Tal como em Março de 2022, o Presidente Volodymyr Zelensky e o Presidente russo Vladimir Putin deram a sua "bênção" às negociações de paz na Turquia, também agora parece que em Kiev, atesta Kyrylo Budanov, o principal conselheiro do Chefe de Estado, se quer regressar ao diálogo já em Setembro.
E sabe-se que em Moscovo Putin tem repetido a sua disponibilidade para colocar um ponto final neste conflito, mesmo que as condições que impõe sejam pesadas para Kiev, ao mesmo tempo que Zelensky, na capital ucraniana, também fala em paz, mas com escassa margem de manobra oferecida ao Kremlin.
Agora, depois de um intrincado e recambolesco episódio (revisitar aqui) que envolveu uma visita não anunciada do director da CIA a Moscovo num avião que nunca passaria desapercebido, Kyrylo Budanov, o chefe de Gabinete de Zelensky, diz que as conversações de paz podem ser retomadas nos próximos dias.
Só que, tal como em 2022, no mês de Abril, agora, em 2026, quase cinco anos após o começo do mais devastador e letal conflito na Europa desde a II Guerra Mundial, onde os países da NATO alimentam com armas e dinheiro fornecido abundantemente a Kiev a guerra com a Rússia, também outro primeiro-ministro britânico aposta tudo em acrescentar sequelas a um "filme" que já ninguém quer ver nas salas de cinema.
Com efeito, Andy Burnham, o novo primeiro-ministro britânico, o único dos grandes países europeus que foi a Kiev para festejar o 35º aniversário da independência da Ucrânia, na passada segunda-feira, 24, não apenas fez o mesmo que o seu antecessor, Boris Johnson, em 2022, foi ainda mais longe.
Se Johnson deu a Zelensky garantias, em nome da NATO, de entrada directa e sem obstáculos na NATO e na União Europeia se mantivesse a guerra com os russos ao invés de negociar com eles a paz, prometendo-lhe ainda dinheiro e armas ilimitados e até onde fosse preciso, Burnham ofereceu ao Presidente ucraniano os segredos para produção no país dos seus mais modernos e poderosos mísseis, os Storm Shadow.
Além disso, o chefe do Governo londrino reafirmou o "total empenho" do Reino Unido em apoiar a Ucrânia para derrotar nas trincheiras as forças russas, ao mesmo tempo que, numa expressão curiosa, o seu ministério da Defesa fez saber, avança The Guardian, que Londres "permanece ombro com ombro ao lado da Ucrânia".
Essa mesma fonte da Defesa britânica garante ainda que Londres vai fornecer a Kiev "todo o apoio que estiver ao seu alcance" e que "permanece intacto o empenho em entregar aos ucranianos tudo o que precisarem para combater a invasão ilegal de Putin da Ucrânia contra este país e contra o Reino Unido e os seus aliados ".
Com o botão do rewind carregado a fundo, Londres pretende assim, sendo como é desde o começo do conflito, o mais empenhado falcão de guerra para garantir que as hostilidades não param, tal como em Março e Abril de 2022 foi um primeiro-ministro britânico que levou ao desmoronamento das negociações de paz de Istambul que já tinham, inclusive, levado ao desenho de um rascunho com os principais pontos acordados para a paz.
Não é por acaso de Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, veio, nas últimas horas, e quase ao mesmo tempo que em Kiev Budanov dizia que a Ucrânia quer negociações de paz já em Setembro, avisar Londres que as infra-estruturas militares britânicas que fornecem equipamento a Kiev "estão na mira" dos mísseis russos, "estejam elas onde estiverem localizadas".
Alguns analistas consideram que o Reino Unido está neste momento a ser já um incómodo para Kiev, porque o próprio Kyrylo Budanov, que foi até agora, na condição de chefe das secretas ucranianas, antes de ser Chefe de Gabinete do Presidente, quando questionado se tem em mente negociações à mesma mesa com Moscovo, disse que essa é a sua "esperança" mas com os norte-americanos também nela sentados.
Budanov não disse que queria britânicos, franceses ou alemães presentes nas negociações com a Rússia, quer apenas os Estados Unidos de Donald Trump, que tem insistido na decisão de reduzir o apoio a Kiev, deixando mesmo de fornecer armamento e dinheiro directamente, sendo essa a razão para a ausência quase a 100% de defesas anti-balísticas no país.
Numa altura em que a tensão sobe entre Washington e Moscovo, o que pode ser a razão para a visita aparatosa e mediaticamente ruidosa, mas ainda por explicar, do director da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo, na terça-feira, 25, é já claro para muitos analistas que Londres, face ao descalabro militar na Ucrânia, indefesa perante a superioridade aérea russa, procura puxar os americanos para a linha da frente, de novo, do apoio a Kiev.
E o próprio Volodymyr Zelensky já veio confirmar que enviou "novas propostas" a Donald Trump para reatar as negociações de paz, embora de conteúdo desconhecido por agora, mas claramente pressionado pela chegada do Inverno em breve, onde as temperaturas extremamente baixas, até -20º de média, e o colapso da infra-estrutura energética ucraniana, aconselham Kiev a procurar outra saída que não uma impossível, pelo menos no horizonte visível, vitória militar contra os russos.
No campo militar, além de o porta-voz do Kremlin ter já vindo dizer que a Rússia não pretende nem precisa de escalar o conflito porque está a avançar no terreno de acordo com o planeado, com o Donbass quase tomado, o que era o objectivo inicial da invasão, a Ucrânia está neste momento à mercê, indefesa, dos mísseis balísticos e dos novos tipos de drones russos, equipados com motor a jacto.
Embora seja igualmente notório que, através dos seus mísseis de longo alcance. Fornecidos pelos aliados ocidentais, principalmente o Reino Unido, Kiev tem provocado danos avultados na economia russa, desde logo na sua rede de distribuição comercial e infra-estrutura energética, especialmente refinarias e transporte global de crude.










