"O unanimismo é péssimo porque é uma prova indesmentível de ausência de democracia", escreveu um militante do MPLA. Quando anunciou a sua candidatura, Graciete Dombolo chamou os jornalistas e, por altura da sua renúncia, decide fazer um verdadeiro blackout, sendo o anúncio da decisão voluntária feito em comunicado do BP. No passado sábado, 17, o Comité Nacional da OMA fez a eleição das duas candidatas ao cargo de secretária-geral da OMA. Carlota Dias obteve 115 votos, Graciete Dombolo obteve 49 votos e Lurdes Caposso ficou com apenas 16 votos, as duas primeiras colocadas foram então indicadas para a disputa ao cargo máximo da organização, cabendo depois ao BP do MPLA validar o processo eleitoral da OMA em reunião ordinária, que aconteceu nesta segunda-feira. Havendo uma reunião extraordinária no dia seguinte, tudo porque a candidata Graciete Dombolo terá tomado a "decisão voluntária" de desistir do processo eleitoral, deixando o caminho livre para Carlota Dias. No final da conferência de sábado, após ter sido "cilindrada" por Carlota Dias, a candidata Graciete Dombolo dirigiu-se aos jornalistas e disse: "Estou emocionada, muito emocionada. Primeiro, pelo resultado, segundo, por estar a fazer parte deste momento único da nossa organização. É de facto um marco que vai ficar para a história da OMA. (...) Vamos continuar a trabalhar com firmeza, com dedicação e com força". Mas alguém que fala assim com tanta vontade e convicção no sábado, na segunda-feira decide renunciar? O que terá levado Graciete Dombolo a desistir? Em que moldes e em que circunstâncias fez a tal renúncia? Na conferência nacional, votaram menos de duzentas militantes, já no congresso da organização são aguardadas cerca de 2.500 militantes, portanto, muita coisa podia mudar.
Vamos ser curtos e objectivos: Carlota Dias é a candidata do MPLA e a sua escolha resulta da chamada "visão estratégica" do líder João Lourenço e Graciete Dombolo é a candidata da OMA, onde ela fez parte do secretariado nacional, que agora vai cessar funções. O Partido percebeu os sinais e soube fazer leituras, evitando males maiores, preferindo ter uma candidata única ao congresso. Muitos camaradas já perceberam que o MPLA continua a combater algo que diz querer promover: A democracia interna.
Quer-se hoje uma OMA virada para os novos desafios do País e do mundo em geral, uma instituição com um discurso apelativo, capaz de sair da sua zona de conforto e atrair um eleitorado mais jovem. Nos últimos tempos, a OMA passou a ser vista como uma instituição envelhecida e arcaica, tanto na maneira de pensar como de actuar. João Lourenço percebeu isso e entendeu que era altura de meter a mão e mudar. Nisto estou plenamente de acordo com ele. A OMA que encontrou era resultado de uma estrutura que não se renovou quando devia, que não adoptou uma estratégia de renovação geracional, optando ele por fazer uma verdadeira ruptura, avançando com Joana Tomás em detrimento de Isabel Malunga, que era a sucessora natural de Luzia Inglês "Inga". Só que Joana Tomás revelou-se como um erro de casting e a situação na OMA não melhorou. Com ela, a OMA perdeu poder, força, prestígio e autoridade, deixando de ser a reserva moral do MPLA. Joana Tomás foi sempre vista e tida como um corpo estranho na estrutura, uma outsider. João Lourenço percebeu que não havia aí qualquer visão ou estratégia de futuro, além de que ela era a última representação de Luísa Damião, a antiga vice-presidente do MPLA, que ele afastou no último congresso. Deixou de recebê-la em audiência e fez-lhe chegar a mensagem que não devia recandidatar-se ao cargo de secretária-geral da OMA. Para João Lourenço e para o MPLA, a indicação de Carlota Dias (pessoa com quem trabalhou vários anos na Assembleia Nacional) é uma forma de devolver à OMA a honra, o respeito, o poder, a glória, prestígio e autoridade. Sendo a oportunidade para corrigir o tiro, para reparar o erro com a escolha anterior. Para as militantes da OMA, Graciete Dombolo era a aposta numa figura interna, era oportunidade de marcar posição e impor alguém da casa. Era o momento da sua afirmação, de fazer valer a sua escolha. É o velho problema da disciplina partidária versus autonomia da vontade dos militantes. Fontes do NJ garantem que João Lourenço recebeu, na Cidade Alta, na passada quinta-feira, o secretário-geral do MPLA, Paulo Pombolo, e obviamente o dossier OMA dominou o encontro.
Carlota Dias é a mulher que se segue. É uma militante respeitada, tida como competente, experiente e bastante inclusiva. Tem muitos desafios pela frente e alguns bloqueios também. É importante que não seja vista como uma liderança de choques e rupturas, mas, sim, de inclusão, de valorização, visão e crescimento. A OMA precisa de organização, de foco e de união. Ela tem qualidades e aceitação interna, penso que era perfeitamente dispensável que se "provoquem" certas renúncias para lhe deixar caminho aberto para a liderança da OMA. Já o MPLA precisa de deixar de fazer "democracia de cosmética", de querer implementar nas suas estruturas algo que as suas lideranças temem ou que ainda não estão preparadas. É que esta renúncia (im)possível de Graciete Dombolo deixa algumas pessoas muito mal na fotografia.