E foi assim porque, ao fim de duas semanas de subidas do valor do barril de petróleo, levando o Brent para muito próximo dos 110 USD, em algumas horas de mercados, entre o fim da semana passada e o início desta que hoje arranca, o barril afunda.

A mover estas placas tectónicas está, obviamente, o chefe da Casa Branca, que, depois de no final da semana passada ter voltado a dizer que tem de novo em cima da mesa a "destruição total do Irão", veio agora dizer que está pronto para se encontrar com o Presidente do Irão em Nova Iorque nas próximas horas.

São vários os analistas que defendem que os mercados, de forma surpreendente, continuam a ser manipulados facilmente por Donald Trump, devido à sua capacidade de levar o caos ou a paz ao Golfo Pérsico.

Mas outros admitem que os mercados já se converterem ao "trumpismo" adaptando-se à sua incoerência discursiva, inserindo esse dado na planificação semanal dos seus negócios, o que se refelecte na velocidade furiosa com que reagem às suas declarações.

E voltou a ser assim esta segunda-feira, 21, com os mercados, tanto o Brent, em Londres, como o WTI, em Nova Iorque, a perderem flutuabilidade sob o peso das declarações de Trump, que inseriram nova dose de optimismo para que o conflito no Médio Oriente termine.

Esse optimismo resulta da possibilidade de o encontro que o Presidente norte-americano admite poder ter com o seu homólogo iraniano, Massoud Pezeshkian, em Nova Iorque, no
âmbito da 81ª Assembleia-Geral da ONU, esta semana, poder vir a resultar na oportunidade que o mundo anseia para reabrir os Estreitos de Ormuz e Bab al-Mandeb, libertando o crude do Golfo Pérsico e o comércio geral no Mar Vermelho/Canal do Suez.

Além de Pezeshkian, o norte-americano deixa ainda a porta aberta para se encontrar com os líderes dos países árabes do Golfo, desde logo da Arábia Saudita, que trouxe para a economia global outra fonte de inquietação pela via da guerra que começou com os Houthis, do Iémen, que não têm parado de atacar a sua infra-estrutura energética.

Especialmente as suas refinarias, algumas das maires do mundo, e ainda mais relevante o oleoduto de 1200 kms "Leste-Oeste", que permitia fazer sair até 5 milhões de barris por dia do crude produzido na costa contrária, do Golfo Pérsico.

É com este cenário em pano de fundo que o barril de Brent estava esta manhã de segunda-feira, 21, perto das 10:00, hora de Luanda, a valer 101,7 USD, uma perda próxima dos 2% face ao fecho da passada sexta-feira.

Angola soma ganhos...

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 101 USD, no caso do Brent, cerca de 41 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.