Esta é a segunda e última parte da entrevista por escrito concedida ao Novo Jornal pelo director associado do UNICEF e chefe global de imunização, Ephrem Lemango durante a sua última visita a Angola, que decorreu entre 09 e 14 de Agosto.

Recentemente, referiu que vacinas que não necessitam de refrigeração podem abrir caminho para um futuro sem cadeia de frio. Angola está a investir no reforço desse sistema, com frigoríficos solares e monitorização remota para chegar a zonas rurais e de difícil acesso. Se essa inovação vingar, poderá mudar a forma como países como Angola estruturam os seus sistemas de imunização?

Ephrem Lemango: É uma pergunta bastante pertinente e começo por sublinhar que, hoje, a vacinação depende de uma cadeia de frio fiável para manter as vacinas eficazes. No entanto, essa tecnologia continua a evoluir. Já temos inovações como frigoríficos solares, monitorização remota da temperatura e dispositivos passivos de refrigeração capazes de conservar vacinas durante mais de um mês sem electricidade.

Há também novas tecnologias, como a administração sem agulha e, potencialmente, vacinas que não exigem refrigeração, que abrem possibilidades muito interessantes para o futuro. Ainda assim, muitas dessas soluções estão numa fase inicial e precisarão de tempo para amadurecer. Por enquanto, continua a ser essencial investir na expansão e no reforço da cadeia de frio aos níveis nacional, provincial, municipal e das unidades sanitárias.

Isso levanta uma questão mais ampla sobre o lugar de África na saúde mundial. Se se espera que os países africanos adoptem novas vacinas e tecnologias, enquanto grande parte da investigação, do financiamento e da produção continua a acontecer noutros continentes, podemos realmente falar de soberania sanitária?

Ephrem Lemango: África suporta uma carga elevada de doenças, mas dispõe de poucos profissionais de saúde e depende fortemente de vacinas e tecnologias produzidas fora do continente. Isso limita, de facto, a nossa capacidade de responder às necessidades no momento certo. Mas a situação está a mudar.

Por exemplo, a produção de seringas em África já cobre entre 60% e 70% das necessidades do continente, e vemos avanços encorajadores, com algumas unidades de produção a se prepararem para iniciar a produção de vacinas nos próximos anos. Existe também um compromisso continental de aumentar a produção de vacinas para cerca de 60% das necessidades africanas até 2040.

São passos importantes na direcção da soberania. Mas há outro aspecto essencial: os países africanos precisam de financiar cada vez mais as suas próprias necessidades de saúde, através do Orçamento do Estado e fundos domésticos, reduzindo a dependência de financiamento externo.

Em que momento uma parceria internacional se transforma em dependência? Considera que os governos africanos estão a investir recursos próprios suficientes nas instituições científicas, nos investigadores e na capacidade de produção necessária para mudar essa realidade?

Ephrem Lemango: Em 2001, os países africanos comprometeram-se, através da Declaração de Abuja, a destinar 15% dos seus orçamentos públicos à saúde. 25 anos depois, vários países aumentaram o financiamento, mas apenas alguns alcançaram essa meta. Ao mesmo tempo, muitos continuam a depender de recursos externos para financiar entre 20% e 50% dos seus orçamentos da saúde.

Os recentes cortes no financiamento externo expuseram claramente essa vulnerabilidade. Por isso, é urgente transformar os compromissos em acção: financiar os serviços de saúde com mais recursos nacionais e criar um ambiente de negócios que incentive a produção local de medicamentos, vacinas e tecnologias.

O senhor passou anos a trabalhar na imunização mundial e ajudou a construir programas que salvaram milhões de vidas. Ainda assim, cinco décadas depois, continuamos a perguntar por que razão algumas crianças permanecem desprotegidas. Olhando para trás, o que fizemos mal? E, se pudesse redesenhar hoje o sistema de imunização, o que faria de maneira diferente?

Ephrem Lemango: Os programas de imunização têm produzido resultados extraordinários e salvam pelo menos quatro milhões de vidas por ano. Nas últimas cinco décadas, a cobertura vacinal aumentou de aproximadamente 20% para 80%. É uma conquista impressionante. O desafio agora é chegar aos 20% de crianças restantes com todas as vacinas.

Muitas dessas crianças vivem em contextos de conflito e fragilidade, em países onde a hesitação vacinal está a crescer e em contextos de baixo rendimento e rápido crescimento populacional. Os programas terão, por isso, de evoluir. Se eu pudesse redesenhá-los - ou simplesmente prepará-los melhor para o futuro - concentrar-me-ia em sistemas preparados para contextos frágeis, capazes de vacinar populações em movimento e pessoas deslocadas; sistemas aptos a responder ao complexo ambiente de informação em que vivemos; e programas de imunização firmemente integrados nos cuidados primários de saúde.

A malária continua a ser uma das maiores ameaças à sobrevivência infantil em África, e o Dr. Ephrem esteve directamente envolvido na introdução das primeiras vacinas contra a doença que continua a ser a principal causa de morte no País. Que papel poderá a vacinação desempenhar em Angola e o que será necessário para garantir que chegue às crianças que mais precisam?

Ephrem Lemango: A malária mata mais de meio milhão de crianças em África todos os anos e continua a ser uma das maiores ameaças à sobrevivência infantil no continente. Ainda assim, nas últimas duas décadas houve progressos significativos na redução das mortes, graças ao maior acesso a ferramentas de prevenção e tratamento. A vacina contra a malária é a mais recente dessas ferramentas, e 25 países já a introduziram nos seus programas de vacinação.

Em conjunto com as outras medidas, a vacina pode ajudar Angola a reduzir os casos de malária grave. Mas, para isso, será necessário alcançar as crianças dos municípios com transmissão alta e média com quatro doses, administradas durante o primeiro e o segundo ano de vida. Isso exige um programa de vacinação mais forte e capaz de atingir uma cobertura elevada. Portanto, a introdução da vacina contra a malária terá de ser acompanhada por investimentos no reforço do sistema de imunização.

Depois de tantos anos a trabalhar na área da imunização, o que ainda o inquieta - algo que julgava que já teríamos conseguido resolver?

Ephrem Lemango: As vacinas têm um impacto extraordinário na prevenção de doenças e na salvação de vidas. Mas o seu sucesso depende da capacidade do sistema de saúde que as leva às pessoas. Não basta introduzir uma vacina; é preciso garantir que ela chega a todas as crianças. Eu não diria que isso me causa alguma frustração, mas é, sem dúvida, o desafio que me tira o sono.