As duas guerras mais mediáticas a correr hoje no mundo são-no devido ao impacto que estão a ter na economia global, e quase tudo porque envolvem alguns dos maiores produtores e exportadores de petróleo em todo o mundo: a Rússia e os Estados do Golfo Pérsico.
Não fora isso, e outras como a que devasta o Sudão há anos, teria de concentrar todas as atenções do mundo, não apenas pela selvajaria, acima de tudo porque esta sim, começa a ganhar lastro de "guerra eterna" e sem que acabe, o continente africano empalidece.
Para começo de dia, o púlpito da 81ª AG da ONU vai contar com o discurso do Brasil, historicamente o primeiro a chegar-se à frente porque em 1955, com a organização a dar os primeiros passos logo após a II Guerra Mundial, todos os outros Estados recusaram avançar na frente, este gigante latino-americano voluntariou-se para o fazer.
É por isso que, agora, com Lula da Silva, o Brasil dará o tiro de partida na longa fila de discursos que o sucederá, com Donald Trump, na condição de Presidente do país, a ser o senhor que se segue. E este ano, ser o primeiro vai compensar.
É que Lula da Silva vai subir ao púlpito da ONU com os olhos no seu país, onde disputa eleições para ver se consegue renovar o seu mandato, tendo nas mãos a missão de manter a esquerda a respirar em quase toda a América Latina, prestes a ser integralmente tomada pela extrema-direita que tem como farol "ideológico" Donald Trump.
É por isso normal que o Presidente brasileiro avelude o seu desenho do mundo e se foque com traços mais grossos nos problemas domésticos ou aqueles que do mundo influenciam a economia do Brasil.
Mas o interveniente seguinte chega ao palanque com fogo nos pés, porque é ele o senhor do mundo das guerras que com uma única palavra pode travar os conflitos no Golfo Pérsico, com o Irão, porque foi ele que o começou, a 28 de Fevereiro, e na Ucrânia, porque sem a almofada de Washington, Kiev não terá como aguentar por muito tempo o avanço russo...
E com as eleições intercalares nos EUA já no início de Novembro, com as sondagens, quase sem excepção, a apontarem para uma pesada derrota do seu Partido Republicano e a perda da maioria no Congresso, sendo esse cenário resultado directo, em grande medida, do impacto destes conflitos na economia norte-americana...
... espera-se, esperam boa parte dos analistas, que Trump encontre ali espaço para anunciar algo de grandioso, que lhe permita tomar a dianteira mediática como aquele que acaba com guerras, e essa esperança não vem do frio, vem do calor das suas declarações que, apesar de conflituarem entre si, dão sinais do que a Casa Branca está a pensar.
Foi o próprio Trump que, dois dias antes desta AG começar, admitiu que pode reunir com o seu homólogo iraniano, Massoud Pezeshkian, que já se encontra em Nova Iorque, num tête-à-tête que o americano diz que pode levar ao fim do conflito no Golfo Pérsico...
O mundo sabe que esta declarações, feita no Domingo, visava, de novo, acalmar os mercados energéticos e que o mais certo é que não venha a ter lugar, mas alguns analistas, como John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e respeitado especialista em política internacional, admitem que Trump precisa de acabar com a guerra se quiser inverter o quadro de uma eleição catastrófica para os republicanos.
Uma coisa é certa, se Donald Trump subir ao púlpito para anunciar que o conflito com o Irão foi resolvido na mesa das negociações, definitivamente esta será a "sua" Assembleia-Geral das Nações Unidas.
A par de Lula da Silva e Donald Trump, todos os líderes dos 193 países representados, além da Palestina e União Europeia, podem tomar da palavra, sendo que este ano, como sempre, aberta com o relatório anual de serviço pelo Secretário-Geral, António Guterres, que tem aqui a sua última sessão geral para mostrar serviço antes de voltar a Lisboa.
Depois de Lula, Trump, e antes deles, Guterres e o presidente da AG da ONU, Khalilur Rahman, do Bangladesh, a ordem definida para subir ao palco é por importância da representação e anúncio de interesse, a partir de Chefe de Estado até ao patamar ministerial... e de um balanço geográfico negociado previamente.
E um dos Chefes de Estado que tem vez marcada para se dirigir ao mundo é o angolano João Lourenço, que chegou no Domingo, 20, a Nova Iorque com os olhos postos nos indispensáveis encontros bilaterais de corredor proporcionados pelas reuniões magnas anuais da ONU.
O Presidente angolano não deixará ainda de aproveitar a 81ª Assembleia-Geral (AG) da ONU para limar arestas sobre o realinhamento de Angola quanto aos eixos geoestratégicos que movem o Planeta nestes tempos de provação.
