O jajão é a moeda mais circulante do país, mais inflacionada que o próprio kwanza. Não tem lastro, não tem câmbio, mas todos aceitam. A sua unidade de tempo, o "amanhã", é a mais elástica do mundo e pode durar um dia, um ano ou um mandato inteiro. Há o jajão simples (amanhã resolvo), o jajão composto (vou ver isso e depois te ligo) e o jajão institucional, o mais sofisticado de todos: "o assunto está em análise superior".

Ninguém sabe onde fica a análise superior. Desconfio que seja no mesmo sítio onde se guardam os amanhãs.

O problema é que o jajão saiu da rua e mudou-se para casa. Literalmente. Numa certa urbanização cujo nome promete paz, consta que a maioria dos moradores não paga a prestação dos apartamentos. E não são os pobres coitados que vivem no limite. São gente com cargos, com títulos, com motorista. Gente que discursa sobre civismo e aparece na televisão a falar de compromisso e de futuro. Mas quando chega a factura, o futuro fica para amanhã. E já sabemos quanto dura o amanhã.

Depois há as mensalidades do condomínio. Aquele valor pequeno, quase simbólico, que serve para pagar a limpeza, a segurança, a manutenção do elevador, a luz das escadas. Pagam poucos. Os restantes praticam com rigor científico a tragédia dos comuns: se eu não pagar, os outros pagam. Até que ninguém paga e todos sobem os onze andares a pé, a reflectir sobre a falta de civismo dos vizinhos.

E é aqui que a coisa se torna grave. Porque o jajão não é só uma expressão. É uma escola. E as crianças estão a aprender. Vêem o pai prometer e não cumprir. Vêem a mãe assinar o papel e rasgar o compromisso. Vêem a família exigir direitos sem assumir deveres. E aprendem. Aprendem que a palavra é um brinquedo, que o compromisso é uma formalidade, que o certo e o errado são conceitos flexíveis, ajustáveis à conveniência do momento. E, ao crescerem, criam condições para que os fantasmas tenham acesso aos benefícios.

Os telhados de vidro estão partidos há muito tempo, e as pedras continuam a voar. Pelos vistos, a vergonha também está em análise superior. Já não há pudor, já não há vergonha na cara, já não há aquele mínimo de decência que fazia um homem cumprir a palavra dada. Hoje, o incumprimento é normal. O calote é estratégia. O jajão é estilo de vida. E a sociedade, essa, assiste, incrédula e anestesiada, sem saber já distinguir quem tem razão de quem tem cara de pau.

No fundo, o problema não é o prédio, nem a prestação, nem a quota. É termos esquecido que a palavra é um contrato. Um país não se constrói com jajões. Constrói-se com gente que cumpre, mesmo quando ninguém está a ver, mesmo quando ninguém cobra, mesmo quando é mais fácil não pagar.
Porque o jajão começa em casa. Depois sai para a rua, entra no escritório e sobe ao gabinete. E, a certa altura, há quem faça da casa o seu partido e do partido a sua casa. Aí já não é jajão. É o país inteiro a pagar a factura de quem nunca aprendeu a honrar a palavra.