Ninguém dúvida que a Ucrânia sem o apoio dos EUA, como o próprio Volodymyr Zelensky admite, está condenada a perder a guerra para a Rússia, e ao acusar Donald Trump de ser "um Presidente fraco" o ucraniano pode ter assinado a sua própria sentença.

"Fraco" é tudo o que Trump não quer parecer, porque toda a sua Presidência é fundeada na ideia de que ele dá corpo ao mais corajoso dos inquilinos que passaram pela Casa Branca e ser apelidado de "fraco" a escassas duas semanas das eleições intercalares de 03 de Novembro pode ser um golpe que o norte-americano pode não perdoar.

E já há sinais de que não perdoou, porque logo a seguir, como agora Zelensky veio de novo a terreiro acusar o norte-americano, os EUA cortaram ou reduziram o sinal de internet da Starlink, a rede de satélites de Elon Musk, que é usada para guiar os drones e mísseis ucranianos nos ataques em profundidade do território russo.

Esta azeda troca de acusações entre Trump e Zelensky, como admitem vários analistas, sendo disso exemplo Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de vários livros sobres o conflito no leste europeu, não pode acabar bem para o ucraniano.

Até porque, recorda, a tessitura das imputações de um sobre o outro é de tal monta que nem sequer seria possível, em condições normais, manter intocadas as relações bilaterais ao nível de Estado a Estado, sendo o melhor exemplo disso Trump ter acusado já este fim-de-semana Zelensky de "nunca ter querido o fim da guerra".

Ao afirmar que Volodymyr Zelensky não serve para se manter como Presidente da Ucrânia, que não é confiável e que "nunca quis o fim da guerra" que já podia ter acabado há muito se o ucraniano estivesse alinhado com esse objectivo, a questão é como vai o ucraniano sobreviver a este momento?

A resposta deu-a o próprio Zelensky, ao deslocar-se imediatamente a seguir a Bruxelas, para, junto dos seus aliados da União Europeia, lhes pedir mais 155 mil milhões de euros para aguentar a guerra em 2027 e mais 55 mil milhões para já, de formas a criar um escudo extraordinário para poder gerir este desalinhamento com Washington.

O problema para o Presidente ucraniano, que vem adiando as eleições desde Maio de 2024, ao abrigo da lei de guerra no seu país, é que os seus aliados europeus estão mergulhados na mais severa das crises económicas das últimas décadas, com protestos populares gigantescos em França, Alemanha, Espanha, Portugal, Bélgica...

... sendo estes protestos na Europa Ocidental, que enchem por estes dias os media de todo o mundo, gerados pela crise que resulta do corte no acesso à energia barata e fiável da Rússia, gás e petróleo, ao abrigo das dezenas de pacotes de sanções económicas a Moscovo.

Sem garantias de Washington, apesar de Trump dizer que ainda não desligou totalmente a ficha, mantenha o apoio fulcral para poder continuar a resistir aos ataques russos, e com a Europa mergulhada no caos social e económico, sabendo que crescem exponencialmente as opiniões públicas que criticam o apoio dos seus países a Kiev, Zelensky pode estar a chegar a um beco sem saída.

Uma das situações mais graves é a escassez de mísseis interceptores Patriot, nos stocks ucranianos, que se deve, atacou ainda Zelensky, ao facto de os EUA não estarem a cumprir o contratado com Kiev para entrega mensal de uma determinada quantidade destas munições.

Resultado disso, e da incapacidade de a Europa substituir os EUA, os ataques russos das últimas semanas ocorrem sem qualquer resistência ucraniana, estabdo, como aponta Trump, o país á beira do colapso, "de pantanas".

Até porque, agora, Trump tem, quase diariamente, insistido na sua rede social, Truth Social, no alívio das sanções à Rússia, de forma a permitir que o crude, o gás e os combustíveis refinados russos cheguem aos mercados para aliviar os preços do gasóleo e da gasolina nos EUA, cujos níveis recorde em alta estão a "matar" as possibilidades de êxito eleitoral do seu Partido Republicano.

O Presidente norte-americano insiste ao mesmo tempo que um dos seus principais objectivos é acabar com a guerra na Ucrânia, mas acusa Zelensky de a querer prolongar porque "conta com todo o dinheiro que a União Europeia, e os EUA no tempo de Joe Biden" só tem incentivos para impedir que o conflito chegue ao fim.

"Ele podia ter feito um acordo com Moscovo há dois anos muito melhor do que aquele que pode fazer agora mas que teima em não avançar", atirou ainda Donald Trump, depois de ouvir o ucraniano dizer, numa entrevista à NBC, que se sente "traído" por ele.

E na mais recente publicação na Truth Social, Trump assume que mantém o desígnio de conseguir a paz entre russos e ucranianos e que está a fazer tudo para que a Rússia "não deixe a mesa das negociações".

Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, veio acusar Zelensky de estar a resistir a negociações sérias porque está consciente de que o seu regime colapsa no dia em que esta guerra acabar.