A capital angolana tem tudo para marcar uma nova era nas relações euro-africanas e as razões são mais que conhecidas, estão mesmo nas cabeças de todos os dirigentes que estão a caminho desta Cimeira UA/UE: se não for a Europa, do outro lado da rua, à espera dos resultados desta Cimeira, estão a China, a Rússia, os EUA, a Índia, o Brasil...
Seja o Presidente da União Africana, João Lourenço, da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, Ursula von der Leyen, que lidera a Comissão Europeia, ou António Costa, Presidente do Conselho Europeu, todos sabem intuitivamente que o tempo em que a Europa olhava sobranceiramente para África acabou.
Não porque a Europa tenha empobrecido ou África enriquecido com um passe da magia; sim porque o turbilhão geoestratégico gerado pela disputa entre gigantes por uma nova ordem mundial, com EUA e China a moverem as peças principais neste xadrez sob brasas, está a alterar regras com mais de 80 anos fazendo de África um território não apenas disputado mas estrategicamente decisivo.
Um exemplo entre inúmeros: África é a principal fonte de alguns minerais fundamentais para as indústrias 2.0 das potências globais, como é o caso do coltão, onde a RDC detém 80% das reservas mundiais, e sem coltão não há smartphones, laptops... Mas há ainda o cobalto e algumas das 17 "terras raras" pelas quais americanos, chineses, europeus, indianos se batem de faca nos dentes...
É, efectivamente, uma oportunidade única para o continente africano estes tempos que correm, porque, como o demonstra o "angolano" projecto do Corredor do Lobito, que ligará não apenas a geografia do interior da África Central/Austral ao Atlântico, ligará essencialmente as riquezas absurdas do continente ao Porto do Lobito, a rota marítima mais célere para a Europa Ocidental e a América do Norte.
E sim, é uma "arma" contra a influência chinesa nestas geografias bafejadas pela sorte no subsolo mas ainda desafortunadas no solo habitado pelos povos mais empobrecidos do Planeta, porque para Pequim o trânsito preferido dessas riquezas será sempre a ferrovia para o Índico, da RDC/ Zâmbia para a Tanzânia, no "Corredor" de Dar-es-Salaam...
E quando Ursula Leyen, António Costa ou o francês Emmanuel Macron aterrarem na capital angolana, os africanos que os aguardam estão cientes, mais que nunca, de que este "grand jeu" está a ser jogado com todos os trunfos, incluindo alguns tirados da manga, ou mesmo da cartola...
É que a Europa Ocidental sabe que uma das formas mais evidentes de reentrar num jogo do qual foi atirada borda fora por americanos, chineses e russos é reentrar pela porta de trás, que, curiosamente, é aquela que conhece melhor e onde deveria ter melhores cartas para jogar, que é África, depois de uma presença reinante, apesar de tudo, de mais de 500 anos...
E, do lado africano, as cartas são ainda melhores... neste momento histórico único e irrepetível, onde já ninguém vai na cantiga das "bolinhas de vidro" e dos "espelhos coloridos" que eram usados para levar as riquezas continentais, mesmo que hoje estejam a reaparecer na forma de "cooperação com financiamento" e projectos auto-financiados".
África está, basta revisitar os discursos de alguns dos seus líderes regionais ou nacionais, incluindo o do actual Presidente da União Africana, João Lourenço, onde em todos eles, sem excepção, é dito preto no branco que chegou o tempo de queimar etapas no desenvolvimento, nomeadamente na questão que por hoje move o mundo no tal xadrez geoestratégico, que é transformar as matérias-primas localmente para industrializar o continente.
Alguns países já começaram esse caminho, como a RDC, onde recentemente foi aprovada legislação que obriga a que 80% dos recursos naturais minerais do país sejam usados em unidades fabris e industriais no país, o que obrigará sempre à transferência de tecnologia e ao investimento externo avultado.
