Portanto, é tempo de semear. Semear compromissos reais, semear planos exequíveis e promessas com menos pirotecnia e mais substância, plantar a semente certa no solo adequado com a regra apropriada. Parar de regar cactos à espera de colher rosas. Em Angola, porém, a metáfora agrícola tem outro sabor, aqui, plantar não é só verbo de Janeiro, é questão de sobrevivência. É a música da diversificação da economia e da auto-suficiência alimentar.
O povo que se dedica à agricultura, sábio, repete o provérbio como um mantra "Quem planta, colhe". Se for plantado milho, milho será colhido. Mas, nos corredores do poder, às vezes são semeadas promessas e esperam colher-se milagres. Não basta plantar, é preciso saber o que se está a plantar e onde se está a plantar. O problema não é apenas a semente que se usa, mas também o terreno onde é plantada a semente. Plantamos sempre com esperança.
Talvez este ano possamos plantar diferente. Escolher bem as sementes, usando as que dão trigo e não joio. Regar com honestidade, adubar com transparência e colher com as mãos limpas. É importante reconhecer que até a lavra mais bem cuidada enfrenta intempéries: a chuva que atrasa, o tractor que avaria, o combustível que é desviado, a estrada que não existe, o crédito que nunca chega. Uma colheita madura não é só a que evitamos que apodreça, é a que sobrevive aos desafios que, por vezes, regam o nosso campo com gasóleo em vez de água.
E aqui entramos no terreno movediço das metáforas. Porque há verdes e verdes. Há o verde ingénuo da esperança e o verde eterno do discurso reciclado. Há o verde tenro da semente que germina e há o verde perene da folha que nunca dá fruto. Há países que plantaram modelos económicos com sementes de ideologia pura, e anos depois colheram... digamos, frutos de consistência duvidosa. Há países que ensinaram ao mundo que é possível plantar petróleo e colher filas para obter os produtos da cesta básica. Plantar discursos e colher silêncios.
Em Angola, o que vamos plantar em 2026 para colher em 2027? Porque a natureza não engana. Se plantares vento, colherás tempestade. Se plantares areia, colherás poeira.
Sorriso crónico: Resoluções verdes, colheitas maduras
É comum que o Ano Novo sirva de desculpa para promessas revolucionárias, para tomar novas decisões e propor resoluções impactantes na vida de cada um. Todos o fazemos. As resoluções não são desejos, são compromissos. E compromissos exigem que deixemos de fingir que sementes velhas dão frutos novos.

