A "MOAB", cujo acrónimo em inglês significa "mother of all bombs" e em português "mãe de todas as bombas", a mais explosiva do arsenal não-nuclear, raramente sai do arsenal norte-americano, mas quando acontece torna-se uma "estrela" mediática, como sucedeu no Afeganistão, em 2017, a primeira e última vez que entrou em cena.
A GBU-43/B, a maior bomba guiada dos EUA, com um peso total próximo das 10 toneladas, sendo perto de 9 de carga explosiva e foi usada como "arma secreta" em 2017 contra um aquartelamento do `estado islâmico' no Afeganistão, sem grande sucesso.
No entanto, como notam analistas militares como Douglas MacGregor, antigo coronel e conselheiro da primeira Administração Trump, entre 2017 e 2021, esta munição não pode alterar o rumo do conflito no Irão, mas pode dar ao Presidente dos EUA uma cobertura mediática no quadro das eleições intercalares de Novembro para os problemas sérios da economia norte-americana.
Até porque, como parece ser a opinião da esmagadora maioria dos analistas, a questão agora é saber se a ordem de atacar de novo o Irão de Donald Trump vai ser antes ou depois das eleições intercalares de 03 de Novembro, ou mesmo das eleições legislativas em Israel a 27 de Outubro, onde o seu "amigo" e primeiro-ministro Benjamim Netanyhau, tal como ele, pode ser varrido do poder com uma derrota eleitoral histórica.
Nesse "guião", que está constantemente a ser alterado pelo "guionista", Donald Trump não afasta totalmente a possibilidade de uma invasão terrestre do Irão, nega o uso de armas nucleares para vergar o "regime" de Teerão, embora não esconda a vontade de recorrer ao seu arsenal de armas invulgares pelo seu poder de destruição, nem que seja no campo mediático.
Porque se a MOAB tem um poder explosivo gigantesco, com as suas nove toneladas de explosivos de alta densidade, o seu efeito sobre as estruturas subterrâneas do Irão, especialmente os seus locais de enriquecimento de urânio, situados a centenas de metros abaixo do solo, está por provar.
É que quando foi utilizada, pela primeira e única vez oficialmente, em 2017, no Afeganistão, o seu maior sucesso foi "explodir" nos ecrãs das televisões em todo o mundo, porque, depois ficou claro que o seu efeito sobre a capacidade combativa do `estado islâmico' foi pouco além de nulo.
E agora os norte-americanos procuram de novo esse elemento surpresa, seja pelo impacto mediático, como já é possível observar nas grandes cadeias de televisão mundiais, seja pelo desconhecimento que existe quanto à sua capacidade efectiva de provocar danos de monta nas instalações nucleares iranianas.
Os mais conhecidos, e que em tempos, quando os EUA e o Irão, na Administração de Barack Obama, em 2015, assinaram um acordo sobre o programa nuclear iraniano - do qual Trump saiu unilateralmente sem justificação razoável, em 2017 -, eram vigiados pela ONU, são Fordow, Natanz e Isfahan, os mesmos que já foram atacados em Junho do ano passado pelos mais pesados e sofisticados bombardeiros B-1 dos EUA, com bombas penetradoras igualmente gigantes.
Na altura, Donald Trump repetiu exaustivamente que tinha "obliterado totalmente" o programa nuclear iraniano, mas depois regressou à posição de que mantinha este conflito para "evitar que o Irão obtenha armas nucleares", dando azo a dúvidas sérias sobre o actual estado dos principais sítios do programa nuclear iraniano, desde sempre apresentado por Teerão como sendo de "exclusiva natureza civil".
Além disso, tal como o programa nuclear iraniano estava "controlado" pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), das Nações Unidas, até 2017, o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Índico, estava aberto e sem quaisquer restrições antes deste conflito ter sido iniciado, a 28 de Fevereiro, pela coligação israelo-americana, sem qualquer justificação plausível conhecida.
E é em Ormuz que reside o maior problema eleitoral de Donald Trump e do seu Partido Republicano, que, para já, e de acordo com todas as sondagens, vai perder com estrondo as eleições de Novembro, e nelas a maioria no Congresso, incluindo no Senado, o que não sucede em intercalares para o partido no poder em décadas.
