Só nesta segunda-feira, 23, o barril de Brent, a principal referência para as exportações angolanas, está a subir mais de 3%, uma escalada acentuada nos gráficos mas longe da inclinação da subida do risco que seria Donald Trump cumprir a sua ameaça a Teerão.
Ameaça essa que é destruir toda a indústria energética iraniana, crude e gás, se até às 00:44 de terça-feira, 24, cerca de 15 horas a contar das actuais 09:25, hora de Luanda, quando o barril de Brent está a valer nos mercados internacionais 113.3 USD.
Para tirar o dedo do gatilho, o Presidente norte-americano exige que o Irão desimpeça sem condições a passagem a todos dos navios no Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do crude e do gás (LNG) consumidos no mundo. (ver links em baixo)
Esta estreita passagem, que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, e por onde passam ainda quantidades vitais para a economia mundial de fertilizantes e hélio (indústria dos chips), está parcialmente fechada pelo Irão, que deixa passar apenas os navios dos países que não apoiam a guerra lançada contra si pela coligação israelo-americana.
Alguns analistas, apesar de os preços da energia estarem a subir, estranham que essa subida esteja a ser, apesar der tudo, contida, e a razão, mais comum, é que Trump não é famoso por cumprir todas as suas promessas e ameaças.
Desde ter começado duas guerras, em Junho de 2025, e agora esta, a 28 de Fevereiro, quando decorriam negociações com o país atacado, até garantir que apenas iria impedir que o Irão tivesse uma arma nuclear, ou dizer que visava a mudança de regime para recuar nessa pretensão várias vezes, Trump tem deixadas penduradas algumas das suas mais flamejantes ameaças e promessas.
O que deixa um espaço alargado para a possibilidade de também agora não apertar o gatilho para o tiro de partida do que pode ser uma corrida tresloucada para a destruição total do Médio Oriente.
E não é para pensar menos que isso, porque o Irão já avisou que nada mudará no Estreito de Ormuz, e que a sua resposta - para a qual já deu provas de ser quase ilimitada nos alvos que pode flagelar - e que após o primeiro míssil israelo-americano a cair numa das suas infra-estruturas energéticas, começará a retaliação.
Retaliação que será dirigida não apenas a toda a indústria do oil & gas dos países árabes do Golfo Pérsico, aliados dos EUA, e Israel, como as suas estrategicamente vitais centenas de centrais de dessalinização de água do mar, sem as quais a vida é impossível nesta árida região, serão igualmente varridas do mapa.
Todas as análises que possam ser feitas em torno deste perigoso momento no Médio Oriente só terão validação quando o relógio marcar 00:44 de terça-feira, 23, pelo que o mundo viverá, se não acontecer nada de extraordinário até lá, em modo de espera nervosa.
A possibilidade de negociações tem sido descartada por ambos os lados. Mas alguns analistas entendem que se trata de retórica com sintomas de se estar num momento em que isso passará a ser possível porque esta guerra se aproxima a grande velocidade de ser extremamente prejudicial para todos.
O que faz com que Angola, um dos países produtores de crude, e também de gás LNG, seja um espectador entre os mais atentos em todo o mundo para o que está a acontecer no Médio Oriente.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional tende a manter os preços muito acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, que compara ainda com os actuais 113 USD, 54 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.












