Da pouca informação que vazou para o espaço público, soube-se apenas que participaram no referido encontro "representantes de várias províncias, jovens e organizações da sociedade civil, líderes religiosos, autoridades tradicionais e profissionais da comunicação social", mas não revelados os nomes de tais instituições.
Os moldes em que o encontro foi organizado e a ausência notória de organizações de "peso" da sociedade civil que actuam no espaço público levantaram questionamentos sobre a natureza desse conclave e os objectivos que o mesmo visava atingir.
Causou surpresa, senão mesmo estranheza o facto de o encontro de ter sido promovido pelo MONAAR, uma organização praticamente desconhecida do grande público, que emergiu do anonimato em Abril de 2004, quando organizou, num dos hotéis de luxo de Luanda, um encontro de dezenas de angolanos que residem na diáspora, sobretudo em países da Europa e África.
Na altura, chamou a atenção o facto de essa organização, sem "histórico" na realização de grandes eventos ou de intervenções notáveis no espaço público, ter promovido um encontro que implicava a mobilização de grandes recursos financeiros e logísticos. Questionou-se quem estaria por detrás da iniciativa.
As respostas não tardaram a surgir, e as dúvidas foram dissipadas depois do nome de Norberto Garcia, à época director do Gabinete de Análises e Estudos Estratégicos da Presidência da República, ter sido associado ao evento.
Num discurso prenhe de retórica e exaltação de amor à Pátria, o jurista pediu para que eles regressassem ao País ou, no mínimo, se envolvessem em projectos de desenvolvimento económico e social.
Revelou que um dos objectivos do evento era fazer que os representantes das diásporas em distintas partes do mundo constatassem no terreno o que ele considerou os avanços que Angola registou, mas que, em sua opinião, a imprensa estrangeira não informava ou ocultava acintosamente.
Numa surpreendente revelação, anunciou que Angola tinha 133 milhões de kwanzas disponíveis para apoiar os angolanos que quisessem regressar ao País, mas que esse valor estava "cativo em bancos devido à burocracia".
Durante os dias em que estiveram no País, aos nossos compatriotas foram dados a ver os empreendimentos de betão, mas Norberto Garcia e o "seu" MONAAR não lhes mostraram a "outra" Angola, a Angola dos musseques, onde milhões de angolanos vegetam nas sarjetas da pobreza extrema, vivem com menos de dois dólares/dia e morrem de doenças curavéis.
No encontro realizado na semana passada, soou a hipocrisia o discurso do governador de Benguela, Manuel Nunes Júnior (MNJ), que, na cerimónia de abertura do conclave, disse que "uma sociedade só alcança um verdadeiro desenvolvimento quando aprende a conviver com cidadãos que pensam de forma diferente".
Segundo o governador, que acumula estas funções com as de primeiro-secretário do MPLA em Benguela, "as ideias contrárias não devem ser vistas como ameaças, mas como oportunidade para identificar falhas, corrigir erros e promover a inovação".
Aparentemente dialogante, MNJ disse que "quando um cidadão manifesta uma preocupação, um jovem protesta de forma cívica ou um intelectual aponta uma falha nas políticas públicas, está a contribuir para que as instituições identifiquem os aspectos que precisam de ser corrigidos. A contestação construtiva é o oxigénio indispensável da democracia".
Numa de piscar à esquerda, mas inflectir à direita, MNJ foi mais longe ao afirmar que "todos devem sentir que têm voz e que as suas ideias e sugestões são tidas em conta na gestão diária da província [de Benguela]".
Entre o discurso oficial e a realidade no terreno, vai uma distância, longa, visto que MNJ, à semelhança dos demais homólogos, não tem a cultura de "ouvir o outro".
Se os promotores do evento tivessem a cultura do diálogo e de aceitação do "outro", não teriam excluído do encontro as organizações com bastante intervenção no espaço público, como OMUNGA, MUDEI, AJDP, ADRA, Friends Of Angola, Kutakesa e outras que se têm destacado na defesa das causas sociais, dos estratos sociais mais vulneráveis da população e dos direitos humanos. Elas não foram convidadas ou, como se diz numa linguagem terra a terra e com alguma dose de ironia à mistura, foram "coadas com sucesso".
Desde a sua ascensão ao poder, há quase dois anos, não se tem notícia de que o governador de Benguela se tenha, alguma vez, sentado à mesma mesa com os responsáveis dos partidos na oposição, sobretudo da UNITA, dos representantes da sociedade civil, dos sindicalistas ou dos jornalistas que pensam fora das "agendas governativas" para deles colher opiniões que contribuam para melhor governar a "Califórnia de Angola".
As palavras de MNJ caem por terra, visto que, na província por ele governada, têm sido recorrentes os actos de repressão às manifestações de protesto, mesmo quando são organizadas de forma pacífica.
Se promovesse o diálogo e escancarasse as portas da sua governação às vozes críticas, o governador de Benguela teria evitado que centenas de jovens tivessem saído à rua em Maio passado para exigir respostas sobre a deficiente falta de assistência aos sinistrados do transbordo do rio Cavaco. Teria dessa forma evitado que a Polícia carregasse sobre os manifestantes, com todas as consequências negativas daí resultantes.
Se o Governo de Benguela estivesse aberto às opiniões contrárias, teria incentivado as reuniões regulares do chamado Conselho de Concertação Social, para auscultar as opiniões dos diferentes actores da vida política e social, de forma a encontrar soluções consensuais.
Não passou despercebido aos observadores mais atentos o facto de essa reunião ter decorrido escassos dias depois de algumas organizações da sociedade civil angolana terem manifestado a sua preocupação com a implementação do Instituto de Supervisão das Actividades Comunitárias (ISAC), uma espécie de "polícia do Governo", que será usada para "controlar" o pensamento dos que pensam diferente e investida de poderes discricionários para suspender as actividades das mesmas.
Num posicionamento conjunto, a Associação Luterana para o Desenvolvimento de Angola (ALDA), a Friends of Angola, a Plataforma Mulheres em Acção e a Rede Terra advertiram que a supervisão legítima das organizações não deve transformar-se num mecanismo de controlo político, vigilância institucional ou restrição das liberdades fundamentais.

No fundo, o encontro de Benguela visou passar a ideia de que o Executivo apenas tolera as organizações da sociedade civil de pensamento "orientado e disciplinado".