Nada está perdido, mas o Memorando de Entendimento (MdE) assinado na quinta-feira, 18, pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, e que deveria estar em vigor hoje, não podia começar pior.

E um dos sinais de que a paz ficou sem uma perna logo à partida, devido aos ataques israelitas no Líbano, que deveriam ter parado e tal não sucedeu, é que os mercados petrolíferos voltaram a agitar-se esta manhã passando de novo para cima dos 80 USD por barril de Brent.

Com efeito, o sinal de que algo vai mal no projecto de paz de Donald Trump é que o seu vice-Presidente, JD Vance, desmarcou a viagem para a Suíça, onde deveria encontrar-se pela primeira vez de forma presencial com a parte iraniana.

Isto, quando o Irão, ainda na quinta-feira, horas antes de o documento ter sido assinado, electronicamente, por Trump, em Versalhes, França, na reunião do G7, e Pezeshkian, em Teerão, tinha dito que voltaria a atacar Israel se o Líbano não visse a paz também.

Apesar deste revês nas gigantescas expectativas de que a paz seria efectivada a partir de agora, nada está perdido, até porque o MeD é claro nesse aspecto: a sua aplicação decorre em dois períodos distintos.

Os primeiros 30 dias são para acertar tudo para a sua aplicação e dar luz verde aos pontos mais simples dos 14 que o compõem, como a abertura do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio norte-americano aos portos iranianos.

Já os mais complexos, como o programa nuclear iraniano, têm 60 dias para iranianos e norte-americanos acertarem as agulhas de forma a que os EUA garantam que Teerão não avança para uma arma nuclear, e os iranianos mantenham o seu programa nuclear civil soberano e activo.

Mas se nada está perdido, as perspectivas poderiam ser melhores, porque até um porta-voz da Casa Branca, que confirmou o cancelamento da ida de Vance à Suíça, admitiu que "nada neste processo é simples e a sua logística nunca foi previsível".

A razão para tal é claramente a nada surpreendente tentativa de Israel de fazer descarrilar este MeD, de cujo o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, já disse claramente que dele discorda totalmente, com ataques ininterruptos no Líbano.

Estes ataques, claramente com o objectivo de "queimar" o documento que contém as várias etapas do caminho da paz no Médio Oriente, deixaram de ser uma dúvida para serem parte da "paisagem" quando as forças radicais em Telavive o disseram claramente.

Itamar Ben Gvir, o ministro da Segurança Nacional, e líder do Partido Otzma Yehudit, anti-árabe e ultra-nacionalista da extrema-direita, de quem Netanyhau depende para manter o seu Governo, já disse que este acordo faz de Israel "uma república das bananas" e que "de maneira nenhuma será implementado".

E é isso que está a acontecer, porque o MeD determina que a guerra termine em todas as frentes e para o Irão esse é um ponto incontornável, sendo que o Líbano e Gaza fazem parte de todas as frentes, mas onde Israel ainda não deixou de matar e destruir aldeias e vilas a um ritmo em tudo igual a antes da sua assinatura.

Enquanto isso, em Teerão, o negociador-chefe da delegação iraniana e Presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf, já garantiu que o Irão "não vai tolerar nenhuma brecha no acordado" e que compete a Donald Trump controlar os israelitas.

Embora Israel procure por todos os meios esfumar este Memorando de Entendimento americano-iraniano, há partes relevantes do seu conteúdo que estão a ser aplicadas sem problemas de maior, até ver.

Desde logo o levantamento do bloqueio naval americano aos portos iranianos e o processo de abertura do Estreito der Ormuz, mais lento, porque impõe a limpeza das minas navais ali "semeadas" pelo Irão e a reconfiguração das normas de uso pelos navios.

Fica claro que o Irão não vai cobrar portagens como tinha exigido, mas deverá contar com esses mesmos "dividendos" através da cláusula de apoio à reconstrução dos danos da guerra de 300 mil milhões USD que serão, em grande medida, assegurados pelos países árabes do Golfo Pérsico.

Seja como for, sabia-se há muito que o maior problema não seria o Estreito de Ormuz, que estava aberto sem restrições antes do ataque criminoso, à luz da lei internacional, da coligação israelo-americana contra o Irão a 28 de Fevereiro.

O estatuto de maior complicação estava e está reservado para o sul do Líbano no que toca às condições para que a paz chegue mesmo ao Médio Oriente. O que os ataques israelitas persistentes confirmam e ameaçam transformar o MeD em cinzas.

O jornalista da Al Jazeera Rob McBride, em Beirute, relata que o momento actual é de grande expectativa para o que vai suceder nos próximos dias, porque existe uma consciência nítida de que disso vai depender a paz ou a guerra.

"O Líbano é a maior ameaça a este acordo em perspectiva, porque o Irão já avisou que a integridade do Líbano é fulcral e isso exige que as forças israelitas deixem estes territórios que ocupam no sul do país", aponta o repórter da televisão do Catar na capital libanesa.

Só que sendo essa uma condição sine qua non para Teerão, McBride nota que "não há quaisquer sinais de que Israel se prepare para sair do sul do Líbano", acrescentando que se há sinais são o contrário disso, a determinação de Telavive de manter a ocupação.

O que, se se consentir em como a saída das forças israelitas do sul do Líbano é determinante para a prossecução do MeD e do seu conteúdo, então uma certeza emerge: Tudo depende de Trump ser ou não capaz de "subjugar" Netanyhau.

E há quem defenda que os EUA podem impor a sua vontade a Benjamin Netanyhau facilmente, como é o caso de Barbara Slavin, membro do think tank norte-americano Stimson Center, que nota que a via israelita foi sobejamente tentada e os resultados são os que se podem ver e não podiam ser piores.