Angola, com a sua vasta extensão, e a fama de possuir recursos insuspeitos, tem sido vítima frequente desses episódios febris, com resultados quase sempre desastrosos, num frenesim que começa, não se sabe bem como, se propaga à velocidade da luz, e (i)mobiliza populações inteiras que, qual marionetas agitadas por uma vontade súbita, se põem a cavar, com uma energia avassaladora, à procura do graal, ainda que, na grande maioria das vezes, apenas consigam ver desfazerem-se as ilusões que os animaram, ou, simplesmente, deixem de ver, soterrados em mais uma tragédia, ou pobres vítimas do ambiente de faroeste que não deixa de se criar nos locais onde se desenrolam estes nefastos filmes.
Os alvos têm sido os mais variados: os sempre atractivos diamantes encimam a lista, fazendo jus à propaganda que os afirma eternos, mas houve também a febre do mercúrio e a do quartzo, para não me referir às febrículas que prometem dinheiro fácil (ou o necessário para o pão dos kandengues lá em casa), e que têm levado ao contrabando de quantidades enormes de combustível, ou à destruição de infra-estruturas públicas roubando-se metais, com efeitos amiúde catastróficos, como o derrube de torres de transporte de energia em alta tensão.
A última das febres, que assumiu agora a proporção de catástrofe nacional, é a do ouro. A notícia da morte por deslizamento de terras numa mina ilegal em Nambuangongo, no Bengo, e que, num primeiro balanço, provocou 28 vítimas, é uma confirmação da gravidade do fenómeno. Antes, já outras tragédias tinham ocorrido no Centro-Sul do País, no Huambo e na Huíla, tendo o vice-governador desta última informado que uma ampla operação policial nos últimos tempos teria "desmantelado" grupos de garimpeiros ilegais que perfaziam dezenas de milhares de integrantes, destruindo acampamentos provisórios e confiscando dinheiro, ferramentas e armas. Recentemente, também o Governador do Uíge alertava para a gravidade do fenómeno que ali ocorria, e que desviava para esta actividade uma parte considerável da juventude, que optava por cavar buracos à procura de ouro, em detrimento dos necessários para o cultivo da mandioca, ou de outros produtos agrícolas.
Tendo consciência do quão difícil é deter este tipo de fenómeno, é urgente a aplicação de políticas que impeçam, ou pelo menos diminuam drasticamente a possibilidade de repetição de mais tragédias. E é preciso assumir que só a repressão não resolve os problemas. Afinal, a experiência permite-nos retirar essa conclusão. A febre não é senão um dos sintomas das graves doenças que nos afectam: como a falta de educação, a falta de oportunidades profissionais para a juventude, a falta de infra-estruturas no campo - como estradas em bom estado, electricidade, água potável e saneamento básico - que impulsionem o trabalho agrícola, incentivando o aumento de produção de excedentes que possam ser vendidos a preços razoáveis numa rede de comércio rural confiável, assim como a criação de novos negócios que acomodem as ilusões da juventude e lhes garanta futuro.
É preciso oferecer futuro aos jovens, para acabar com a febre.
