Na agenda oficial, as tarifas norte-americanas sobre as exportações chinesas, o aperto das condições para a importação pelos EUA de "terras raras" da China, a questão de Taiwan, ou até as guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, predominam.

Na agenda "secreta", é a disputa pelo domínio da nova ordem mundial entre estes dois gigantes que sobressai, desde logo a crescente importância da moeda chinesa no comércio global e o espelho que reflecte a perda de importância do dólar dos EUA quase na mesma medida.

É que se o norte-americano chega a Pequim com a bagagem repleta de objectivos económicos, procurando armadilhar a ascensão chinesa no mundo, elogiando o seu homólogo e "bom amigo" Xi Jinping, o anfitrião não se esquece que em Washington se olha para a China como "o" inimigo.

E isso não é apenas evidente ao reler os documentos oficiais do Pentagono, ou de think-tanks como a Rand Corporation, que apontam para a inevitabilidade de uma guerra cinética com a China até 2030, nalguns casos esse calendário encolhe mesmo para 2027.

É-o ainda porque, mesmo antes de chegar à Casa Branca para um segundo mandato, em 2024, em plena campanha eleitoral, Donald Trump, num encontro alargado com a maior parte dos líderes das grandes indústrias e da "finança" norte-americana, lhes prometia que não iria permitir que a moeda chinesa substituísse o dólar como moeda-franca global.

Identificando mesmo essa como a maior ameaça ao domínio planetário norte-americano, comparando a eventual perda ao que seria a mais desastrosa derrota militar para os Estados Unidos de sempre, dando como exemplo do que seria, nesse campo, preciso assim que fosse Presidente, garantir o regresso do USD como moeda "oficial" nas trocas comerciais entre China e Rússia, China e Índia ou até China e Irão, entre outros exemplos.

Este histórico de atrito entre os dois gigantes da economia planetária não é impeditivo, porém, de que tanto Trump como Jinping repitam sempre que a oportunidade surge, que Pequim e Washington devem dialogar, cooperar e tudo fazer para melhor as suas relações bilaterais.

Um dos passos nesse sentido foi mesmo dado pelo anterior Presidente dos EUA, Joe Biden, que admitiu, a meses de deixar a Casa Branca, que a ordem mundial baseada nas regras definidas pelo ocidente no pós-II Guerra Mundial, que permitiu o domínio global dos norte-americanos e dos seus aliados ocidentais no mundo, "já não existe".

E não existe porque há vários anos que a aproximação entre potências emergentes ou já consolidadas mas ainda sem estatuto internacionalmente reconhecido, como Rússia e China, e depois extensível aos BRICS, onde predominam o Brasil e a Índia também, se organizam no sentido de tirar chão à supremacia norte-americana.

Xi Jinping, como o Presidente russo Vladimir Putin, sempre que o assunto da nova ordem mundial sobe ao "palco", referem-se ao novo modelo que preconizam como estando assente na cooperação global entre iguais visando o desenvolvimento universal e não restrito ao ocidente, que é o mesmo que dizer, aos amigos dos EUA,

Será esse o fio condutor das conversações ao longo desta visita de Donald Trumo à China entre 13, já mesmo no final do dia, e 15, com um tête-à-tête previsto para Quinta-feira, 14, onde ficará claro se Pequim e Washington estão em rota de colisão ou num período de aproximação estratégica.

Alguns analistas, como o economista norte-americano Jeffrey Sachs, entendem que os dois países estão fadados ao entendimento, com mais ou menos tensão, porque precisam ambos um do outro, seja porque para os EUA aceder aos 1,4 mil milhões de consumidores chineses é fundamental, seja porque a China precisa de mercados capazes de absorver uma boa parte da sua produção tecnológica e de maior valor acrescentado que só existem, ainda, entre o universo dos países ocidentais.

O que não invalida que Jinping e Trump não tenham, antes de mais, dois problemas bicudos para ultrapassar, desde logo o mais mediático de todos, como se pode perceber pela leitura dos media internacionais, que é a guerra lançada pelos EUA e Israel contra o Irão, um parceiro estratégico da China e a quem a diplomacia de Pequim já garantiu que não vai virar as costas.

