Uma equipa de reportagem do nosso jornal partiu nesta segunda- feira, 25, e trabalhou em Kissakala, Kanakassala e Kifula localidades onde viviam 21 dos jovens aldeões falecidos. As duas primeiras viram partir prematuramente quatro jovens cada uma e a última foi a mais afectada com 13 mortos. É o ouro de sangue como destacamos na nossa capa.
Mas esta tragédia fez a sociedade despertar para uma situação que se está a generalizar por todo o país, com registos de exploração, prisões e mortes nas províncias da Huila, Uíge e Bengo. A falta de oportunidades de emprego, de expectativas de vida , as dificuldades e fragilidades sociais , as carências e necessidade de garantir sustento têm sido algumas das razões evocadas por familiares e amigos dos jovens para justificar à corrida desenfreada para exploração de ouro. Jovens sem qualquer experiência ou conhecimento dos perigos da actividade mais que se entregam na busca de melhores condições de vida. Segundo Carlos Setas Pires, especialista no sector mineiro, é preciso assumirmos que que a actividade de garimpo de ouro , " é uma prática marginal" que conduz ao enriquecimento ilícito dos chamados patrocinadores que " exploram miseravelmente as populações autóctones ". Tem sido registada nos locais de exploração a presença de cidadãos da República Democrática do Congo, Senegal, Mali e China, que na maior parte das vezes fazem o papel de patrocinador-comprador.
Os órgãos da administração local e os órgãos de segurança são acusados de contribuírem para a manutenção da desordem e ilegalidades, não sendo capazes de intervir de forma eficaz. Moniz Alfredo, secretário provincial da UNITA no Bengo, foi um dos primeiros a chegar à mina de Missaxi e prestar solidariedade aos familiares das vitimas. Foi também ele que por via das redes sociais foi despertando o pais e o mundo para a tragédia que tinha começado naquele sábado. Em declarações ao NJ, acusou à administradora municipal de Nambuangongo, Deolinda Adão de " ter indivíduos a trabalharem para si no garimpo ilegal de ouro" em Kanakassala. Uma situação que mereceu da acusada uma nota de protesto, considerando " caluniosas e difamatórias" as declarações do representante da UNITA na provincia.
"É tempo de perguntar às autoridades competentes da indústria mineira do nosso país se já existe, ou existiu no tempo colonial, alguma exploração industrial de ouro no nosso país que justifique a propaganda institucional em torno deste vil metal, que tem conduzido a essa corrida infernal?", questiona Carlos Setas Pires no seu comentário a matéria do NJ. São várias questões levantadas e debates abertos. O importante é que se tirem lições da tragédia de Nambuangongo. Que se tenha a coragem de agir e de não normalizar o anormal. O certo é que todos viram e sabiam o que se passava, ou o que se está a passar. Este caso não é o primeiro no país e na região, só tomou esta dimensão por causa do número de vítimas mortais. É também uma situação que revela a incapacidade e falta de competência do Estado para gerir esta e outras situações. É revelador de um país onde jovens são levados a arriscar as suas vidas em busca de sonhos e de uma vida melhor. Onde o professor Henrique Filipe deixou a escola na aldeia de Kifula para tentar ganhar a vida nas minas de Missaxi. Um país onde cidadãos nacionais e estrangeiros exploram estas fragilidades e necessidades da população para enriquecer. Um país onde passadas 96 horas ( até ao fecho desta edição) e o Presidente da República, João Lourenço, não foi capaz de emitir uma nota de condolências pela morte de 29 cidadãos do seu país e nem onde um único ministro do seu Executivo deixou Luanda para ir até Nambuangongo. A governadora do Bengo, Maria Antónia Nelumba, foi a mais alta entidade presente nos momentos de dor e a UNITA enviou uma delegação de alto nível chefiada pela líder do seu Grupo Parlamentar, Navita Ngolo que acompanhou o funeral das vítimas. Adalberto Costa Júnior foi o primeiro líder político a enviar uma nota de condolências no domingo, 24 de Maio. No dia seguinte, a delegação da União Europeia em Angola solidarizou-se com as vítimas de Nambuangongo, deixando mensagem de pesar na sua página do Facebook.
João Lourenço esteve nas últimas 48 horas em visita de trabalho à província do Zaire e deixou Nambuangongo para as " calendas gregas", já nos vai habituando que age com rapidez nas notas de solidariedade com a dor a alheia e tem uma certa " inactividade" com a dor dos seus compatriotas.
Nambuangongo, o novo El Dorado
Jovens perderam a vida durante um deslizamento de terra que ocorreu na madrugada de sábado , 23 , numa actividade de garimpo ilegal de ouro na mina de Missaxi em Nambuangongo, província do Bengo. Um dos três sobreviventes acabou por falecer no hospital provincial do Bengo, acabando por fazer subir o número de vitimas mortais para 29, até ao dia do fecho desta edição do NJ.
