Era miúdo quando conheci o casal Carlos e Generosa Madaleno, via-os, muitas vezes, passarem pela rua da Samba (onde vivia) num Patrol verde e no nosso imaginário havia muitas histórias sobre Carlos Madaleno, por causa do seu porte físico e presença, mas era a D. Generosa que, com a sua simpatia e generosidade, fazia a alegria dos kandengues da banda. Voltei a vê-los muitas mais vezes na Pastelaria Maravilha, que ficava aí no saudoso Mercado do Kinaxixi, sempre muito unidos e activos.
Voltei a vê-lo pela última vez, já há alguns anos, no antigo Aeroporto da Portela (hoje Humberto Delgado), em Lisboa, já após o desembarque, em que fui cumprimentar a D. Generosa, que me reconheceu mais pela minha performance enquanto apresentador de talk show na Zimbo do que o kandengue dos tempos da Samba. Sempre muito atenta e atenciosa, foi falando comigo sobre o trabalho que fazia e a responsabilidade que a minha geração tinha sob o futuro do País.
Carlos Madaleno acompanhava a conversa um tanto quanto atento, mas também um pouco alheio ao que abordávamos. Despedi-me contando-lhe e deixando um agradecimento pela generosidade com que um dos seus filhos (Licas Madaleno) apoiava de forma altruísta um projecto filantrópico que eu coordenava em quatro lares de órfãos em duas províncias de Angola. Carlos Madaleno era uma pessoa de muito trabalho, de muito sentido de família e com a D. Generosa sempre no apoio. Tinha uma visão lúcida muito própria, muito autónoma, muito real e de futuro sobre a vida e o País. Soube ser um intérprete fiel dos sinais e realidades da sua Angola. Tinha uma visão muito inovadora e moderna das coisas e da vida. Tinha uma dimensão muito objectiva, pragmática, mas também uma gestão de negócios muito humana. Soube manter uma notável independência em relação ao poder político, nunca precisou de ficar "atrelado" ao poder político para se afirmar social e economicamente. Não se lhe conheciam manobras ou " corredores" para estar nos cargos.
O seu desapego a honrarias, cargos e títulos era evidente e fazia questão de o afirmar, segundo alguns amigos e contemporâneos. Talvez isso também fizesse aumentar o respeito e admiração que nutriam por ele. Mais do que nacionalista, era um humanista, um empresário livre, um homem de causas. Este perfil de total independência, de uma capacidade de execução e de realização rara. Era um homem de diálogos e de consensos, sabia impor autoridade sem ser autoritário. O episódio ocorrido na década de 60, em que houve um despedimento maciço dos trabalhadores assalariados dos Mercados Municipais de Luanda (onde ele estava colocado), por terem reivindicado o subsídio de abono de família, em que Madaleno surge em defesa deles com a ajuda da Dra. Maria do Carmo Medina e de João Luís Cardosos, é revelador do seu sentido de justiça e de defensor das causas da liberdade e de afirmação social.
Há aqui testemunhos em reconhecimento do percurso na luta de libertação nacional daquele que, como diz Troufa Real, foi soldado sem ser militar. Aquele que também lutou pela independência nacional e defesa da integridade territorial. Um homem que soube humanizar a luta. Um homem bom, decente e lutador. Para os amigos e companheiros, fica o referencial ético, cívico e político. Os seus filhos têm todas as razões para o admirar, honrar e respeitar.
Os netos terão nele uma figura para se inspirarem, uma referência a seguir. Foi um pai zeloso e marido dedicado. E para nós, o seu Generoso Povo Angolano, será sempre um homem respeitado e respeitador. A D. Generosa terá e merece agora a presença constante de filhos, noras e netos. Carlos Madaleno vai-se juntar agora ao amigo e "camaradão" David Bernardo "Kinjinji", que há dois o aguarda para a nova missão celestial. Nós, o seu Generoso Povo Angolano, aqui estaremos para continuarmos a ser a sua principal testemunha deste homem bom que, por entre nós, passou. É este povo heróico e generoso que o nosso Angola Avante menciona que hoje aqui também te honra. Eterno descanso, Carlos Madaleno! n
"Sou o que sou e devo-o, para além do meu espírito abnegado de trabalho e luta pela Independência, ao Generoso Povo Angolano" - Carlos de Oliveira Madaleno (1941 - 2022)
