Flávio Bolsonaro, neste debate na Bandeirantes (Band), apareceu, como sempre, sem propostas mas com um tom desafiante, insistindo que Lula é o líder do desgoverno do Brasil, apostando em frases-chave chocantes: "Tenho de ter cuidado com a carteira, não quero estar perto de você!".

Apesar de fraco em propostas ou ideias para o futuro do Brasil, o incumbente Lula da Silva conseguiu articular claramente mais, insistindo na questão do que fez para alicerçar o país nas bases para se desenvolver e crescer de forma sólida, enquanto Flávio apostou no que foi antecipado por vários analistas: conseguir momentos quentes para depois inundar as redes sociais com eles. Conseguiu uma mão cheia de momentos desses.

As sucessivas trocas de acusações, ainda ainda, quanto ao conteúdo, favoreceram Lula, como aquele momento em que este acusa Flávio de ter como único objectivo entregar as riquezas do Brasil aos Estados Unidos, ou quando, além da proposta de acesso às contas de ambas as famílias, disse que até Jair, pai de Flávio, pode votar Lula por conhecer "muito bem" o filho.

No relato da Lusa sobre este debate, é notado que os moderadores intervieram pouco e os candidatos à Presidência do Brasil aproveitaram repetidamente as intervenções para se atacarem mutuamente e tentar ganhar vantagem para as eleições de domingo.

O debate, que durou cerca de duas horas, com três curtos intervalos, organizado pela televisão Bandeirantes (Band), foi o primeiro frente a frente entre os dois durante a campanha.

Uma das partes do debate contou com um confronto livre de meia hora, o que possibilitou ainda mais a troca de acusações.

"Não quero ficar perto de você. Quero distância de um miliciano", disse o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), numa acusação a Flávio Bolsonaro, quando o senador lhe pediu para se aproximar dele.

"Tenho de ter cuidado para a carteira não ser roubada", retorquiu Flávio Bolsonaro.

Num outro momento, Flávio Bolsonaro, que procurou chamar para si a responsabilidade e a melhoria na segurança pública, questionou porque 73% dos presidiários votaram em Lula da Silva.

Ao que o Presidente brasileiro respondeu: "eu quero que votem 100%, até o teu pai. Seu pai pode votar em mim (...) ele te conhece e ele sabe que eu sou melhor que você".

O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, ex-Presidente brasileiro (2019-2023), foi condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Em paralelo à transmissão, as contas oficiais das duas candidaturas publicavam quase imediatamente excertos das intervenções, amplificando os ataques dos candidatos e respondendo às acusações dos adversários.

As acusações de corrupção incluíram referências mutuas ao caso Banco Master e um desafio de Lula para que ambos abrissem as contas bancárias e o sigilo telefónico, entregando os elementos aos presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral.

"Não tenho nada a esconder", respondeu Flávio Bolsonaro, antes de acusar Lula de ter dinheiro "por fora".

O senador invocou também os nomes que estavam na sala a assistir o debate, como o antigo juiz Sergio Moro e o antigo procurador Deltan Dallagnol, figuras da operação anticorrupção Lava Jato, ao atacar o adversário: "quem te prendeu está aqui".

Na segurança pública, um dos temas em que mais insistiu, Flávio Bolsonaro prometeu declarar guerra ao "narcoterrorismo" e "recuperar cada metro" dos territórios controlados por organizações criminosas e instalar um milhão de câmaras.

"Quem vai andar com medo na rua são os marginais", afirmou, acusando Lula de estar preocupado com os "direitos dos bandidos".

Lula questionou a relação da família Bolsonaro com os Estados Unidos (EUA), acusando-a de estar "subordinada aos interesses [norte-]americanos", e destacou o valor estratégico das terras raras brasileiras.

"Têm pretensões de entregar isso para os Estados Unidos?", questionou Lula.

"Isso é uma mentira", respondeu Flávio Bolsonaro, que defendeu a deslocação aos EUA e defendeu ainda a adesão do Brasil ao Escudo das Américas, uma aliança liderada por Washington para combater o tráfico de droga e o crime organizado.

Houve também tempo para Lula da Silva atacar o rival associando-o aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos EUA, Donald Trump, e o candidato da oposição respondeu associando o adversário ao chefe de Estado da Nicarágua, Daniel Ortega, e ao Presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado em janeiro por Washington.

Até nas considerações finais houve tensão, com Flávio Bolsonaro a ser advertido para não caminhar atrás de Lula enquanto o Presidente brasileiro discursava. Flávio também foi interrompido pelo barulho da plateia.

Lula agradeceu a mobilização nas ruas em defesa da democracia: "obviamente que o meu adversário deve ter assustado, porque ele está vendo as ruas tomadas neste país".

O Presidente brasileiro defendeu o seu legado económico e disse que "o país está preparado para muito mais agora".

Flávio Bolsonaro prometeu trabalhar para aumentar o rendimento dos brasileiros através de um Ministério da Prosperidade e voltou a apostar na segurança pública: "Quem tem que andar com medo na rua são os marginais".

No final, os convidados do espaço VIP prolongaram o confronto com cânticos semelhantes aos de claques de futebol.

Na primeira volta, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição.