Ao longo das décadas, a personagem ultrapassou o universo infantil e entrou no vocabulário político contemporâneo para descrever aquilo que passou a ser conhecido como o "complexo de Calimero", isto é, a tendência de atribuir sistematicamente os próprios fracassos a factores externos, à acção dos outros ou à "herança recebida". Na política económica, a metáfora é particularmente útil. Vários governos transformam choques externos em explicação permanente para insuficiências internas. Quando toda a responsabilidade vem sempre de fora, a capacidade de transformação acaba também por nunca nascer dentro. No caso de Angola, a metáfora tornou-se desconfortavelmente apropriada.
Ora vejamos,
O último Relatório da Missão do Artigo IV do Fundo Monetário Internacional mostra uma economia relativamente mais estável do ponto de vista macroeconómico, mas ainda distante de uma verdadeira transformação estrutural. O crescimento económico em 2025 situou-se em 3,1%, a inflação desacelerou para 12,4% em Março de 2026 e as reservas internacionais permaneceram relativamente estáveis em cerca de 7,4 meses de cobertura das importações. Contudo, o próprio FMI sublinha que o panorama de médio prazo permanece subdued, isto é, limitado e pouco dinâmico, devido à redução estrutural das receitas petrolíferas e à dependência do sucesso dos esforços de diversificação económica.
O mais revelador é que, quando se compara este diagnóstico com o relatório do FMI de 2018, percebe-se algo profundamente significativo: os desafios estruturais permanecem praticamente os mesmos. Em 2018, o Fundo apontava exactamente para a necessidade de diversificação económica, fortalecimento do sector privado, melhoria do ambiente de negócios, flexibilização cambial, redução da dependência petrolífera e reforço institucional. Ora, transcorridos oito anos de governação do Executivo do Presidente João Lourenço, o FMI continua essencialmente preocupado com os mesmos riscos estruturais.
Isto não significa que nada tenha melhorado. Houve avanços importantes. A inflação já não se encontra nos níveis explosivos de 2016-2018, o mercado cambial tornou-se menos distorcido e a disciplina orçamental melhorou relativamente. E seria intelectualmente desonesto ignorar alguns progressos institucionais, mesmo que, por vezes, mais visíveis no plano discursivo do que nos resultados económicos. No entanto, estabilidade macroeconómica, por si só, não é sinónimo de transformação económica. Na verdade, existe um erro técnico recorrente nos discursos triunfalistas sobre agricultura, indústria transformadora e crescimento não-petrolífero. O simples crescimento do PIB não-petrolífero não constitui, automaticamente, prova de transformação estrutural. Uma economia apenas se transforma quando os sectores produtivos conseguem alterar de forma duradoura a estrutura de acumulação, produtividade e distribuição de rendimentos.
É precisamente aqui que a narrativa oficial começa a perder consistência técnica. Segundo estimativas do Banco Mundial, cerca de 33% da população vivia em situação de pobreza em 2024, enquanto as projecções sugerem que a pobreza extrema poderá permanecer próxima de 42,5% até 2026, apesar da recuperação parcial da actividade económica. Mais revelador ainda é o facto de o crescimento económico continuar insuficiente para produzir melhoria social robusta. O FMI projecta crescimento real do PIB de apenas 2,3% em 2026, enquanto o crescimento demográfico permanece acima de 3,1% ao ano. Em termos práticos, isto significa que o rendimento per capita continua em queda, mesmo em períodos de crescimento positivo do PIB. Em linguagem menos diplomática: a economia cresce, mas demasiado devagar para que uma parte significativa da população sinta melhoria efectiva no seu nível de vida.
O PIB per capita situava-se em cerca de USD 2.665 em 2025, um indicador particularmente desconfortável quando comparado com o potencial de recursos naturais do país. Em teoria, Angola é um país rico. Porém, na estatística social continua perigosamente próxima de uma nação pobre. Aliás, parte do problema do relato económico oficial reside precisamente na crescente distância entre a narrativa política e a evidência empírica. Em 2025, o Ministro de Estado para a Coordenação Económica afirmou que o OGE 2026 seria o primeiro orçamento da história recente de Angola em que as receitas não-petrolíferas ultrapassariam as petrolíferas. A afirmação tinha evidente valor simbólico. O inconveniente dessa narrativa é que a execução orçamental do I Trimestre de 2026 já começou a desmentir parcialmente esse optimismo. Pasme-se!