E, embora não esteja a ser divulgado, o mesmo parece ser o entendimento em Angola com o que está por debaixo do Planageo (Plano Nacional de Geologia), que, mesmo que ainda só tenha sido parcialmente divulgado em fóruns internacionais, nos EUA e na África do Sul, já se sabe que o potencial é gigantesco, como é disso exemplo a "Copper belt - Cinturão de cobre" zambiano e congolês que se estende por mais de 100 mil kms2 para o território nacional, ou as "terras raras" abundantes em áreas do Huambo, Bié e outras.
E sim, o que este cenário permite, porque sem estas ainda mais importantes riquezas do subsolo africano que os velhinhos petróleo, diamantes e ouro, é que os países africanos têm mais que em nenhum outro período histórico, a faca e o queijo na mão.
E com a faca e o queijo na mão, tem-se sempre todo o "pão" que se exigir. Uma metáfora antiga que os europeus conhecem bem mas que se traduz por algo tão simples como isto: chegou a hora de europeus e norte-americanos pensarem África de igual para igual.
Olhos nos olhos, porque agora a moeda de troca é mesmo - ou deveria ser - o desenvolvimento, a industrialização do continente, a criação de emprego, a transferência de tecnologia, a electrificação, as infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias, energéticas... porque já ninguém quer "bolinhas de vidro coloridas" tenham elas a forma que tiverem no momento da negociação...
Em África quer-se, por exemplo, deixar de pagar juros astronõmicos pelo crédito obtido junto das instituições financeiras ocidentais, como os "bonds" que rondam os 10 a 12 por cento quando, em comparação, os países europeus conseguem os mesmos empréstimos a juros entre 1,5% e os 2,5%, porque é "lei" justificar esta disparidade com a desconfiança sobre os países africanos quando as falhas são pelo menos tão raras quanto as que sucedem no "abonado" Hemisfério Norte industrializado.
E no Ministério das Relações Exteriores angolano parece claramente que esta realidade não é ignorada.
Basta ver o comunicado que o MIREX fez sair a propósito desta Cimeira UA/UE, onde, no contexto de uma reunião preparatória, esta segunda-feira, 17, liderada pelo embaixador Domingos Custódio Vieira Lopes, secretário de Estado para Cooperação Internacional e Comunidades Angolanas, se diz isso mesmo quando se introduz os objectivos do encontro.
"O evento ocorre num momento de crescente disputa internacional pela influência em África e no qual se verifica um reforço das relações bilaterais entre líderes europeus e africanos", avança a nota do MIREX, acrescentando que "entre os principais objectivos da cimeira está a consolidação da Visão Conjunta UE-UA para 2030, que estabelece metas comuns de prosperidade económica, desenvolvimento humano, governação, protecção ambiental e defesa do multilateralismo".
Diz ainda a nota que o Parlamento Europeu tem "insistido na necessidade de uma parceria de iguais, assente na solidariedade, democracia, direitos humanos e mecanismos transparentes de acompanhamento e implementação".
Esta introdução parece demonstrar que existe uma sólida consciência de que este é o momento de África no xadrez mundial, mas a inteligência continental tem, obrigatoriamente, de descodificar o que são "bolinhas de vidro coloridas" camufladas e propostas concretas e sem truques... Porque o longo passado conjunto foi mais feito de truques coloridos que de outra coisa.
Por exemplo, o pacote de investimentos da Global Gateway, dotado de 150 mil milhões de euros, um projecto europeu criado pela União Europeia para desenvolver novas infra-estruturas em países em desenvolvimento com o objectivo de disputar influência à chinesa Nova Rota da Seda, é uma proposta concreta ou uma "bolinha de vidro colorida"?
Esta Cimeira de Luanda pode ser a melhor oportunidade de sempre para demonstrar com precisão europeia e tempo de reflexão e ponderação africanos ao que andam uns e outros, porque nesta época extraordinária, como nunca sucedeu, África sabe que a Europa Ocidental é apenas um interlocutor dos muitos - China, Rússia, EUA. Índia, Brasil... - que estão do outro lado da rua, atentos aos resultados deste encontro.
Esse é o Ás de trunfo do continente! Saberão os seus dirigentes usá-lo no momento certo?!


