A dimensão da Canton Fair constitui um dos seus elementos mais marcantes. A edição de Abril de 2026, ocupou uma área de exposição de aproximadamente 1,55 milhões de metros quadrados, distribuída por cerca de 75.700 espaços expositivos. Esta magnitude posiciona o evento entre os maiores do mundo no domínio das feiras comerciais, evidenciando a capacidade organizativa e logística da China. No que concerne à participação empresarial, a feira reuniu mais de 32.000 empresas expositoras, incluindo milhares de novos participantes. Este número reflete não apenas a vitalidade do tecido empresarial chinês, mas também a crescente internacionalização da feira, que atrai empresas orientadas para a exportação e inovação tecnológica. A presença de novos expositores indica igualmente uma renovação contínua da oferta, adaptando-se às exigências de mercados globais em constante transformação. Relativamente ao público participante, a Canton Fair registou a presença de entre 200.000 e 300.000 visitantes, provenientes de mais de 200 países e regiões. Este elevado nível de participação internacional reforça o papel da feira como ponto de encontro entre produtores e compradores à escala global, promovendo redes comerciais e facilitando a circulação de bens, serviços e tecnologias. No plano sectorial, a feira caracteriza-se pela sua natureza multissectorial. A fase realizada entre 15 e 19 de Abril de 2026, concentrou-se sobretudo em sectores industriais e tecnológicos, incluindo electrónica de consumo, electrodomésticos, tecnologias de informação, maquinaria industrial, ferramentas e componentes automóveis. Para além destes sectores tradicionais, a edição de 2026 integrou áreas emergentes, como dispositivos inteligentes vestíveis, drones de consumo, tecnologias de visualização e soluções de habitação modular sustentável. Esta diversificação sectorial demonstra a capacidade da feira em acompanhar as tendências tecnológicas e económicas globais.
A transformação da estrutura económica da China, evidenciada na Feira Internacional de Canton deu-se nos últimos 40 anos. Verifiquei que a maioria das empresas expositoras iniciou as suas actividades a partir da década de 1980. Vi pouco menos de 5 empresas (devia haver mais, a exposição é por si meio mundo), que iniciaram as suas operações antes de 1960, o que confirma que o milagre de facto, acorreu com as transformações iniciadas por Deng Xiaoping, nesta altura, a literatura económica fazia referência das altas taxas de crescimento económico que se estavam a verificar na China, com algum despesismo, por vezes, desacreditando as estatísticas chinesas. Viu-se nesta altura a saga das empresas ocidentais na procura de maior eficiência económica nas suas actividades, traduzida na deslocalização das suas indústrias para o leste asiático (China, Vietname, Malásia, Indonésia, etc.). A China foi o grande destino dessas indústrias, a procura da mão-de-obra barata, que, entretanto, as autoridades chinesas condicionaram a obrigatoriedade de parceria com empresários locais, que tinham apoio do Estado, quer financeiro, quer treinamento no domínio dos negócios. Assim se deu o processo de transferência de tecnologia, evidenciada na variedade de opções que tive a oportunidade de ver com os meus próprios olhos, que está a dar os seus frutos. Mas qual foi a condição precedente desta transformação?
Impressionou-me o nível intelectual dos chineses com quem interagi, que é alto: tinham uma fluência na língua inglesa, outros até tinham fluência em duas ou mais línguas estrangeiras. Elevada facilidade no cálculo e na interpretação de números, não precisavam de calculadoras para fazer contas, o faziam de cabeça. Nos principais rankings internacionais, como o QS World University Rankings, o Times Higher Education (THE) e o Academic Ranking of World Universities (ARWU), várias universidades chinesas estão entre as 100 melhores do mundo. Esta realidade levou-me a concluir que a preponderância do investimento na disseminação do conhecimento, na investigação científica e na extensão, estar a ser a força motriz da transformação estrutural que se está a assistir. Acredito que o elevado nível intelectual das pessoas fez uma enorme diferença no apoio a transformação da estrutura económica do país, que era assente na agricultura de quase subsistência para uma economia industrializada, que vimos nesta 139.ª Edição da Feira Internacional de Canton.
Outro aspecto que considero relevante na transformação é a adequação das infra-estruturas básicas fundamentais, como estradas, centrais eléctrica, centrais de água, entre outras. Começando pelo aeroporto, as vias que me levaram ao hotel e a elegância das pontes, indicaram a existência de excelentes condições para o desenvolvimento de negócios. Foi tudo muito suave, a informação estava a vista e ao alcance de todos. Fiquei surpreendido quando me disseram que a diária no hotel de 5 estrelas em que fui alojado era de $100, inicialmente, não acreditei. Já tinha estado na China em 2014, passaram-se 12 anos até ao meu regresso, pois tinha sido mesmo no mês de Abril. A cidade que voltei a ver parecia diferente, as avenidas bem requintadas, muito limpas.
Ray Dalio, Daron Acemoglu e outros autores ocidentais afirmam que, um sistema político autocrático, como o chinês, pode experimentar elevadas taxas de crescimento, numa determinada fase do seu desenvolvimento. Porém, argumentam que esse crescimento é insustentável, afirmando que a dada altura haverá de encalhar, como aconteceu com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), devido à limitação das liberdades de iniciativa característico de um sistema autocrático, a medida que a população toma consciência dos seus direitos. Talvez o que está a contrariar a assunção desta analogia é o facto de que a China não dá a liberdade de participação política, é um sistema político de partido único. Mas, por outro lado, dá a liberdade de iniciativa económica, ninguém é, quartado ou impedido de desenvolver seja qual for actividade económica, desde que permitida por lei. O acesso aos benefícios não está ligado a pertença ou não, a determinada linha política. A ascensão é baseada no mérito, desta forma a China tem contrariado os sépticos. Neste ritmo, como, aliás, o havia afirmado neste espaço, o ciclo da hegemonia chinesa está a começar. A China é a indústria do mundo, acredito que está no início da sua era, de exercer a hegemonia económica mundial.
O contacto com a experiência da transformação da estrutura económica chinesa leva-me, em primeiro lugar, a acreditar que não há sofrimento que dure para sempre e não há nada que não seja superado; em segundo lugar, demonstra que é possível dar a volta por cima, desde que se imprima disciplina, seriedade, responsabilidade e responsabilização pelas falhas. Se quem governa for sério, esquecer-se, pensar apenas no serviço público, e no interesse colectivo, é possível reverter o quadro de subdesenvolvimento e pobreza. Aqui está um sistema político autocrático, com uma economia de mercado pujante e equilibrada.n
Bibliografia consultada
Dalio, Ray, (2021). The Changing World Order: Why Nations Succeed and Fail. Avid Reader Press, New York, United States of America.
Daron Acemoglu, D., & James A. Robinson, J. A. (2019). The narrow corridor: States, societies, and the fate of liberty. Penguin Press.
Kissinger, Henry (2012). On China. The Pinguuim Group, New York. United States of America. Mahbubani, Kishore, (2020). Has China Won? The Chinese Challenge to American Primacy, BBS Publications, New York, United States of America.
+Economista
