O desemprego na África do Sul está em patamares nunca vistos, nos 35%, o que é um sinal evidente de uma grave crise económica neste país que é a segunda maior potência económica em África mas, de longe, a melhor organizada, o que está por detrás das recentes vagas de protestos de rua e de ataques às comunidades migrantes mais importantes, desde logo moçambicanos e zimbabueanos.

O desemprego na África do Sul, 34,9%, que chega aos 65% entre os mais jovens, está em número pouco maiores aos de Angola, que se situa nos 32,5%, mas o seu impacto social é naquele país austral muito superior porque a sua economia mais densa, com níveis de industrialização únicos no continente e uma agricultura que só compara com as mais evoluídas no mundo, tem menos espaço para a informalidade que é em Angola o grande escape das famílias a este drama.

E é neste contexto dramático que milhares de sul-africanos se estão a rebelar contra as comunidades migrantes porque diz que lhe estão a roubar os empregos, o que os analistas locais desmentem, embora reconheçam essa percepção como natural, porque os migrantes estão em sectores a que os locais quase sempre fogem e só aceitam em último recurso, como as minas, a construção ou a agricultura de elevada mão-de-obra.

A última manifestação anti-imigrantes no país teve lugar no Sábado, perto da Cidade do Cabo, em Hillbrow, no âmbito da denominada "Operação Dudula", a palavra em língua Zulo para "volta para trás", que a imprensa local define como a síntese de uma nova vaga nacional contra a presença de estrangeiros na África do Sul, onde mais de 2 mil pessoas se manifestarem contra os "outros" impulsionados pela grave crise que já dura há anos e que se traduz em níveis de pobreza nunca vistos no país acompanhados com um desemprego dramático e um "tsunami" de criminalidade considerado pelos analistas como perigoso para a própria estabilidade do país.

"Estrangeiros vão para casa", era a palavra de ordem mais ouvida, a mesma que esteve por detrás do início da "Operação Dudula", que surgiu de forma inorgânica no Soweto, quando há semanas, milhares de pessoas se dirigiram, de forma agressiva e aramadas, a um centro de imigrantes naquele que é o "musseque" mais conhecido da África do Sul, em Joanesburgo.

Recorde-se que estes problemas são repetidamente sentidos no mais desenvolvido país africano, que se libertou do regime racista do apartheid em 1994, sendo, desde então governado pelo ANC de Nelson Mandela.

Em 2008 ocorreram os incidentes mais graves de xenofobia contra os estrangeiros, tendo morrido dezenas, em números de, dependendo das fontes, podem ter chegado aos 120, embora oficialmente tenha sido "apenas" 62.

Em 2015 o cenário repetiu-se, embora com menos mortos registados entre os imigrantes, mas em 2019 o problema ganhou foro de drama nacional quando, em Joanesburgo, milhares saíram às ruas numa vaga de destruição que deixou milhares de lojas, fábicas e pequenos negócios em chamas, com dezenas de mortos e de feridos.

Nas últimas semanas, estes protestos voltaram a ganhar dimensão e estão agora a surgir de forma mais organizada, com uma designação "oficial", a "Operação Dudula", um pouco por todo o país, sendo que a Cidade do Cabo e Joanesburgo concentram as situações de maior violência.

Segundo os números oficiais, estão na África do Sul, com uma população de 48 milhões, perto de 4 milhões de imigrantes, que as organizações de defesa dos Direitos Humanos e de cariz religioso dizem estar a ser usados por forças políticas como "bodes expiatórios" para desviar as atenções dos problemas que corroem a África do Sul, como a "má governação e a corrupção que está em níveis igualmente históricos".

A esta nova vaga de ódio aos estrangeiros, o Presidente Cyril Ramaphosa prometeu uma "atenção redobrada" aos núcleos onde este sentimento está a emergir, prometendo mão pesada para com aqueles que estão por detrás destes protestos e garantiu que vai criar legislação laboral para proteger as comunidades migrantes, como, por exemplo, uma percentagem nas empresas para mão-de-obra imigrante.