Segundo o Relatório de Execução do OGE do I Trimestre de 2026, as receitas petrolíferas arrecadadas atingiram cerca de 1,87 biliões de kwanzas, continuando a representar a principal componente individual das receitas correntes do Estado. Em Maio do presente ano, o mesmo responsável afirmou igualmente que "o grande motor da economia angolana deixou de ser o petróleo e passou a ser a agricultura". A frase possui evidente apelo político. Contudo, do ponto de vista macroeconómico, aproxima-se mais de wishful thinking do que de uma avaliação rigorosa da estrutura produtiva nacional.
Uma economia não muda de motor apenas porque determinado sector cresce relativamente mais depressa durante um certo período. O verdadeiro "motor" mede-se pela capacidade efectiva de gerar capital, exportações líquidas, receitas fiscais, emprego formal e divisas. E, nesse domínio, as próprias contas públicas continuam a demonstrar que o petróleo permanece no centro gravitacional da nossa economia. Talvez o mais prudente fosse dizer que Angola deseja que a agricultura se torne no novo motor económico. O que é perfeitamente legítimo. A dificuldade começa quando desejo político passa a ser apresentado como facto macroeconómico consumado. Em economia, antecipar a realidade pode ser útil. Porém, substituí-la é consideravelmente mais difícil.
A situação torna-se ainda mais evidente quando observamos o posicionamento relativo de Angola em África. Em 2018, o próprio FMI descrevia Angola como a terceira maior economia da África Subsaariana. Hoje, Angola continua entre as maiores economias do continente, mas a vantagem relativa que mantinha face a várias economias africanas diminuiu significativamente. Enquanto vários países diversificaram as suas bases produtivas, expandiram a indústria transformadora e aumentaram a competitividade exportadora, Angola permaneceu excessivamente suportada pelo petróleo, cuja volatilidade proporciona apenas alívios conjunturais. A questão central permanece, portanto, a mesma: estamos perante um extraordinário dinamismo dos outros ou perante uma preocupante lentidão do nosso próprio crescimento? A resposta, provavelmente, combina ambos os factores.
De facto, países como Marrocos, Quénia ou Costa do Marfim aceleraram processos de integração industrial, modernização logística e aumento da capacidade exportadora. Enquanto isso, Angola permaneceu vulnerável à escassez cambial e com reduzida capacidade de transformação produtiva interna. O mais preocupante não é apenas a erosão da vantagem relativa angolana. É constatar que economias com significativamente menos recursos naturais conseguiram crescer mais rapidamente, diversificar melhor e aumentar competitividade industrial.
Há aqui uma ironia económica quase cruel. Angola possui petróleo, gás, água, terras aráveis, minerais estratégicos e posição geográfica privilegiada. No entanto, continua frequentemente a comportar-se como uma economia estruturalmente escassa. Não por ausência de recursos, mas por insuficiência persistente de capacidade técnica, coordenação estratégica e qualidade de execução. E talvez seja precisamente aqui que a metáfora de Calimero regressa com maior força. Tal como o pequeno pintainho italiano, parte significativa do discurso económico nacional continua excessivamente concentrada na explicação das injustiças externas: o preço do petróleo, os choques internacionais, a dívida herdada, a conjuntura global ou a desaceleração dos parceiros económicos. Tudo isso existe. Tudo isso influencia. No entanto, nenhuma economia se transforma estruturalmente vivendo permanentemente sob a psicologia da vitimização económica.
No longo prazo, nenhuma economia se torna relevante apenas com equilíbrio orçamental. Uma economia torna-se relevante quando produz, exporta, industrializa e aumenta produtividade. Por vezes, os discursos oficiais parecem confundir desaceleração do colapso com desenvolvimento estrutural. A tabela das principais economias africanas deixa, assim, uma pergunta incómoda: os outros correram muito ou fomos nós que andámos demasiado devagar? Porque, enquanto várias economias africanas começaram finalmente a retirar a casca do ovo da cabeça e a competir agressivamente pela industrialização e produtividade, Angola parece continuar demasiadas vezes satisfeita em explicar por que razão ainda não conseguiu sair do mesmo lugar - eis o verdadeiro problema do "complexo de Calimero" na nossa política económica.
Em vez de aperfeiçoarmos a narrativa da justificação permanente, deveríamos estar concentrados em criar as condições para produzir, exportar, investir e prosperar. Como dizia Peter Drucker: "Nada é tão inútil quanto fazer com eficiência aquilo que não deveria ser feito". Porque, no fim, administrar competentemente a estagnação não a transforma em desenvolvimento - apenas a torna mais confortável, mais sofisticada e politicamente mais apresentável.

*Professor Auxiliar e Investigador ISG Business and Economic School