Isto, sabendo-se que tanto os EUA como Israel acusam Pequim de apoiar o Irão pelas traseiras quando pela frente garante que o não está a fazer, militarmente, embora o ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, na recente visita do seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, tenha sido claro ao reafirmar que a China não abandonará o Irão.

Há, porém, questões que para os chineses não são sequer de ponderação para debate, como a questão de Taiwan, que os EUA, embora assumam a política de "uma só China", enchem de armas sofisticadas ao mesmo tempo que querem que Pequim não forneça equipamento militar ao Irão.

A outra questão, que pode ser retalhada em dois pontos, como a diplomacia chinesa fez questão de enfatizar publicamente, que é a situação dos Direitos Humanos, a forma como ambos os países lidam com os seus parceiros internacionais em função dos seus regimes mais ou menos democráticos.

Além disso, e projectos de investimento global, como são, do lado chinês, a Nova Rota da Seda, ou o recente regresso de Washington ao palco global, como ocorre em África e de onde sobressai a aposta no Corredor do Lobito, entre Angola e a RDC/Zâmbia, desafiando o acesso privilegiado de Pequim às matérias-primas estratégicas daquela geografia do continente.

E, por fim, a China não abdica, nem admite a interferência norte-americana, ou ocidental, no geral, nos seus planos de desenvolvimento económico de longo prazo, que, naturalmente, em determinados momentos tende a chocar com os interesses geoestratégicos dos Estados Unidos.

Já do lado norte-americano, o que Donald Trump quer desta histórica visita, a primeira em quase uma década de um Presidente norte-americano, sendo que foi ele que lá esteve pela última vez em 2017, está claro na comitiva que escolheu para com ele seguir para Pequim, essencialmente constituída pelos bilionários das tecnológicas, fundos de investimento e gigantes da indústria, de onde se destaca Elon Musk, da Tesla, Tim Cook, da Apple, Stephen Schwarzman (Blackstone), Larry Fink (BlackRock), David Solomon (Goldman Sachs), Larry Culp (GE Aerospace), Kelly Ortberg, da Boeing.

Em síntese, se Donald Trump procura com esta visita à China abrir portas para um mercado gigantesco vital para as grandes empresas e para a produção agrícola norte-americana, pelo menos enquanto não chega o momento do "confronto final", como o Pentagono acredita que vai ocorrer até 2030, Xi Jinping quer conduzir Trump para a mesa onde está a ser desenhada a nova ordem mundial, na qual os EUA deixam de ser o poder hegemónico.

Enquanto por detrás dos panos dois gigantes chocam nos seus interesses e estratégias globais, sob os holofotes dos media mundiais, Pequim e Washington procuram parecer que não são os maus da fita, com sinais de bom relacionamento, como o anúncio de Pequim, relatado pela Bloomberg, da maior compra de sempre de aviões Boeing, enquanto de Washington se espera um alívio nas tarifas sobre os bens importados do Gigante Asiático.

Isto, num contexto comercial entre os dois países em que a China mantém, embora em queda, um superavit anual com os EUA de mais de 200 mil milhões USD, com importações de pouco mais de 140 mil milhões USD e exportações superiores a 430 mil milhões USD, números claramente marcados pelas guerra comercial declarada por Trump em 2025, com a aplicação de tarifas recorde aos produtos chineses.

Dados de Junho de 2025 indicavam que os EUA, apesar da disputa com Pequim, continuam a comprar massivamente produtos agrícolas e commodities chinesas, enquanto a China mantém a alta tecnologia, como componentes para carros elétricos, terras raras, máquinas e equipamentos eléctricos, aparelhos electrônicos, componentes industriais, produtos químicos e, entre outros, vestuário.

Em sentido inverso continuam igualmente a seguir massivamente produtos agrícolas, como a soja, aeronaves, semicondutores, produtos de origem tecnológica 2.0 e, entre outros, energia, principalmente petróleo em bruto.