Isso, porque, como as sondagens demonstram, 70% dos eleitores norte-americanos estão contra Donald Trump, cuja popularidade bate o recorde histórico do anterior Presidente Joe Biden, e apontam como principal razão para isso, e para votarem na oposição Democrata, o preço historicamente recorde dos combustíveis.
Com o galão (3,78 litros) a custar nalguns estados acima de 8 USD, quando o preço normal seria entre 3 e 4, o que é resultado directo da guerra com o Irão, porque por Ormuz passa, normalmente, 20% do crude e do gás globais.
Mas também porque as refinarias da região do Golfo Pérsico, entre as maiores do mundo, como as da ARAMCO saudita, são alvos preferenciais das várias frentes, incluindo, além dos ataques do Irão, a frente do Iémen, onde a Arábia Saudita está em guerra aberta com a Ansar Allah (ver links em baixo), ou também na Ucrânia, onde acontece o mesmo, o que está a gerar uma escassez global de combustíveis, especialmente gasóleo.
Com este cenário de crise severa, e com perspectivas de piorar dia para dia, Donald Trump está em vias de sofrer uma das maiores derrotas eleitorais de sempre nos EUA, o que, como nota o prestigiado analista norte-americano John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, pode levá-lo a tomar decisões catastróficas, como avançar para o Irão antes das intercalares de 03 de Outubro, ou mesmo das eleições em Israel a 27 deste mês.
Para dar corpo a este cenário, os EUA deslocaram para a região três esquadras de porta-aviões, a maior concentração de poder naval desde a invasão do Iraque, em 2003, além de que nestes últimas dias, centenas de aviões pesados, de carga e cisterna, para reabastecimento em voo dos caças F-35 ou F-18, que deverão servir para atacar o Irão a partir de Israel.
E de Israel porque as restantes bases americanas na região foram total ou parcialmente destruídas no decurso das várias fases desta guerra, sendo a mais intensa nas semanas subsequentes a 28 de Fevereiro, quando EUA e Israel iniciaram este conflito sem que até agora se perceba as razões.
E assim é porque Washington abandonou da sua retórica de guerra os três objectivos iniciais, que eram decapitar o regime iraniano, eliminar os sistemas de misseis balísticos e cortar as relações de Teerão com os seus aliados regionais, desde logo no Iémen, a Ansar Allah (Houthis), no Líbano, o Hezbollah, e as poderosas milícias xiitas no Iraque.
Com nenhum destes objectivos conseguidos, Israel saiu de cena, deixando os norte-americanos com o "conflito" nas mãos, para o qual Donald Trump encontrou novos objectivos: eliminar a capacidade do Irão de ter uma arma nuclear e abrir o Estreito de Ormuz.
Ora, tanto um como outro destes dois objectivos não eram um problema antes de Trump chegar à Casa Branca, o nuclear, porque Teerão e Washington tinham um acordo validado pela ONU, que permitia a vigilância apertada do programa civil nuclear iraniano, e o Estreito de Ormuz nunca esteve fechado antes de 28 de Fevereiro.
Além disso, com a Arábia Saudita a relançar a sua guerra contra os Houthis, do Iémen, que Governam o país desde 2015, estes passaram a controlar o Estreito de Bab al-Mandeb, entre o Mar Vermelho/Canal do Suez e o Oceano Índico, tão ou mais estrategicamente importante para a economia mundial que Ormuz, porque por ali passam 14% do comércio global e perto de 7% do crude consumido diariamente no Ocidente.
Com este cenário, e para destruir as escassas possibilidades de Trump sair sem uma catástrofe eleitoral em Novembro, o barril de crude Brent, em Londres, está há meses acima, em média, dos 100 USD, e o WTI, em Nova Iorque, sempre muito próximo disso, números demolidores para as economias em todo o mundo mas especialmente severos nos EUA e na Europa Ocidental.
O que deixa cada vez mais perto o cenário de guerra, até porque em Teerão as chefias da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) estão há uma semana a repetir diariamente que têm tudo preparado para responder aos iminentes ataques isarelo-americanos.
A IRGC ameaça mesmo destruir as bases militares de apoio aos EUA e toda a infra-estrutura energética dos países aliados de Washington no Golfo Pérsico e região próxima, que são a Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Emiratos Árabes Unidos, Jordânia e Israel.
Se tal cenário se tornar realidade, o mundo entrará numa espiral de crise económica e financeira que pode não ter sequer paralelo nas últimas décadas.

















