O bem-estar social coletivo é por natureza sinônimo de justiça social, entretanto, garimpar clandestinamente os recursos naturais é legítimo e sobretudo uma maneira política de se manifestar a sede pela justiça distributiva, uma forma rebelde de dizer a riqueza nacional é de todos e não de uma parte que gere o aparelho do Estado.
A tragédia avassaladora que ceifou vidas humanas na madrugada de sábado, 23 de Maio, não exterminou apenas a força motriz juvenil de NAMBUANGONGO, surripiou a esperança, multiplicou o ciclo de pobreza pelo número de órfãos e viúvas, mutilou sonhos, derrubou alguns mestres da vida, craques da bola e sobretudo exímio agricultores, como era o professor Henriques, homens que percebem o silêncio da natureza e conhecem o perigo que se esconde por detrás das árvores.
A decisão por se dedicarem na extração de ouro é um impulso movido pela lei da sobrevivência ancorada na miséria transversal que assola as famílias das vítimas.
Um dia antes do infortúnio, o professor Henriques foi a caça e pela mestria conseguiu alguns animais e foi a lavra colher alguns produtos para enviar a família (esposa e filhos) em Luanda a fim de acudir a fome, ainda no momento que preparava-se para ir para mina de Missaxi, as 04h, ligou a esposa e disse que não regressaria no sábado porque recebeu informações segundo as quais há ouro em abundância no Missaxi, foi assim que partir sem saber que ia para uma viagem sem regresso a casa.
Ninguém no uso perfeito do seu juízo seria capaz de estar contra a sua sede de viver, eles não partiram para a mina de Missaxi com a mesma missão com a qual o soldado vai na frente de combate, não foi para perderem a vida mas sim para dar sentido a ela.
A desgraça conspirou contra o desejo legítimo dos mineiros face ao deslize da terra que derramou sobre eles no fundo do túnel.
Não estamos a falar de jovens que dedicavam-se exclusivamente ao "garimpo", sempre foram aquilo que os seus pais e avôs são: camponeses, porém, não é certo que numa comunidade densa a única via de sobrevivência ou destino uniformizado para todos seja o cultivo, aliás, os desafios do contexto não se adequam as complexidades da agricultura familiar praticada pelos mesmos, têm de aguardar pelo processo natural da produção dos produtos que consomem perto de nove meses para dar frutos, não há meios tecnológicos de produção disponíveis para os jovens, apenas a catana e enxada, mas por que razão Angola pretende orgulhar-se em reter o sonho da sua geração Z no conformismo medíocre se no campo também saem jogadores e empresários excelentes?!
A designação de garimpo ou garimpeiro é um tipo de violência simbólica que visa silenciar o grito de socorro e marginalizar as vítimas da má distribuição da riqueza nacional que são por norma a comunidade local da região rica em minérios.
Nas sociedades contemporâneas por onde a elite política é simultaneamente a econômica, o Estado facilmente perde a caraterística de pessoa de bem e passa a agir como instrumento de repressão contra qualquer tentativa cívica da atividade comercial ou luta de sobrevivência por que o conflito de interesses é desproporcional e a elite hegemônica compete ou vê o povo como concorrente na perspetiva do capitalismo selvagem, logo, usa-se o aparelho de Estado, nomeadamente as leis, a administração pública, os órgãos de defesa e segurança para reprimir o povo que no desespero procura por um livramento em relação a indigência que lhe apoquenta.
Portanto, o conceito de garimpeiro é uma designação marginal redutora que faz olho grosso ao X da questão no que as causas e consequências da pobreza diz respeito.
Então, um professor da função pública vai logo decidir ser marginalizado como garimpeiro quando ganha bem e tem uma vida social estável?
NAMBUANGONGO dista-se da baixa de Luanda por cerca de 200 km, mas quem for por lá não encontra absolutamente vida social, apenas selvajaria, viver a base de abate indiscriminado dos animais como ratos e outros, a fauna está ficando cada vez mais ameaçada com espécie animais em via de extinção, não há centros profissionais de grande envergadura, nem campo de futebol propício, a luz elétrica é quimera mas a terra está podre de riquezas naturais.
As riquezas de NAMBUANGONGO devem beneficiar primariamente o seu povo residente, não se pode ter apenas agricultores numa região em que há minerais, que mal tem em haver empresários que sejam proprietários de minas de ouro e são natos da terra?!
O Estado desde os tempos mais longínquos sempre beneficiou-se e teve os impostos como fonte primária do seu rendimento e, não é por competir riquezas com os cidadãos, porque nunca foi um gestor talentoso, muito menos um ótimo investidor. E, o Estado angolano não fosse a regra, deve facilitar as iniciativas privadas dos residentes que pretendem apostar na exploração do ouro, deve deixar de intimidar as criatividades brilhantes, como cobrador de impostos, já devia ganhar consciência do seu peso na vida dos cidadãos.
Todavia, a tragédia deve ser interpretada como manifesto de revolta e insatisfação a condição precária a que o povo foi submetido, deixem de discursos musculados sobre "DESMATAMENTO DE GARIMPO", orgulhem-se em desmantelar a fome, a miséria aguda. Não abram um precedente de guerra civil com o povo conforme fazem no leste de Angola, Lundas e Moxico, porque quando um Estado acostuma-se a proibir, depois proibir também inclusive algumas atividades lícitas como a agricultura familiar em algumas regiões por conta dos mineraias que jazem nos subsolos de NAMBUANGONGO. Deixem o povo ser próspero, por favor!
