusos vejam a justiça ser feita é uma condição essencial para um mundo pacífico".
Deste modo, o prémio demonstra que a paz mundial está intrinsecamente ligada à pacificação de Gaza, ou seja, à conquista de liberdade, dignidade e autodeterminação do Povo palestiniano, oprimido por um regime de apartheid imposto pelo sionismo.
Ao reagir ao Comité norueguês, que enaltece as suas qualidades de pessoa de "coragem e integridade excepcionais", e "firme compasso moral", Navi Pillay questionou: "Porque é necessária coragem para dizer a verdade?"
Pillay, que foi alta-comissária dos Direitos Humanos das Nações Unidas entre 2008 e 2014, recebe o prémio quando, na qualidade de juíza do Tribunal Internacional de Justiça, tem em mãos outro processo de acusação de genocídio: uma queixa da Gâmbia contra Myanmar.
Apoiada por 57 membros da Organização de Cooperação Islâmica, Banjul apresentou a queixa pela primeira vez no TIJ em 2019, argumentando que a "operação de limpeza" protagonizada pelos militares de Myanmar contra a minoria muçulmana rohingya em 2017 violou a Convenção de Genocídio de 1948.
O Nobel da Paz 2026 vem, igualmente, reforçar a posição da África do Sul, que em Dezembro de 2023 apresentou uma queixa ao TIJ, acusando Israel de genocídio contra os palestinianos por impor deliberadamente condições de vida com o objectivo de provocar a sua destruição física como grupo.
A queixa, muito bem documentada e argumentada pela justiça e diplomacia sul-africanas, enumera os actos de extermínio israelita que atinge bebés, incluindo recém-nascidos, e infra-estruturas, bem como a privação de água e alimentos aos palestinianos.
Satisfeito com o prémio, que representa um estímulo ao coerente posicionamento de Pretória, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, considera que o Nobel de Navi Pillay "permite-nos celebrar as suas contribuições para o reforço da paz, a defesa da dignidade humana e a esperança que trouxe à África do Sul e aos povos de todo o mundo". O Presidente destacou, igualmente, a sua "coragem, integridade e compromisso de toda uma vida com a justiça".
Nascida em Durban, na África do Sul, há 85 anos, Navanethem "Navi" Pillay iniciou a sua longa carreira ligada ao direito internacional e em prol dos direitos humanos ainda no regime do apartheid, defendendo activistas dos direitos humanos e presos políticos, bem como expondo a tortura e as más condições impostas aos prisioneiros, entre os quais Nelson Mandela.
Em 1967, no auge do apartheid, Pillay, de origem indiana e paquistanesa, torna-se na primeira mulher não-branca a abrir um escritório de advocacia na África do Sul, mais concretamente na cidade do Natal.
Com o Nobel da Paz, Navi Pillay vê a sua luta por justiça social e igualdade, reconhecida pelo Comité, que lembra ao mundo que "a paz requer justiça", sobretudo "num momento de desafios existenciais, incluindo mais guerras e conflitos do que o mundo viu em muito tempo, em que o direito internacional não é apenas um suplemento para a paz e segurança", mas "uma necessidade absoluta".
De forma simbólica, o Nobel de Navi Pillay também presta homenagem a Francesca Albanese, jurista italiana e relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados, que cedo denunciou as acções genocidas de Israel, tendo sido, por isso, ostracizada pelo Ocidente, nomeadamente a União Europeia (França, Alemanha, Checa e Áustria), bem como por António Guterres, secretário-geral da ONU.
O prémio representa também um apoio aos movimentos sociais e políticos de todo o mundo que têm ocupado as ruas para protestarem contra o genocídio, reivindicar a liberdade e defender o Estado palestiniano.
É uma homenagem particular aos mais de 74 mil palestinianos assassinados pelos genocidas e aos jornalistas locais que, arriscando as suas vidas, continuam a mostrar ao mundo o que se passa na sua terra e a denunciar o "gazacídio", nas palavras do jornalista palestiniano Rami Abou Jamous.
É precisamente o que tem vindo a fazer o Sindicato dos Jornalistas Palestinianos, que já contabilizou pelo menos 265 jornalistas assassinados e mais de 500 feridos pelos genocidas.
Assassinatos que fazem do jornalismo palestiniano um "acto de sobrevivência e de resistência", afirma Rami Abou Jamous, Prémio Norte-Sul 2026 do Conselho da Europa.
Este Nobel da Paz serve, igualmente, para demonstrar ao mundo, em particular aos apoiantes abertos ou encobertos de Israel, que ficar em cima do muro, tal como o silêncio, "não é neutralidade", mas, sim, "cumplicidade", como diz Navi Pillay.
Mostra ainda que o estreitamento de relações políticas e económicas com Israel, como acontece com Angola, deve ser denunciado, seguindo o exemplo do jornalista angolano Mário Paiva nas redes sociais.
No caso de Angola, escreve Mário Paiva, "revela a completa decadência e ausência de valores e princípios a que chegou o MPLA". Lamenta que, em vez de se pronunciar, criticar e distanciar-se do regime sionista e genocida, Luanda tenha abraçado Jerusalém.
Com mais de 40 anos de experiência no jornalismo, Mário Paiva é muito contundente ao denunciar que Angola está a ajudar Israel a promover "operações mediáticas de charme para dourar a pílula de um regime que comete crimes contra a Humanidade".

Corroborando Paiva e Paul Daley, colunista australiano do Guardian que sobre os EUA escreveu: "A estreita aliança com um país que agora quer transformar a execução de um ser humano - independentemente de seus crimes - em espectáculo ao vivo promete redefinir a depravação", um activista panafricanista em Londres defende que "o mesmo se aplica às alianças com o regime genocida de Israel".