Primeiro no Canadá, o grande ecrã da estreia mundial, Martha Canga António despontou como uma das "actrizes a ter em conta", potencial destacado pela crítica do Indiewire, site especializado em cinema. Depois na Alemanha, "o seu talento natural para a representação" valeu-lhe a inclusão no European Shooting Stars 2016, rampa de lançamento de novos valores na indústria da sétima arte. Pelo caminho, a protagonista do filme belga "Black" arrebatou o prémio de Melhor Actriz no Festival de Cinema Black Nights da Estónia.
Agora, menos de um ano após o lançamento da película - distinguida no Festival Internacional de Cinema de Toronto (Canadá) como "a descoberta" de 2015 -, Martha arrisca uma nova aclamação.
"Acabo de saber que fui seleccionada para o prémio "Jovem Estrela" do Festival de Cinema Oostende", revela a actriz de 21 anos, já de calendário apontado para essa mostra belga, que decorre de 9 a 17 de Setembro.
Embora cada vez mais exposta aos holofotes, esta filha de angolanos, que vive a primeira experiência na representação, garante que o dia-a-dia "não mudou muito", porque, ao contrário do que acontece nos EUA, "na Bélgica os "famosos" podem andar na rua à vontade".
Apesar da relatada descontracção quotidiana, a popularidade de "Black" já impõe algumas reservas de imagem, evidenciadas na relação com a imprensa: O acesso à actriz é "filtrado" pela sua assessoria de comunicação.
Por email e em inglês - porque o português sempre ficou circunscrito às conversas caseiras -, a também cantora confessa que a explosão mediática ainda lhe causa estranheza.
"Não me considero uma estrela, mas sim uma artista em ascensão", sublinha Martha, que em menos de um ano passou de simples anónima a figura pública.
Desde Outubro de 2015 a percorrer grandes ecrãs de todo o mundo, numa trajectória iniciada no Festival de Cinema de Ghent, na Bélgica, a melhor actriz do Festival de Cinema Black Nights confessa, em entrevista ao Novo Jornal online, que nem ela própria imaginava que pudesse ter arte para a representação.
Seleccionada entre mais de 450 candidatas
"Quando fui fazer o casting o meu objectivo era apenas participar no projecto", conta, escolhida entre mais de 450 candidatas, muitas delas já com experiência.
"Acredito que houve aí um misto de sorte e talento", aponta a protagonista de "Black", de memória voltada para o dia em que festejou a selecção.
"Estava a sair da escola, a caminho da estação de comboios com a minha amiga Martyna Terlecka, quando recebi a notícia. Não queria acreditar! Atirámos as nossas pastas ao ar e começámos a saltar no meio da rua, com as pessoas a olhar para nós como se fôssemos loucas".
Por coincidência, cerca de dois meses antes de se submeter ao casting, a actriz tinha lido o livro que inspirou o filme, escrito por Dirk Bracke e centrado num amor proibido, vivido entre membros de gangues juvenis rivais.
Aclamada pela crítica como uma "extraordinária Julieta dos tempos modernos", a Mavela da história - com argumento e direcção de Adil El Arbi e Bilall Fallah - construiu a personagem a partir das recomendações dos autores.
"O elenco assistiu a três filmes: "La Haine", "Cidade de Deus", e "La vie d"Adele"", recorda Martha, que para moldar o papel também falou com o escritor Dirk Bracke.
Desafiada pelo Novo Jornal a reflectir sobre uma das falas da sua protagonista - "Na Bélgica a cor da pele é o teu diploma" -, a jovem de 21 anos considera que o racismo ainda é uma realidade muito presente.
"A luta contra a discriminação continua, mas não deve servir como desculpa. Se não temos oportunidades, de nada nos adianta ficarmos parados a chorar. Devemos criar outras oportunidades e rodearmo-nos de pessoas com o mesmo espírito".
Os planos de superação, que incluem um curso de Comunicação e a participação no colectivo de hip-hop Soul"art, conquistaram, para além da crítica, a aprovação familiar.
"No início os meus pais não viam futuro na representação, sobretudo porque estou sempre a mudar de ideias", revela Martha, sem esconder a constante inquietação. "Sempre quis fazer coisas novas e diferentes. Acredito que quando queremos atingir patamares com os quais a maioria das pessoas nem sequer se atreve a sonhar, temos de correr riscos e entregarmo-nos a 200%".
Neste caminho desviado de impossíveis, a nova estrela do cinema europeu não esquece o ponto de partida.
"Espero em breve conseguir visitar o país onde estão as minhas raízes", diz a artista, no único momento da entrevista com expressão portuguesa: Angola "é minha terra".