Com o mundo a arder em várias frentes de guerra, que afectam fortemente, Angola, João Lourenço, que lidera uma das economias africanas de maior volatilidade económica, não deixará de lembrar aos novos amigos que o seu país também tem interesses e foi por eles que iniciou uma nova trajectória de alinhamentos globais e geoestratégicos.
E são muitos, desde logo como é que Angola pode fazer perceber as grandes economias ocidentais, EUA e União Europeia, que, ao reposicionar-se geoestrategicamente havia uma condição prévia: não deixar cair Angola.
Foi num contexto de visitas aos EUA semelhante a esta, pouco depois de ter chegado ao poder, em 2017, que João Lourenço disse sem papas na língua que Angola estava a fazer esta mudança de alinhamento por si, não contra ninguém, mas que tinha optado pelos EUA e pelo Ocidente em geral, depois de décadas lado a lado com Rússia e China.
A intenção foi sempre alargar as possibilidades de atrair novos investimentos, o que foi conseguido com o projecto milionário do Corredor do Lobito, mas pouco mais aconteceu, e, perante as dificuldades crescentes, o aperto da dívida, é chegado o momento dos amigos novos se chegarem à frente.
Não é certo que o Presidente angolano o vá dizer no seu discurso diplomático quando na terça-feira, 22, subirá ao palco, mas seguramente que o fará nas dezenas de conversas bilaterais, ou multilaterais restritas, porque defender os interesses do país é a sua missão.
Que termina em finais do ano que vem, quando o seu partido, o MPLA, volta a sujeitar-se ao teste das urnas, numa das eleições mais difíceis de sempre, e não é apenas pelo desgaste de meio século no poder.
É também, porque as dificuldades económicas, com o país afogado na sua dívida externa, o petróleo a perder fôlego, a diversificação económica que tarda a impor-se e a substituir o crude como motor da economia, não têm, ou serão poucos os exemplos, comparação...
Para resolver estes problemas, como a generalidade dos países em desenvolvimento, especialmente africanos, latino-americanos e asiáticos, a teia de amizades estratégica é fundamental... e se não agora, quando?
É que em Washington, mesmo que, penosamente, a diplomacia norte-americana procure diluir os efeitos da chegada de Donald Trump à Casa Branca, deixou de se olhar para o continente africano da mesma forma que Joe Biden o fazia. E agora o Presidente angolano terá a oportunidade de lhe dizer, ou fazer-lhe chegar, que as Nações cumprem acordos, históricos ou recentes, mesmo que quem as comanda muda pelo voto e sob o ciclo das democracias.
A agenda para estes dias de trabalho na 81ª AD da ONU e o "novo" Secretário-Geral
As Nações Unidas escolheram como lema desta AG, a última de António Guterres, que, claramente, ficou muito longe das expectativas que criou, especialmente na árdua missão de levar as alterações climáticas ao "coração" do mundo, a ideia de "Restaurar a confiança, gerir a transformação: Uma ONU que trabalha para todos".
No decurso dos trabalhos, além dos discursos oficiais e das reuniões paralelas sem agenda oficial, a ONU agendou diversos encontros sobre o clima e a transição energética, a subida do nível do mar, preparativos para as próximas pandemias e um programa intenso de reuniões sobre questões raciais e as armas nucleares.
Mas uma agenda fantasma que vai estar presente em todos os cantos e recantos da sede da ONU em Nova Iorque nestes cinco dias de trabalho: quem é o senhor que se segue no lugar de Secretário-Geral das Nações Unidas depois de Guterres arrumar as malas.
Embora essa decisão tenha de passar obrigatoriamente pelo Conselho de Segurança, esta semana será de extrema relevância para que os Estados-membros da ONU façam chegar aos membros do restrito Conselho de Segurança, onde cinco países possuem direito de veto (EUA. Rússia, China, França e Reino Unido) o que pensam.
Uma coisa é já certa... o perfil que interessa para o novo chefe da ONU não é o mesmo visto a partir do Sul Global, que concentra os países em desenvolvimento de um modo geral, e o Ocidente Alargado, EUA e Europa e os "ricos" da Ásia e da Oceânia, porque o novo mundo pós Ordem Mundial ditada pelas regras dos EUA impostas após a II Guerra Mundial, não pode manter-se sob comando de Washington unicamente.
Para que esse equilíbrio vingue, o novo ou nova SG da ONU terá, obrigatoriamente de sair do Sul Global, porque o actual é um Europeu e por mais que tenha procurado levar esse balanceamento para o cargo, no fim do jogo, ganham os ocidentais.
